Como a onda coreana fez do K-pop um negócio de US$ 19 bilhões
Um relatório sobre Jurassic Park, uma crise econômica e muita estratégia transformaram a Coreia do Sul numa potência da cultura pop. Veja como o plano funcionou e quanto ele rende.

A onda coreana, ou hallyu, é o nome dado ao sucesso mundial da cultura pop da Coreia do Sul, do K-pop aos doramas e filmes. E ela virou um negócio bilionário. Em 2025, as exportações ligadas à hallyu somaram US$ 18,98 bilhões, alta de 15,9% em um ano, segundo relatório da Fundação Coreana para o Intercâmbio Cultural Internacional (KOFICE) e do Ministério da Cultura, citado pelo Korea Herald.
Esse número não caiu do céu. Por trás do BTS, de Parasita e de Round 6 existe uma estratégia de país que começou há mais de 30 anos. Por isso, a história da onda coreana é também uma aula de geopolítica: mostra como uma nação pode usar filmes e música para vender produtos, atrair turistas e melhorar a própria imagem no mundo.
Como começou a onda coreana?
A virada começou com um dinossauro. Em 1994, o governo sul-coreano recebeu a informação de que a bilheteria de Jurassic Park, de Steven Spielberg, tinha rendido mais do que a venda de 1,5 milhão de carros da Hyundai. Segundo o museu Victoria and Albert, de Londres, o dado chamou a atenção do governo de Kim Young-sam para o potencial econômico da cultura.
Pouco depois, a crise financeira asiática de 1997 devastou a economia do país. Assim, o governo de Kim Dae-jung decidiu apostar numa economia baseada em internet, conhecimento e indústrias culturais, com a meta declarada de quadruplicar as exportações do setor. Foi nesse cenário que os doramas e o cinema coreano começaram a fazer sucesso na Ásia, no fim dos anos 1990.
Ou seja, a onda coreana não nasceu por acaso. Ela juntou política cultural, indústria criativa e tecnologia digital no mesmo momento, e isso preparou o terreno para a explosão das décadas seguintes.
Quanto a onda coreana rende para a Coreia do Sul?
Os números mostram um crescimento rápido. Em 2023, as exportações ligadas à hallyu somavam US$ 14,16 bilhões, segundo a KOFICE, de acordo com o portal oficial Korea.net. Dois anos depois, chegaram perto de US$ 19 bilhões.

A conta inclui o conteúdo em si, como música, séries, filmes e games, e também o efeito em outros produtos, como cosméticos, comida e turismo. Em 2025, a música foi a estrela: as exportações do setor cresceram 84%. Além disso, a pesquisa da KOFICE ouviu 27,4 mil pessoas em 30 países, e a nota da imagem da Coreia do Sul subiu de 3,7 para 3,8, numa escala até 5.
Qual o papel do BTS na onda coreana?
O BTS virou o maior símbolo dessa economia. Em 2018, o Hyundai Research Institute estimou que o grupo movimentava cerca de US$ 5 bilhões por ano na economia sul-coreana, segundo a NPR. O valor considera não só discos e shows, mas também o consumo de produtos e as viagens de fãs.
O peso do grupo ficou claro de novo em 21 de março de 2026, quando o BTS fez o show de volta, chamado “Arirang”, na Praça Gwanghwamun, no centro de Seul. O próprio Ministério da Cultura sul-coreano fotografou o evento e divulgou as imagens em seu acervo oficial. É um sinal de como o governo acompanha de perto o K-pop.
Como Parasita e Round 6 levaram a onda coreana ao mundo?
O cinema e as séries abriram outra porta. Em 9 de fevereiro de 2020, Parasita, de Bong Joon-ho, ganhou quatro Oscars, incluindo o de melhor filme. Foi o primeiro filme que não é em inglês a vencer a categoria principal em 92 anos de premiação, segundo a PBS.

Depois, foi a vez do streaming. A primeira temporada de Round 6 chegou a 265,2 milhões de visualizações e se tornou a série mais vista da história da Netflix. Em 2025, a animação KPop Demon Hunters, sobre um grupo fictício de K-pop, passou desse número e chegou a 266 milhões de visualizações, segundo o Inquirer. O relatório da KOFICE aponta o filme como um dos motores do salto da música coreana em 2025.
Não por acaso, a Netflix anunciou em abril de 2023 um investimento de US$ 2,5 bilhões em conteúdo sul-coreano em quatro anos, de acordo com a Axios. Para quem acompanha a guerra do streaming, a Coreia virou uma das fontes de sucesso mais disputadas do mercado.
A onda coreana aumentou o turismo na Coreia do Sul?
Sim, e os números de 2025 mostram isso. A previsão oficial era de 18,7 milhões de visitantes estrangeiros no ano, acima do recorde anterior, de 17,5 milhões, em 2019, segundo o Korea Times. A meta do governo é chegar a 30 milhões por ano até 2030.

Os cenários de séries, as lojas de K-pop e as atrações temáticas viraram roteiro de viagem. Mesmo assim, o próprio governo reconhece um desafio: segundo o vice-ministro Kim Dae-hyun, a taxa de visitantes que voltam e as viagens para fora das grandes cidades ainda são baixas.
O que o Brasil pode aprender com a onda coreana?
A lição principal é que cultura também é economia. A Coreia do Sul transformou música, filmes e séries numa vitrine que ajuda a vender cosméticos, comida, tecnologia e viagens. Esse efeito tem nome: marca país, a imagem que um país passa para o mundo e que vale dinheiro de verdade.
O Brasil também tem cultura que encanta lá fora, da música ao cinema. A diferença está na constância: a Coreia trata a onda coreana como projeto de longo prazo há mais de três décadas, com metas, órgãos públicos e parcerias com empresas. O resultado aparece nas exportações, no turismo e na nota que o mundo dá ao país.
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Diretor e produtor. Apontado pela imprensa como uma das jovens promessas de Hollywood. Cofundador do Resenha Rentável.
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