Cinema

Por que filmes de terror baratos dão tanto lucro em Hollywood

Um longa de menos de US$ 1 milhão passou dos US$ 500 milhões em 2026. A conta por trás do medo explica por que o gênero virou a aposta mais segura do cinema.

Pietro Krauss 5 min de leitura
Foto: Gage Skidmore/Flickr (CC BY-SA 4.0)

Filmes de terror baratos dão tanto lucro porque custam muito pouco para fazer e, quando acertam, rendem dezenas ou até centenas de vezes o que gastaram. O exemplo mais recente é Obsession, lançado em maio de 2026: o filme custou menos de US$ 1 milhão e já passou dos US$ 500 milhões em bilheteria no mundo.

O assunto ganha força às vésperas do Halloween, comemorado em 31 de outubro. Além disso, a conta mudou de patamar nos últimos anos. Segundo o site The Numbers, que acompanha bilheterias, o terror respondeu por cerca de 16% da bilheteria dos Estados Unidos em 2025. Dez anos antes, em 2015, a fatia era de 4,4%. Ou seja, um gênero que já foi visto como “filme B” virou uma das apostas mais disputadas pelos estúdios.

Quanto um filme de terror barato pode render?

O caso de Obsession virou referência. Segundo o Northeast Times, o longa foi rodado em 26 dias em Los Angeles, no fim de 2024, com orçamento de até US$ 750 mil. A revista Fangoria fala em algo entre US$ 750 mil e US$ 1 milhão. O diretor, Curry Barker, tinha 26 anos e era conhecido por esquetes de comédia no YouTube. Seu primeiro longa, feito para a internet, custou US$ 800.

Depois da estreia no Festival de Toronto de 2025, a Focus Features comprou os direitos por cerca de US$ 15 milhões, ainda segundo o Northeast Times. O filme estreou nos cinemas americanos em 15 de maio de 2026 com US$ 17,2 milhões, acima da expectativa do mercado. Em seguida, fez algo raro: faturou mais no segundo fim de semana do que no primeiro. De acordo com o Box Office Mojo, a bilheteria mundial chegou a US$ 505,7 milhões. Segundo o Deadline, citado pelo Bloody Disgusting, Obsession já rendeu mais de 650 vezes o próprio orçamento.

Corredor de cinema com cartazes, onde os filmes de terror baratos disputam espaço com os blockbusters
Corredor de um cinema com cartazes de filmes, em 2024 (imagem ilustrativa). Foto: jjes84/Flickr (CC BY 2.0)

Como a Blumhouse transformou o medo em modelo de negócio?

Obsession tem a assinatura da Blumhouse, produtora fundada por Jason Blum em 2000. A empresa ficou famosa por fazer filmes de terror baratos em série e lançá-los em grande circuito com a ajuda da Universal, que tem participação majoritária nela. O primeiro grande acerto foi Atividade Paranormal, de 2009. O filme custou US$ 15 mil e arrecadou mais de US$ 193 milhões no mundo, segundo a Variety.

A fórmula é simples de explicar e difícil de copiar. De acordo com a Variety, os filmes da produtora costumam custar menos de US$ 5 milhões. Para isso, a empresa corta os custos de produção e paga o mínimo do sindicato a diretores e atores. Em troca, eles ganham participação nos lucros se o filme der certo. “Diretores e atores recebem o piso mínimo e, depois, participam”, explicou Blum à revista em 2018.

“A razão de fazermos filmes de baixo orçamento é que, com menos orçamento, você tem menos risco e se diverte mais.”

Jason Blum, em conversa promovida pela Film Independent, em 2015

Por que o terror funciona melhor com pouco dinheiro?

O gênero tem uma vantagem natural. Em geral, um filme de terror não precisa de astros caros, de dezenas de locações nem de efeitos visuais gigantes. Muitas vezes, uma casa, poucos atores e uma boa ideia bastam. Com isso, o estúdio pode fazer várias apostas pelo preço de um único filme de ação. Se uma delas estourar, paga todas as outras.

Além disso, o orçamento baixo dá liberdade criativa. Segundo o Film Independent, Blum defende que, com pouco dinheiro em jogo, a equipe pode errar e discutir os fracassos sem medo de demissão. Foi nesse ambiente que surgiu Corra!, de Jordan Peele, em 2017. O filme custou US$ 4,5 milhões, arrecadou mais de US$ 255 milhões no mundo, segundo a Variety, e ganhou o Oscar de melhor roteiro original.

Jordan Peele, diretor de Corra!, um dos filmes de terror baratos mais lucrativos da história
Jordan Peele e Keegan-Michael Key com o prêmio Peabody, em 2014, três anos antes de Corra!. Foto: Peabody Awards/Flickr (CC BY 2.0)

Filme de terror barato sempre dá lucro?

Não. A maioria dos filmes baratos nunca chega perto desses números, e muitos nem estreiam em grande circuito. Na própria Blumhouse, os tropeços mais caros vieram justamente quando o orçamento subiu. Segundo a Variety Austrália, M3GAN, de 2023, custou US$ 12 milhões e faturou cerca de US$ 180 milhões. A continuação, M3GAN 2.0, custou US$ 25 milhões e estreou com só US$ 10 milhões nos Estados Unidos, em 2025.

Por outro lado, quando a aposta maior acerta, o retorno também cresce. Five Nights at Freddy’s, de 2023, baseado num videogame, arrecadou US$ 297 milhões no mundo, segundo o The Numbers. A sequência, de 2025, passou dos US$ 239 milhões. Assim, a lição da casa continua valendo: quanto mais caro o filme, maior o risco, e menos espaço sobra para errar.

Elenco de Five Nights at Freddy's 2, sucesso entre os filmes de terror da Blumhouse, na Comic-Con de 2025
Josh Hutcherson divulga Five Nights at Freddy's 2 na Comic-Con de San Diego, em julho de 2025. Foto: Gage Skidmore/Flickr (CC BY-SA 4.0)

O que o sucesso do terror mostra sobre o cinema hoje?

A fusão da Blumhouse com a Atomic Monster, produtora do diretor James Wan, foi concluída em janeiro de 2024. Em agosto de 2026, os filmes do grupo já tinham passado de US$ 1 bilhão em bilheteria no ano, segundo o Deadline. Ao mesmo tempo, estúdios menores, como a A24 do fenômeno Backrooms, também apostam em terror original e barato.

Para os cinemas, cada sucesso desses também conta, já que parte de cada ingresso fica com a sala, como mostra o texto sobre quanto o cinema ganha com o ingresso. Enquanto isso, os blockbusters de US$ 200 milhões precisam de bilheterias enormes só para empatar, como mostra o ranking dos filmes mais caros da história. Já um filme de terror de US$ 1 milhão pode virar o negócio do ano.

No fim, o segredo do terror não é o susto, e sim a matemática. Gastar pouco, apostar muito e deixar o boca a boca fazer o resto transformou o gênero no investimento mais eficiente de Hollywood.

Pietro Krauss

Diretor e produtor. Apontado pela imprensa como uma das jovens promessas de Hollywood. Cofundador do Resenha Rentável.

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