Cinema

Ford vs Ferrari é história real? O que o filme mudou na disputa

A Ford tentou comprar a Ferrari por US$ 10 milhões, levou um não e gastou uma fortuna para vencer Le Mans. Veja o que aconteceu de verdade e o que Hollywood inventou.

Pedro Paracampos 6 min de leitura
Foto: Pedro Ribeiro Simões/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Ford vs Ferrari é história real, mas com muito tempero de Hollywood. O filme de 2019 conta como a Ford tentou comprar a Ferrari em 1963, levou um não de Enzo Ferrari e montou um carro, o GT40, só para vencer os italianos nas 24 Horas de Le Mans. A vitória veio em 1966, com os três primeiros lugares, segundo The Henry Ford, o museu da família Ford.

A história continua atual porque é, no fundo, uma briga de negócios. Uma empresa gigante decidiu resolver com dinheiro um problema de orgulho e de marketing. Além disso, o filme virou um caso raro de longa sobre carros que agradou ao público e à Academia. Por isso, vale separar o que aconteceu de verdade do que foi inventado para o roteiro.

Por que a Ford tentou comprar a Ferrari?

No começo dos anos 1960, a Ferrari dominava Le Mans, e a Ford queria entrar nas corridas pela porta da frente. Assim, depois de encontros secretos em 1963, Henry Ford II ofereceu US$ 10 milhões pela empresa italiana, segundo o SlashGear e o site History vs Hollywood, que compara filmes com os fatos.

O negócio quase saiu. No entanto, o contrato dava à Ford o controle do orçamento das corridas e, com ele, as decisões da equipe. Enzo Ferrari não aceitou e desistiu no último momento. Segundo a Biography, o arquivista da Ford Ted Ryan afirmou que Enzo chegou a aprovar o acordo final antes de recuar. Em vez de vender, a Ferrari ficou independente, e a Fiat só comprou uma participação nela em 1969.

Enzo Ferrari, personagem central da história real de Ford vs Ferrari, em Monza
Enzo Ferrari conversa com jornalistas no autódromo de Monza, em setembro de 1967. Foto: Rainer W. Schlegelmilch/Wikimedia Commons (domínio público)

Quanto a Ford gastou para vencer a Ferrari?

Ninguém sabe o número exato. O projeto do GT40 começou com um orçamento de US$ 1,7 milhão, de acordo com o SlashGear. Depois, a conta cresceu muito: o History vs Hollywood fala em pelo menos US$ 25 milhões ao longo do programa, com estimativas que chegam perto de US$ 100 milhões. Ou seja, a Ford gastou várias vezes o valor que tinha oferecido pela própria Ferrari.

O começo foi um desastre. Em 1964, os três GT40 inscritos em Le Mans abandonaram a prova com problemas mecânicos. Em 1965, nenhum GT40 terminou, e a Ferrari venceu de novo. Os freios chegavam a cerca de 800 °C, as caixas de câmbio quebravam e, acima de 320 km/h, o carro perdia aderência, segundo o History vs Hollywood. Foi então que Carroll Shelby, ex-piloto e dono da Shelby American, assumiu o desenvolvimento ao lado do piloto inglês Ken Miles.

O que aconteceu em Le Mans em 1966?

A Ford chegou com força total. Segundo o The Henry Ford, a montadora inscreveu oito GT40 Mark II, a versão com motor V8 de 7 litros. Do lado italiano, nenhuma Ferrari de fábrica chegou ao fim. A corrida terminou em 19 de junho de 1966 com os três primeiros lugares da Ford, a primeira vitória de uma montadora americana na prova, de acordo com a Society of Automotive Historians.

O final é a parte mais famosa, e ela é real. Ken Miles liderava com folga quando a Ford pediu que ele diminuísse o ritmo, para os três carros cruzarem a linha juntos na foto. Miles obedeceu. Porém, os fiscais consideraram que o carro de Bruce McLaren e Chris Amon tinha largado mais atrás e, portanto, percorrido uma distância maior. Assim, a vitória ficou com McLaren e Amon, e Miles terminou em segundo, com Denny Hulme.

Ford GT40 em Le Mans, o carro da história real de Ford vs Ferrari
Um Ford GT40 exposto nos boxes de Le Mans em 2013: o modelo venceu a prova de 1966 a 1969. Foto: David Merrett/Flickr (CC BY 2.0)

Com isso, Miles perdeu a chance de vencer Daytona, Sebring e Le Mans no mesmo ano, já que tinha ganhado as duas primeiras. “Estou decepcionado, claro, mas o que se pode fazer”, disse ele depois da prova, segundo a Society of Automotive Historians. Dois meses mais tarde, em 17 de agosto de 1966, Miles morreu ao testar o sucessor do GT40 no circuito de Riverside, na Califórnia.

O que o filme Ford vs Ferrari mudou da história real?

Bastante coisa, quase sempre para criar tensão. Segundo o History vs Hollywood, Shelby nunca apostou a própria empresa na vitória de Miles. A corrida em Willow Springs, em que Shelby e Miles brigam por um lugar na equipe, não aconteceu. Além disso, foi Miles, e não Shelby, quem levou Henry Ford II para o famoso passeio em alta velocidade, e não há registro de que o empresário tenha chorado.

Outras mudanças são de personagem. O diretor de corridas da Ford, Leo Beebe, é mostrado como vilão, mas a rivalidade com Shelby foi exagerada. Enzo Ferrari também aparece em Le Mans, quando na vida real ele não foi à prova. Por fim, o filme deixa de lado dezenas de engenheiros da Ford que trabalharam no carro. Ainda assim, o essencial é verdadeiro: a compra frustrada, os fracassos de 1964 e 1965, a vitória tripla e o final amargo de Miles.

Carroll Shelby, interpretado por Matt Damon na história real de Ford vs Ferrari
Carroll Shelby, chefe da equipe da Ford em Le Mans, ao lado de um Maserati que pilotou nos anos 1950, em 2007. Foto: Sherry Lambert Stapleton/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Quanto o filme Ford vs Ferrari faturou?

O longa de James Mangold, com Matt Damon como Shelby e Christian Bale como Miles, estreou nos Estados Unidos em 15 de novembro de 2019. Custou US$ 97,6 milhões e faturou US$ 224,4 milhões no mundo, sendo US$ 117,6 milhões só no mercado americano, segundo o The Numbers). Na prática, ficou longe do filme de maior bilheteria da história, mas pagou bem a conta para um drama adulto sem super-herói.

O reconhecimento veio no Oscar de 2020. O filme concorreu a melhor filme e ganhou duas estatuetas, de montagem e de edição de som, segundo a CarAdvice. Para quem quer entender o que pesa no orçamento de uma produção desse tamanho, o blog explicou quanto custa fazer um filme e de onde sai o dinheiro.

Quem ganhou a briga no fim das contas?

Nas pistas, a Ford. Depois de 1966, a montadora venceu Le Mans também em 1967, 1968 e 1969, quatro vezes seguidas, segundo a Society of Automotive Historians. A Ferrari, por outro lado, seguiu independente e só aceitou um sócio, a Fiat, três anos depois da derrota. Ou seja, cada lado conseguiu o que queria: a Ford comprou a vitória que não conseguiu comprar com a empresa, e Enzo manteve o controle da escuderia.

Pedro Paracampos

Roteirista e produtor. Chamado pela imprensa de “prodígio do cinema”. Cofundador do Resenha Rentável.

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