Estrela e Hasbro disputam Detetive e Genius na Justiça
No Dia das Crianças, a dona do Banco Imobiliário está em recuperação judicial e ainda espera o STJ decidir se perde mais de 20 marcas para a gigante americana.

A briga entre Estrela e Hasbro já dura desde 2009 e decide quem fica com clássicos como Detetive, Genius, Jogo da Vida, Combate e Cara a Cara. A Justiça de São Paulo deu ganho de causa à empresa americana, mas uma decisão de 2022 suspendeu a ordem, e os jogos seguem nas lojas com a marca Estrela até o Superior Tribunal de Justiça (STJ) julgar o caso.
O assunto voltou à tona justamente no Dia das Crianças. Segundo reportagem do InfoMoney publicada nesta segunda-feira (12), o recurso espera julgamento no STJ há quase quatro anos. Enquanto isso, a Estrela enfrenta a sua terceira recuperação judicial, com dívidas de R$ 109,2 milhões. Ou seja, o futuro de marcas que atravessaram gerações depende de dois processos ao mesmo tempo.
Por que Estrela e Hasbro brigam na Justiça?
A história começa nos anos 1970. Naquela época, a Estrela fechou uma parceria para adaptar e vender no Brasil sucessos da Hasbro. Assim nasceram o Jogo da Vida (The Game of Life), o Detetive (Clue, ou Cluedo) e versões brasileiras de bonecos G.I. Joe, como o Falcon e os Comandos em Ação.
Em 2003, as duas empresas assinaram um contrato de licenciamento. No entanto, a relação azedou depois que a Hasbro montou a própria operação de importação e distribuição no país. Segundo o Migalhas, os royalties (o valor pago pelo uso de uma marca) foram pagos até 2007. Depois disso, o contrato acabou, mas a Estrela continuou vendendo os produtos. Em 2009, a Hasbro foi à Justiça.

O que a Justiça já decidiu?
Em 2019, a 36ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo deu razão à Hasbro. Em seguida, em novembro de 2021, a 1ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) manteve a sentença. Para o tribunal, os produtos da Estrela eram “adaptações brasileiras dos produtos da Hasbro”.
Com isso, a Estrela teria de transferir mais de 20 marcas à Hasbro, entre elas Jogo da Vida, Detetive, Cara a Cara, Genius, Combate e Dr. Trata Dentes. Além disso, teria de pagar royalties atrasados. O InfoMoney fala em cerca de R$ 52 milhões, mas uma advogada ouvida pelo site ressalta que esse valor foi citado como risco e ainda não é a conta final.
Por que Detetive e Genius continuam à venda?
Porque, em 2022, a Estrela conseguiu um efeito suspensivo, ou seja, uma decisão que trava o cumprimento da sentença até o fim do recurso. Na prática, nada do que o TJ-SP mandou foi cumprido até agora. Por isso, quem procura Detetive ou Genius numa loja neste feriado ainda encontra a caixa com o logo da Estrela.
A Hasbro também recorreu ao STJ, para ampliar a lista de marcas reconhecidas como suas. Ela pede ainda indenização pelo fim de produtos como Hipo Gula Gula, Top Letras e Cabeça de Batata. Até esta segunda-feira (12), o STJ não havia marcado a data do julgamento.
E a Super Massa e o Banco Imobiliário?
A Super Massa entrou na briga por outro motivo. Segundo a decisão do TJ-SP, a embalagem da massinha da Estrela lembrava demais a da Play-Doh, da Hasbro. Por isso, o tribunal mandou parar a venda e destruir o estoque, uma ordem que também ficou suspensa.

Já o Banco Imobiliário ficou de fora. Segundo o InfoMoney, o tribunal entendeu que a Estrela tinha registro anterior à parceria, com documentos de 1951, e que a versão brasileira tem características próprias. Assim, o jogo mais famoso da empresa não está em risco nesse processo.
O que dizem a Estrela e a Hasbro?
A Estrela sustenta que as regras de um jogo não têm proteção na lei e que as marcas são dela, registradas no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) há décadas, antes do contrato de 2003. Além disso, a empresa contesta a correção dos valores: defende a taxa Selic, e não os juros de 1% ao mês usados na decisão. A Estrela não respondeu ao InfoMoney até a publicação da reportagem.
A Hasbro, por outro lado, argumenta que as regras dos jogos devem ser protegidas por outros instrumentos jurídicos, mesmo sem amparo na lei de direitos autorais. Em julho de 2026, a empresa pediu ao STJ que impedisse a Estrela de usar as marcas como garantia na recuperação judicial. O ministro Herman Benjamin negou o pedido e disse que o assunto cabe ao juiz da recuperação.
“A Hasbro já atua no âmbito da recuperação judicial para defender sua posição e os seus direitos sobre as marcas.”
Paulo Vinícius Carvalho Soares, advogado da Hasbro, ao InfoMoney, em outubro de 2026

Como está a Estrela na recuperação judicial?
A Estrela pediu recuperação judicial em 20 de maio de 2026, em Três Pontas, Minas Gerais, para oito empresas do grupo. Segundo o Poder360, a empresa apontou os juros altos, o crédito mais difícil e a troca dos brinquedos por jogos digitais como causas da crise. Fundada em 1937, a Estrela tem fábricas em São Paulo, Minas Gerais e Sergipe.
De acordo com a Forbes Brasil, a dívida somava R$ 109,2 milhões no pedido, enquanto a empresa valia cerca de R$ 42,7 milhões na bolsa em maio. A Justiça aceitou o pedido em 15 de junho, e o plano foi entregue em 14 de agosto. Agora, ele ainda precisa do voto dos credores e da aprovação do juiz. Esta é a terceira recuperação da empresa, depois das de 2004 e 2008.
O caso mostra como juros altos pesam sobre empresas endividadas, um efeito explicado em Taxa Selic hoje. Para o consumidor, porém, nada muda por enquanto: os jogos seguem nas prateleiras, num Dia das Crianças em que os brinquedos já estão mais caros, como mostra a matéria sobre o preço dos brinquedos. O desfecho depende do STJ e dos credores, e pode decidir se Detetive e Genius continuam brasileiros ou voltam para as mãos da Hasbro.

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