Acordo Mercosul-EFTA chega à Noruega e zera a tarifa do salmão
Desde este domingo, quase tudo o que o Brasil vende para a Noruega entra sem imposto de importação, e o salmão norueguês deixa de pagar os 10% cobrados aqui. Veja o que muda, o que fica para depois e onde está a Suíça.

O acordo Mercosul-EFTA começou a valer para o comércio entre Brasil e Noruega neste domingo, 1º de novembro de 2026. Na prática, quase tudo o que o Brasil vende aos noruegueses passa a entrar lá sem imposto de importação. Do lado de cá, mais da metade do que a Noruega exporta para o Brasil também fica livre de tarifa, incluindo o salmão, que pagava 10%.
A data importa porque o tratado anda em etapas. A EFTA, a Associação Europeia de Livre Comércio, reúne quatro países ricos que ficaram fora da União Europeia: Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as regras já valiam com a Islândia desde 1º de outubro. Agora chegou a vez da Noruega, que é o segundo maior parceiro do Brasil no bloco.
O que é o acordo Mercosul-EFTA?
É um tratado de livre comércio entre os dois blocos. Do lado sul-americano estão Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Do outro, os quatro países da EFTA, que somam cerca de 15 milhões de habitantes e um PIB de aproximadamente US$ 1,4 trilhão, segundo o MDIC. Ou seja, é um mercado pequeno em gente, mas com uma das rendas mais altas do planeta: o PIB por pessoa da Noruega é de US$ 86,6 mil, de acordo com o resumo oficial do acordo publicado pelo governo.
As negociações começaram em 2017 e só terminaram depois de 14 rodadas. Em seguida, o texto foi assinado no Rio de Janeiro em 16 de setembro de 2025, como registra a EFTA. Depois disso, o Congresso aprovou o tratado em junho de 2026, e o decreto que o coloca em vigor no Brasil saiu no Diário Oficial em 23 de setembro.

O que muda com a Noruega a partir de hoje?
Para quem exporta, a mudança é quase total. Segundo o MDIC, 99,8% do que o Brasil vende à Noruega passa a ter livre comércio. Além disso, os países da EFTA zeram de imediato as tarifas sobre todos os produtos industriais e pesqueiros brasileiros.
Na agropecuária, porém, a abertura vem com limite. A Noruega criou cotas, que são volumes fixos que entram com tarifa reduzida. Pelo resumo oficial, elas incluem 665 toneladas de carne bovina, 200 toneladas de aves, 10 mil toneladas de milho, 5 mil toneladas de farelo de soja e 9.500 toneladas de melaço de cana. Em 20 de outubro, a Secretaria de Comércio Exterior publicou as regras para os exportadores disputarem essas cotas, segundo a Agência Brasil, em texto reproduzido pelo O Tempo.
O salmão vai ficar mais barato com o acordo Mercosul-EFTA?
A tarifa sai, mas o preço na gôndola não cai sozinho. Segundo o cônsul-geral da Noruega no Rio de Janeiro, Trond Gabrielsen, o salmão está entre os produtos que deixam de pagar a tarifa de 10% assim que o acordo entra em vigor, como informou a CNN Brasil. Mesmo assim, o valor final depende também do dólar, do frete e da margem de quem vende.
Além disso, o mercado brasileiro tem um dono claro. Segundo reportagem da Folha publicada em 2025, quase 48% do pescado importado pelo Brasil vem do Chile, principalmente salmão, que respondeu por 87% do volume comprado de fora. Por isso, a Noruega vê o acordo como uma chance de disputar esse espaço com o salmão fresco e com filés congelados.
Por que o bacalhau é tão importante nessa relação?
O bacalhau é o produto que une os dois países há quase dois séculos. Segundo a mesma reportagem da Folha, a relação comercial começou em 1842, com a chegada do veleiro Estrela do Norte ao Rio de Janeiro. Hoje, o Brasil responde por 90% de tudo o que a Noruega vende de frutos do mar ao Mercosul, e a maior parte é bacalhau seco e salgado.
Ou seja, para os noruegueses, o Brasil é um cliente de peso. De acordo com o Times Brasil, licenciado da CNBC, o país é o segundo maior mercado do bacalhau norueguês no mundo, atrás apenas de Portugal. Com o acordo, a Noruega também quer vender aqui outros peixes da família, como o saithe salgado inteiro.

O Brasil vai abrir o mercado de uma vez?
Não. Do lado brasileiro, a abertura é mais lenta. Segundo o resumo oficial, cerca de 97% do comércio com a EFTA vai ficar livre de tarifa, mas parte dos produtos só chega a zero em prazos de 4, 8, 10 ou 15 anos. Outros 1,2% terão apenas redução parcial, com cotas, como os chocolates e os laticínios.
Essa diferença tem uma razão. Em 2024, o Brasil exportou US$ 3,09 bilhões para a EFTA e importou US$ 4,05 bilhões, segundo o MDIC. Enquanto o Brasil vende sobretudo metais básicos, compra remédios, produtos químicos e máquinas. Assim, a abertura gradual dá tempo para a indústria nacional se ajustar à concorrência europeia.

E a Suíça, quando entra?
Ainda não há data. Segundo o MDIC, Suíça e Liechtenstein precisam concluir os próprios processos internos antes de aplicar as tarifas preferenciais. É a peça mais valiosa do acordo, porque Suíça e Noruega respondem juntas por 94% das exportações brasileiras ao bloco e por 99% das importações vindas de lá.
A Suíça também é grande investidora. O país é o 11º maior investidor estrangeiro direto no Brasil, com estoque de US$ 30,5 bilhões em 2023, segundo o governo. Já a Noruega tinha US$ 14 bilhões investidos aqui em 2024, com mais de 80 empresas do setor offshore no país, de acordo com o cônsul norueguês. Para entender de onde vem tanta riqueza num país sem mar, vale ler por que a Suíça é tão rica.
Quanto o Brasil pode ganhar com o acordo?
As estimativas oficiais são modestas, mas positivas. Uma simulação do governo calcula um efeito de R$ 2,69 bilhões no PIB brasileiro até 2044, com alta de R$ 3,34 bilhões nas exportações. Além disso, o acordo cria regras para serviços, investimentos e compras governamentais, e protege 63 indicações geográficas brasileiras na Suíça e em Liechtenstein, como mostra o painel do MDIC.
O tratado chega num momento de disputa comercial no mundo, depois do tarifaço de Trump contra produtos brasileiros. Por enquanto, o efeito mais visível fica em dois lugares: no exportador, que encontra a porta aberta na Noruega, e no peixe, que pode ganhar espaço nas prateleiras assim que a tarifa de 10% sair da conta.

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