Biografias

Andrew Carnegie ganhava US$ 1,20 por semana e virou o rei do aço

O filho de tecelão escocês trocou a fábrica de algodão pelo telégrafo, apostou no aço no meio de uma crise, vendeu tudo por US$ 480 milhões e decidiu dar a fortuna embora.

Redação 7 min de leitura
Foto: Theodore C. Marceau/Biblioteca do Congresso dos EUA (domínio público)

Andrew Carnegie foi um imigrante escocês que começou a trabalhar aos 12 anos, ganhando US$ 1,20 por semana numa fábrica de algodão, e terminou como dono da maior siderúrgica dos Estados Unidos. Em 1901, ele vendeu a empresa por US$ 480 milhões. Depois, fez algo raro entre os bilionários da época: doou quase toda a fortuna.

A história de Carnegie ajuda a entender como nasceram as grandes fortunas da Revolução Industrial americana, ao lado de nomes como John D. Rockefeller. Além disso, a vida dele junta temas que continuam atuais: subir do zero, investir no momento certo, enfrentar conflitos trabalhistas e decidir o que fazer com o dinheiro no fim da vida.

Quem foi Andrew Carnegie?

Carnegie nasceu em 25 de novembro de 1835, em Dunfermline, na Escócia. O pai, William, era tecelão de linho, segundo o Carnegie Hero Fund, fundação criada pelo próprio empresário. A família vivia com pouco dinheiro, e a pobreza acabou empurrando todos para fora do país.

Em 1848, os Carnegie emigraram para os Estados Unidos e se instalaram em Allegheny, cidade que hoje faz parte de Pittsburgh, na Pensilvânia. Segundo o History, o menino logo foi trabalhar como “bobbin boy”, o garoto que trocava os carretéis de linha numa fábrica de algodão. O salário era de US$ 1,20 por semana.

Casa onde nasceu Andrew Carnegie, em Dunfermline, na Escócia
Museu na casa onde Andrew Carnegie nasceu, em Dunfermline, na Escócia. Foto: Stanley Howe/Geograph (CC BY-SA 2.0)

Como Andrew Carnegie começou a ganhar dinheiro?

A virada veio pelo telégrafo, a tecnologia de ponta daquele tempo. De acordo com a Britannica, aos 14 anos Carnegie virou mensageiro num escritório de telégrafo. Em 1853, Thomas Scott, superintendente da Pennsylvania Railroad, uma das maiores ferrovias do país, contratou o jovem como secretário e telegrafista particular.

Na ferrovia, Carnegie aprendeu como funcionava um grande negócio. Em 1859, ele substituiu o próprio chefe como superintendente da divisão de Pittsburgh. Ao mesmo tempo, começou a investir: comprou participação na Woodruff Sleeping Car Company, empresa de vagões-dormitório, e em negócios de carvão, ferro e petróleo, segundo a Britannica e o History.

Retrato de Andrew Carnegie do acervo da Biblioteca do Congresso
Andrew Carnegie em retrato do acervo da Biblioteca do Congresso dos EUA, quando já era dono de um império industrial. Foto: Biblioteca do Congresso dos EUA (domínio público)

Os investimentos renderam tanto que, aos 30 anos, ele já tinha uma renda anual de US$ 50 mil, valor altíssimo para a época. Por isso, em 1865, Carnegie deixou a ferrovia para comandar a Keystone Bridge Company, que fazia pontes de ferro para os trilhos que se espalhavam pelo país.

Como Andrew Carnegie construiu o império do aço?

A partir de 1872, Carnegie decidiu concentrar tudo no aço. Ele tinha visto na Inglaterra o processo Bessemer, que transformava ferro em aço de forma mais rápida e barata. Assim, segundo a Britannica, suas empresas construíram as primeiras usinas dos Estados Unidos a usar esse método.

O momento parecia o pior possível. A obra da usina Edgar Thomson, em Braddock, perto de Pittsburgh, começou em janeiro de 1873, o mesmo ano em que uma crise financeira derrubou os Estados Unidos numa longa depressão. Mesmo assim, a usina produziu o primeiro aço em agosto de 1875 e, mais de 150 anos depois, continua em operação.

Com a usina pronta para atender a demanda das ferrovias, Carnegie cresceu ano após ano. Em 1890, segundo a Britannica, a produção de aço dos Estados Unidos passou a da Grã-Bretanha pela primeira vez, em grande parte por causa dele. Dois anos depois, em 1892, as usinas foram reunidas na Carnegie Steel Company.

O que foi a greve de Homestead?

O episódio mais sombrio da carreira de Carnegie aconteceu em 1892, na usina de Homestead, na Pensilvânia. Durante uma disputa com o sindicato dos metalúrgicos, o sócio Henry Clay Frick trancou os trabalhadores para fora da fábrica e contratou cerca de 300 seguranças da agência Pinkerton, segundo o History.

O confronto entre grevistas e seguranças deixou pelo menos 10 mortos. Depois de cerca de cinco meses, a greve terminou com a derrota do sindicato. Carnegie passava férias na Escócia e deixou a negociação com Frick, mas acompanhou tudo por telegrama, segundo outra reportagem do History. O caso marcou a imagem dele, porque em 1886 ele tinha escrito na revista Forum que os sindicatos eram benéficos tanto para os trabalhadores quanto para o capital.

Quanto Andrew Carnegie ganhou com a venda da Carnegie Steel?

No fim do século 19, a Carnegie Steel era uma máquina de dinheiro. Em 1900, a empresa lucrou US$ 40 milhões, e a parte de Carnegie foi de US$ 25 milhões, segundo a Britannica. Foi nesse momento que o banqueiro J.P. Morgan decidiu comprar tudo.

Em 1901, Morgan pagou cerca de US$ 480 milhões pela Carnegie Steel e juntou a empresa a outras para criar a United States Steel, a U.S. Steel. Segundo o History, ela foi a primeira empresa do mundo avaliada em mais de US$ 1 bilhão. Só a fatia de Carnegie na venda rendeu cerca de US$ 226 milhões, de acordo com a enciclopédia Wikipédia, o que fez dele um dos homens mais ricos do planeta.

Andrew Carnegie em 1905, depois de vender a Carnegie Steel
Andrew Carnegie em abril de 1905, quatro anos depois de vender a Carnegie Steel. Foto: Frances Benjamin Johnston/Biblioteca do Congresso dos EUA (domínio público)

Por que Andrew Carnegie doou a fortuna?

Carnegie já tinha deixado claro o que pensava sobre dinheiro anos antes da venda. Em junho de 1889, ele publicou o ensaio “Wealth” (riqueza), que ficou conhecido como “O Evangelho da Riqueza”. Nele, defendeu que os ricos têm o dever de usar o excedente da fortuna em favor da sociedade enquanto ainda estão vivos.

“O homem que morre rico morre desonrado.”

Andrew Carnegie, no ensaio “Wealth”, de 1889

Depois de 1901, ele passou a cumprir o que escreveu. Segundo a Britannica, as doações somaram cerca de US$ 350 milhões, sendo US$ 288 milhões nos Estados Unidos e US$ 62 milhões no Império Britânico. A marca mais visível foram as bibliotecas públicas: o Carnegie Hero Fund conta 2.508 comunidades atendidas no mundo de língua inglesa, a primeira delas em Dunfermline, em 1881.

Andrew Carnegie na inauguração de uma biblioteca em 1904
Andrew Carnegie na inauguração da biblioteca de Kettering, na Inglaterra, em 7 de maio de 1904. Foto: Autor desconhecido/Wikimedia Commons (domínio público)

Só nos Estados Unidos, foram 1.689 bibliotecas, ao custo de cerca de US$ 60 milhões, segundo a NPR. Além disso, ele pagou US$ 1,1 milhão pelo terreno e pela construção do Carnegie Hall, em Nova York, aberto em 1891, e criou instituições que levam seu nome até hoje, como a Universidade Carnegie Mellon e o Carnegie Institution for Science.

Carnegie Hall, em Nova York, construído com dinheiro de Andrew Carnegie
O Carnegie Hall, em Nova York, em 1899. Foto: Autor desconhecido/Wikimedia Commons (domínio público)

O que fica da história de Andrew Carnegie?

Carnegie morreu em 11 de agosto de 1919, aos 83 anos, em Lenox, no estado de Massachusetts. A essa altura, já tinha dado a maior parte da fortuna, como defendia desde 1889.

A trajetória dele também mostra como as crises redistribuem riqueza. Enquanto a depressão iniciada em 1873 quebrava empresas, Carnegie construía a usina que mudaria sua vida. Vale não confundir com Dale Carnegie, o autor de “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, que adotou a mesma grafia do sobrenome décadas depois.

Do menino dos carretéis ao dono da maior siderúrgica do país, Andrew Carnegie resumiu a era dos grandes industriais americanos. E terminou a vida tentando provar a própria tese: que a fortuna só faz sentido se voltar para a sociedade.

O Resenha Rentável contou como as crises dos séculos 19 e 20 criaram fortunas como as de Carnegie e Rockefeller. Assista:

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