Ações da Netflix caem mesmo com lucro 44% maior no trimestre
A Netflix lucrou US$ 3,7 bilhões entre julho e setembro, mas cortou a previsão de anúncios e a de receita do ano. Veja o que assustou o mercado e o que muda para quem assina.

As ações da Netflix caíram cerca de 5% nas negociações depois do fechamento de Wall Street na terça-feira (20), logo após a empresa divulgar o balanço do terceiro trimestre. A queda veio mesmo com um lucro de US$ 3,66 bilhões entre julho e setembro, 44% maior que no mesmo período de 2025. O problema, para os investidores, estava nas previsões.
A reação mostra como o mercado olha para a Netflix hoje. A empresa ganha muito dinheiro, mas quem compra a ação está pagando pelo crescimento dos próximos anos. Por isso, um corte na previsão de anúncios e sinais de que o público passa menos tempo na plataforma pesaram mais do que o lucro. Segundo o Portal Tela, com informações da AFP e da Reuters, os papéis já acumulavam queda perto de 25% em 2026 antes do balanço.
Quanto a Netflix lucrou no terceiro trimestre?
De acordo com a carta aos acionistas entregue à SEC, a xerife do mercado americano, a receita do trimestre foi de US$ 12,87 bilhões. O valor é 12% maior que um ano antes e ficou dentro do que a própria empresa tinha previsto. Além disso, o lucro operacional subiu 37%, para US$ 4,46 bilhões, e a margem operacional chegou a 34,6%. Ou seja, de cada US$ 100 que entraram, sobraram quase US$ 35 depois de pagar a operação.

O lucro por ação foi de US$ 0,87, contra US$ 0,59 no terceiro trimestre de 2025. A empresa também gastou um valor recorde para recomprar as próprias ações: foram US$ 4,8 bilhões no trimestre, o maior volume da história da companhia, segundo a carta. Na prática, a recompra diminui o número de ações no mercado e aumenta a fatia de cada acionista no lucro.
Por que as ações da Netflix caíram?
O primeiro motivo foi a publicidade. A Netflix agora espera faturar cerca de US$ 2,7 bilhões com anúncios em 2026, contra a previsão anterior de aproximadamente US$ 3 bilhões. A empresa culpa a demora para lançar algumas ferramentas de venda de anúncios. Na teleconferência com analistas, o co-CEO Greg Peters admitiu que a empresa estava “um pouco atrás” da meta agressiva para o ano, segundo a transcrição publicada pelo Investing.com.
O segundo motivo foi a previsão de receita para o ano inteiro. A Netflix projeta agora US$ 51,1 bilhões em 2026, 0,2% abaixo do meio da faixa que tinha divulgado antes. A diferença é pequena, mas o mercado esperava o contrário. Além disso, a empresa baixou a previsão de fluxo de caixa livre (o dinheiro que sobra depois dos investimentos) de US$ 12,5 bilhões para cerca de US$ 12 bilhões, por causa de uma compra de imóvel prevista para o quarto trimestre.
Há ainda a questão da audiência. A própria carta reconhece a preocupação dos investidores com o crescimento das horas assistidas e diz que a empresa quer acelerar esse número. Enquanto isso, o YouTube ficou com 14,2% do tempo de TV nos Estados Unidos em julho, quase o dobro dos 7,8% da Netflix, segundo dados da Nielsen citados pelo Portal Tela. Como o YouTube ganha dinheiro com essa audiência está explicado no texto sobre a monetização do YouTube.
Por que a Netflix demitiu 1.000 funcionários?
Uma semana antes do balanço, a Netflix confirmou o corte de cerca de 6% da equipe, perto de 1.000 pessoas, segundo o TechCrunch. A maior parte das vagas fechadas estava nas áreas de produto, tecnologia, jurídico e recursos humanos. No fim de 2025, a empresa tinha 16 mil funcionários em tempo integral.

Num memorando aos funcionários, os co-CEOs Ted Sarandos e Greg Peters disseram que a empresa precisa ser “disciplinada” sobre onde coloca pessoas e recursos. Na carta aos acionistas, a Netflix afirma que os cortes permitem “continuar investindo de forma agressiva” nas áreas de maior impacto. Por outro lado, a conta das demissões aparece no balanço: elas tiram cerca de 1,2 ponto da margem prevista para o quarto trimestre, que deve ficar em 26%.
A Netflix está perdendo a guerra do streaming?
Os números não mostram isso. A receita segue crescendo dois dígitos por ano, e a carta diz que o cancelamento de assinaturas caiu em relação a 2025, tanto nos Estados Unidos quanto no mundo. Além disso, a Netflix diz que os reajustes de preço de 2026 tiveram a resposta que a empresa esperava. Na Índia, por exemplo, a receita cresceu cerca de 18% em um ano, sem o efeito do câmbio.

No entanto, a empresa perdeu disputas importantes neste ano. Segundo o TechCrunch, a Netflix ficou para trás na briga pelos estúdios e pelo streaming da Warner Bros. Discovery, que acabaram com a Paramount Skydance. A história dessa disputa está no texto sobre a guerra do streaming. Hoje, a concorrência mais forte pela atenção do público vem do YouTube, do TikTok e do Instagram, e não só de outros serviços de assinatura.
O que muda para quem assina a Netflix no Brasil?
Por enquanto, nada muda de imediato para o assinante. O balanço não anuncia reajuste no Brasil. Ainda assim, a América Latina segue como uma região importante: a receita na região foi de US$ 1,6 bilhão no trimestre, alta de 17%, segundo a carta aos acionistas. Recentemente, a empresa também fechou um acordo para levar produções da Globo ao catálogo, explicado na reportagem sobre Netflix e Globo.
A estratégia para os próximos anos passa pelos anúncios. A Netflix vai lançar o plano com propaganda em mais 15 países a partir de março de 2027, e aposta em eventos ao vivo, como três jogos da NFL no fim do ano e a luta entre Tyson Fury e Anthony Joshua. Ou seja, a empresa quer depender menos da mensalidade e mais de quem paga para aparecer na tela.
A queda das ações da Netflix, portanto, não vem de prejuízo. Vem da dúvida sobre o tamanho do crescimento futuro numa empresa que já é gigante. É uma pressão bem diferente da que derrubou a antiga líder do aluguel de filmes, contada na história de por que a Blockbuster faliu.

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