Geopolítica

Como a onda coreana fez do K-pop um negócio de US$ 19 bilhões

Um relatório sobre Jurassic Park, uma crise econômica e muita estratégia transformaram a Coreia do Sul numa potência da cultura pop. Veja como o plano funcionou e quanto ele rende.

Pietro Krauss 6 min de leitura
Foto: Jeon Han/Korea.net, Korean Culture and Information Service (CC BY-SA 2.0)

A onda coreana, ou hallyu, é o nome dado ao sucesso mundial da cultura pop da Coreia do Sul, do K-pop aos doramas e filmes. E ela virou um negócio bilionário. Em 2025, as exportações ligadas à hallyu somaram US$ 18,98 bilhões, alta de 15,9% em um ano, segundo relatório da Fundação Coreana para o Intercâmbio Cultural Internacional (KOFICE) e do Ministério da Cultura, citado pelo Korea Herald.

Esse número não caiu do céu. Por trás do BTS, de Parasita e de Round 6 existe uma estratégia de país que começou há mais de 30 anos. Por isso, a história da onda coreana é também uma aula de geopolítica: mostra como uma nação pode usar filmes e música para vender produtos, atrair turistas e melhorar a própria imagem no mundo.

Como começou a onda coreana?

A virada começou com um dinossauro. Em 1994, o governo sul-coreano recebeu a informação de que a bilheteria de Jurassic Park, de Steven Spielberg, tinha rendido mais do que a venda de 1,5 milhão de carros da Hyundai. Segundo o museu Victoria and Albert, de Londres, o dado chamou a atenção do governo de Kim Young-sam para o potencial econômico da cultura.

Pouco depois, a crise financeira asiática de 1997 devastou a economia do país. Assim, o governo de Kim Dae-jung decidiu apostar numa economia baseada em internet, conhecimento e indústrias culturais, com a meta declarada de quadruplicar as exportações do setor. Foi nesse cenário que os doramas e o cinema coreano começaram a fazer sucesso na Ásia, no fim dos anos 1990.

Ou seja, a onda coreana não nasceu por acaso. Ela juntou política cultural, indústria criativa e tecnologia digital no mesmo momento, e isso preparou o terreno para a explosão das décadas seguintes.

Quanto a onda coreana rende para a Coreia do Sul?

Os números mostram um crescimento rápido. Em 2023, as exportações ligadas à hallyu somavam US$ 14,16 bilhões, segundo a KOFICE, de acordo com o portal oficial Korea.net. Dois anos depois, chegaram perto de US$ 19 bilhões.

Onda coreana: fãs na Praça Gwanghwamun, em Seul, no show de volta do BTS em 2026
Fãs na Praça Gwanghwamun, em Seul, no show de volta do BTS, em 21 de março de 2026. Foto: Lee Jeong Woo/Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia do Sul (CC BY-SA 4.0)

A conta inclui o conteúdo em si, como música, séries, filmes e games, e também o efeito em outros produtos, como cosméticos, comida e turismo. Em 2025, a música foi a estrela: as exportações do setor cresceram 84%. Além disso, a pesquisa da KOFICE ouviu 27,4 mil pessoas em 30 países, e a nota da imagem da Coreia do Sul subiu de 3,7 para 3,8, numa escala até 5.

Qual o papel do BTS na onda coreana?

O BTS virou o maior símbolo dessa economia. Em 2018, o Hyundai Research Institute estimou que o grupo movimentava cerca de US$ 5 bilhões por ano na economia sul-coreana, segundo a NPR. O valor considera não só discos e shows, mas também o consumo de produtos e as viagens de fãs.

O peso do grupo ficou claro de novo em 21 de março de 2026, quando o BTS fez o show de volta, chamado “Arirang”, na Praça Gwanghwamun, no centro de Seul. O próprio Ministério da Cultura sul-coreano fotografou o evento e divulgou as imagens em seu acervo oficial. É um sinal de como o governo acompanha de perto o K-pop.

Como Parasita e Round 6 levaram a onda coreana ao mundo?

O cinema e as séries abriram outra porta. Em 9 de fevereiro de 2020, Parasita, de Bong Joon-ho, ganhou quatro Oscars, incluindo o de melhor filme. Foi o primeiro filme que não é em inglês a vencer a categoria principal em 92 anos de premiação, segundo a PBS.

Onda coreana no cinema: Bong Joon-ho e o elenco de Parasita
O diretor Bong Joon-ho e o elenco de Parasita, em 2019, no lançamento do filme na Coreia do Sul. Foto: Kinocine PARKJEAHWAN4wiki/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Depois, foi a vez do streaming. A primeira temporada de Round 6 chegou a 265,2 milhões de visualizações e se tornou a série mais vista da história da Netflix. Em 2025, a animação KPop Demon Hunters, sobre um grupo fictício de K-pop, passou desse número e chegou a 266 milhões de visualizações, segundo o Inquirer. O relatório da KOFICE aponta o filme como um dos motores do salto da música coreana em 2025.

Não por acaso, a Netflix anunciou em abril de 2023 um investimento de US$ 2,5 bilhões em conteúdo sul-coreano em quatro anos, de acordo com a Axios. Para quem acompanha a guerra do streaming, a Coreia virou uma das fontes de sucesso mais disputadas do mercado.

A onda coreana aumentou o turismo na Coreia do Sul?

Sim, e os números de 2025 mostram isso. A previsão oficial era de 18,7 milhões de visitantes estrangeiros no ano, acima do recorde anterior, de 17,5 milhões, em 2019, segundo o Korea Times. A meta do governo é chegar a 30 milhões por ano até 2030.

Onda coreana e turismo: atração inspirada em Round 6 em Seul
Atração inspirada em Round 6 (Squid Game) em Seul: a série virou também produto turístico. Foto: República da Coreia/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Os cenários de séries, as lojas de K-pop e as atrações temáticas viraram roteiro de viagem. Mesmo assim, o próprio governo reconhece um desafio: segundo o vice-ministro Kim Dae-hyun, a taxa de visitantes que voltam e as viagens para fora das grandes cidades ainda são baixas.

O que o Brasil pode aprender com a onda coreana?

A lição principal é que cultura também é economia. A Coreia do Sul transformou música, filmes e séries numa vitrine que ajuda a vender cosméticos, comida, tecnologia e viagens. Esse efeito tem nome: marca país, a imagem que um país passa para o mundo e que vale dinheiro de verdade.

O Brasil também tem cultura que encanta lá fora, da música ao cinema. A diferença está na constância: a Coreia trata a onda coreana como projeto de longo prazo há mais de três décadas, com metas, órgãos públicos e parcerias com empresas. O resultado aparece nas exportações, no turismo e na nota que o mundo dá ao país.

O Resenha Rentável investigou por que o mundo está obcecado pelo Brasil e o que é preciso para transformar essa atenção em dinheiro. Veja o vídeo:

Pietro Krauss

Diretor e produtor. Apontado pela imprensa como uma das jovens promessas de Hollywood. Cofundador do Resenha Rentável.

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