Quanto custa viajar para a Antártida, o continente sem visto
A temporada de cruzeiros ao gelo está começando. Do porto argentino de Ushuaia, a viagem mais barata de navio custa a partir de uns R$ 35 mil, fora o resto da conta.

Quanto custa viajar para a Antártida? Um cruzeiro de expedição de 10 dias, o roteiro mais comum, sai a partir de cerca de US$ 6.600 por pessoa em cabine tripla, ou uns R$ 35,6 mil no câmbio desta sexta-feira (30). Somando voo, seguro e roupas de frio, a conta de um viajante brasileiro fica entre R$ 48 mil e R$ 94 mil, segundo estimativas publicadas pelo Correio Braziliense.
O assunto volta agora porque a temporada de turismo no continente gelado está começando. Os navios só operam no verão do hemisfério sul, de novembro a março, segundo o centro norueguês GRID-Arendal, parceiro do Programa da ONU para o Meio Ambiente. Além disso, a Antártida virou destino de massa para os padrões polares: passou de cerca de 14.762 visitantes em 1999 e 2000 para mais de 100 mil por temporada nos últimos anos.
Quanto custa um cruzeiro para a Antártida?
O preço depende de três coisas: o tamanho da viagem, o navio e a cabine. A agência Argentinian Explorer, que vende cruzeiros de várias empresas a partir de Ushuaia, lista na tabela da temporada 2025 e 2026 roteiros de 10 dias a partir de US$ 6.600 a US$ 6.800 em cabine tripla, em navios como o Ocean Nova e o M/V Ushuaia.
Há também uma opção mais curta. O pacote aéreo de 6 dias, em que o turista atravessa de avião o trecho mais difícil do mar, aparece a partir de US$ 4.995, ou cerca de R$ 26,9 mil. No outro extremo, os roteiros longos, que juntam as Ilhas Malvinas, a Geórgia do Sul e a Antártida, chegam a US$ 36 mil a US$ 43 mil nas cabines melhores. Ou seja, mais de R$ 190 mil por pessoa.
Quanto custa a viagem inteira, além do navio?
O cruzeiro é só a maior parte da conta. Segundo levantamento do Correio Braziliense, o voo até o porto de saída custa de US$ 800 a US$ 2 mil. Além disso, o seguro-viagem, obrigatório nesses roteiros, sai de US$ 400 a US$ 1 mil, e as roupas e equipamentos de frio, de US$ 500 a US$ 2 mil.
Há ainda licenças e taxas ambientais de US$ 200 a US$ 500, que às vezes já vêm no pacote. Por isso, um cruzeiro básico de 10 dias, que o jornal estima entre US$ 7 mil e US$ 12 mil, vira uma viagem de US$ 8,9 mil a US$ 17,5 mil quando tudo entra na conta. Atividades extras, como mergulho ou voo de helicóptero, podem somar mais US$ 500 a US$ 3 mil.

Por que viajar para a Antártida é tão caro?
A Antártida não tem aeroporto comercial nem hotel. Assim, quase tudo depende de navios reforçados para o gelo, com tripulação treinada e guias especializados, o que encarece cada vaga. Além disso, as regras ambientais limitam quantas pessoas podem desembarcar e onde, o que reduz a escala do negócio.
Essas regras são da IAATO, a associação das empresas de turismo antártico. Segundo a MercoPress, só um navio pode visitar cada ponto por vez, no máximo 100 pessoas ficam em terra ao mesmo tempo e deve haver um guia para cada 20 passageiros. Navios com mais de 500 passageiros nem podem desembarcar turistas. Na prática, quem quer pisar no gelo precisa de um navio pequeno, e navio pequeno custa mais por pessoa.

Precisa de visto para ir à Antártida?
Não. Nenhum país é dono da Antártida, então não existe visto. Em vez disso, as empresas de turismo precisam de uma licença emitida por um dos países que assinaram o Tratado da Antártida, segundo a Wikipédia, que cita as regras do protocolo ambiental do tratado. Alguns países ainda criam exigências próprias para os seus cidadãos, como a Coreia do Sul.
O tratado foi assinado em 1959, e o Brasil aderiu em 1975, segundo o Inpe. Desde 1984, o país mantém a Estação Antártica Comandante Ferraz, na Ilha Rei George, usada por pesquisadores. Para o turista brasileiro, a burocracia maior fica antes do embarque: segundo o Santander, dá para entrar na Argentina só com o RG emitido há até 10 anos. Mesmo assim, vale conferir com a operadora quais documentos ela pede a bordo.
De onde saem os cruzeiros e como é a viagem?
Boa parte dos navios sai de Ushuaia, na Patagônia argentina. De lá, os roteiros clássicos atravessam a Passagem de Drake, o mar entre a América do Sul e a Antártida, famoso pelas ondas fortes. Por isso, existem os pacotes aéreos que saem de Punta Arenas, no Chile, e fazem esse trecho de avião.
Depois da travessia, os turistas fazem desembarques de bote em praias com colônias de pinguins, focas e geleiras, como as das Ilhas Shetland do Sul. Quem já foi à Svalbard, no Ártico, conhece a lógica: o destino é a natureza, e o luxo é chegar lá. Outro destino que cobra caro para limitar visitantes é o Butão, que tem diária obrigatória.

Quantas pessoas visitam a Antártida por ano?
Segundo dados da IAATO publicados pela MercoPress, a Antártida recebeu 118.491 visitantes na temporada 2024 e 2025, cerca de 3% a menos que o recorde de 122.072 da temporada anterior. A queda veio principalmente porque uma empresa de cruzeiros sem desembarque ficou fora daquela temporada.
Além disso, existe um nicho ainda mais caro: as expedições ao interior do continente, de avião, até acampamentos no gelo. Segundo relatório da IAATO ao Tratado da Antártida, foram 1.106 clientes na temporada 2025 e 2026, e as empresas estimam 1.492 na temporada que começa agora.
No fim, viajar para a Antártida custa de algumas dezenas a centenas de milhares de reais, e o roteiro escolhido muda tudo. Para quem sonha com o gelo, a conta mínima realista começa no cruzeiro de 10 dias em cabine dividida e passa dos R$ 48 mil com voo, seguro e roupas.

Roteirista e produtor. Chamado pela imprensa de “prodígio do cinema”. Cofundador do Resenha Rentável.
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