Cinema

Filmes sobre golpes reais e o que aconteceu de verdade depois

Do Lobo de Wall Street ao Golpista do Tinder, as histórias que viraram filme e série, quanto dinheiro sumiu e onde os golpistas foram parar.

Pietro Krauss 6 min de leitura
Foto: Siebbi/Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

Os filmes sobre golpes reais mais famosos são Prenda-me Se For Capaz, O Lobo de Wall Street e O Mago das Mentiras, além de séries como The Dropout e Inventando Anna. Em todos eles, a parte mais surpreendente vem depois dos créditos: quanto dinheiro sumiu de verdade, quem foi preso e quanto as vítimas conseguiram recuperar.

Hollywood sempre gostou de golpistas, porque o golpe tem tudo que um roteiro precisa: carisma, dinheiro, mentira e queda. Só que o cinema escolhe o ponto de vista, e muitas vezes é o do golpista. Por isso, vale separar o que o filme mostra do que os processos e os documentos registraram.

Prenda-me Se For Capaz conta uma história verdadeira?

Em parte, e talvez numa parte menor do que o filme sugere. O longa de Steven Spielberg, de 2002, mostra Leonardo DiCaprio como Frank Abagnale, um adolescente que se passa por piloto da Pan Am, médico e advogado enquanto espalha cheques falsos. O filme custou US$ 52 milhões e faturou mais de US$ 350 milhões no mundo, segundo o The Numbers.

Frank Abagnale, o golpista real que inspirou um dos filmes sobre golpes reais mais famosos
Frank Abagnale, inspiração de Prenda-me Se For Capaz, em 2008. Foto: Abagnale & Associates/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A reviravolta é que a própria história pode ser, em boa parte, um golpe. Em 2020, o escritor Alan C. Logan publicou o livro “The Greatest Hoax on Earth”, com registros públicos que mostram Abagnale preso numa penitenciária de Nova York de julho de 1965 a dezembro de 1968, justamente quando ele dizia fugir do FBI. Além disso, documentos da Justiça americana citam só 10 cheques com logo da Pan Am, que somavam menos de US$ 1.500, segundo a emissora WHYY, afiliada da rede pública NPR.

Quanto dinheiro o Lobo de Wall Street tirou dos investidores?

Jordan Belfort, o corretor vivido por DiCaprio no filme de Martin Scorsese, de 2013, comandava a Stratton Oakmont. A corretora inflava o preço de ações pequenas com ligações agressivas e depois vendia tudo no topo, um golpe conhecido como “pump and dump”. Segundo a Fortune, 1.513 investidores perderam mais de US$ 200 milhões. O filme, que custou US$ 100 milhões, faturou US$ 389,8 milhões no mundo, segundo o The Numbers.

Jordan Belfort, personagem real de O Lobo de Wall Street
Jordan Belfort, o verdadeiro Lobo de Wall Street, em 2017. Foto: Tai Lopez/Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

Na vida real, Belfort foi condenado em 2003 a quatro anos de prisão, mas cumpriu 22 meses. A Justiça também mandou ele devolver US$ 110,4 milhões às vítimas. Em 2018, a mesma reportagem mostrou que ele ainda devia cerca de US$ 97 milhões. Em abril de 2026, Belfort anunciou que havia concluído a restituição. No entanto, segundo o site Celebrity Net Worth, a obrigação acabou porque venceu o prazo legal de cobrança, de 20 anos, e não porque a dívida foi quitada.

O que aconteceu com Madoff e as vítimas da maior pirâmide?

O Mago das Mentiras, filme da HBO de 2017, tem Robert De Niro no papel de Bernie Madoff. O esquema dele era uma pirâmide: pagava os clientes antigos com o dinheiro dos novos. Em novembro de 2008, os extratos dos clientes somavam US$ 64,8 bilhões, mas quase tudo era fictício, segundo a NPR. O dinheiro de fato aplicado pelos investidores era de cerca de US$ 17,5 bilhões.

Bernie Madoff, condenado pela maior pirâmide financeira da história
Foto de registro de Bernie Madoff, em março de 2009. Foto: Departamento de Justiça dos EUA (domínio público)

Madoff se declarou culpado em março de 2009 e, em junho, recebeu a pena máxima de 150 anos. Ele morreu na prisão em abril de 2021, aos 82 anos, segundo o FBI. Desde então, a recuperação do dinheiro surpreendeu. O administrador judicial Irving Picard já recuperou US$ 15,49 bilhões, segundo o site oficial do caso, atualizado em setembro de 2026. Além disso, um fundo do governo americano pagou US$ 4,3 bilhões a 40.930 vítimas. O esquema desabou em dezembro de 2008, em plena crise de 2008, quando muitos clientes tentaram sacar ao mesmo tempo.

“The message must be sent that Mr. Madoff’s crimes were extraordinarily evil.”

Denny Chin, juiz do caso, ao dar a sentença em 29 de junho de 2009

Quais séries e documentários sobre golpes reais vale a pena ver?

A série The Dropout, de 2022, conta a história da Theranos, a startup de exames de sangue que chegou a valer US$ 9 bilhões. Amanda Seyfried ganhou o Emmy no papel de Elizabeth Holmes. A Justiça americana condenou Holmes por fraude contra investidores e, em novembro de 2022, deu a ela 11 anos e 3 meses de prisão, segundo o Departamento de Justiça. Ela começou a cumprir a pena em maio de 2023. Em setembro de 2026, a ABC News informou que a saída prevista agora é fevereiro de 2030.

Elizabeth Holmes, da Theranos, tema de uma das séries sobre golpes reais
Elizabeth Holmes no palco do TechCrunch Disrupt, em 2014, quando a Theranos valia US$ 9 bilhões. Foto: Kevin Krejci/Flickr (CC BY 2.0)

Já Inventando Anna, da Netflix, mostra Anna Sorokin, que se passava por herdeira alemã em Nova York. Ela foi condenada em 2019 por desviar cerca de US$ 275 mil de bancos, hotéis e amigos. Curiosamente, a Netflix pagou US$ 320 mil pelos direitos da história, e o dinheiro foi usado para indenizar as vítimas, segundo a NBC.

Outro sucesso, o documentário O Golpista do Tinder, de 2022, mostra Shimon Hayut, que se apresentava como herdeiro de diamantes. Segundo a própria Netflix, as vítimas estimam ter perdido cerca de US$ 10 milhões. Em 2019, antes do documentário, ele foi condenado em Israel a 15 meses de prisão por fraudes de casos anteriores. Por fim, os documentários sobre o Fyre Festival, de 2019, contam o festival de luxo nas Bahamas que nunca aconteceu. O criador, Billy McFarland, foi condenado em 2018 a seis anos de prisão, e as perdas de investidores e clientes passaram de US$ 26 milhões, segundo a Procuradoria de Nova York.

Existe filme brasileiro sobre golpe real?

Existe, e o mais conhecido é VIPs, de 2010, dirigido por Toniko Melo. Wagner Moura vive Marcelo Nascimento da Rocha, que se passou por herdeiro da família dona da Gol num carnaval do Recife e chegou a dar entrevista na televisão como se fosse empresário. O filme ganhou o prêmio de melhor longa no Festival do Rio de 2010, segundo a Wikipédia, e se baseia no livro da jornalista Mariana Caltabiano.

Por que os filmes sobre golpes reais fazem tanto sucesso?

Os números ajudam a responder. Prenda-me Se For Capaz e O Lobo de Wall Street, juntos, passaram de US$ 740 milhões de bilheteria, segundo o The Numbers, e DiCaprio estrelou os dois. Não chegam perto dos filmes mais caros da história, mas custaram bem menos. Além disso, o streaming transformou golpes em séries de várias horas, e plataformas como Netflix e Hulu passaram a pagar pelos direitos das histórias. Na prática, o golpista vira produto de entretenimento, enquanto boa parte das vítimas espera anos por uma restituição que nem sempre chega.

Leonardo DiCaprio, ator de dois dos maiores filmes sobre golpes reais
Leonardo DiCaprio, que interpretou Abagnale e Belfort no cinema. Foto: Siebbi/Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

Fora das telas, os golpes seguem a mesma lógica, como mostra o golpe do falso advogado, comum no Brasil. Afinal, quase todas essas histórias começam do mesmo jeito: uma promessa boa demais para ser verdade e muita gente com vergonha de duvidar dela.

Pietro Krauss

Diretor e produtor. Apontado pela imprensa como uma das jovens promessas de Hollywood. Cofundador do Resenha Rentável.

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