Por que está tudo caro mesmo com a inflação mais baixa
A inflação desacelerou, mas os preços quase nunca voltam ao que eram. Veja o que encareceu a feira, a conta de luz e o cafezinho, e por que a sensação de aperto não passa.

Por que está tudo caro se a inflação diminuiu? Porque inflação mais baixa não significa preço caindo. Significa apenas que os preços sobem mais devagar. Pelas taxas anuais do IPCA divulgadas pelo IBGE, os preços no Brasil subiram cerca de 39% entre janeiro de 2020 e dezembro de 2025. Ou seja, o que custava R$ 100 passou a custar perto de R$ 139.
A dúvida aparece toda hora no Google. Em 2025, “por que o café está caro?” liderou a lista dos “por quês” mais buscados do ano, segundo levantamento do Google citado pelo Bora Investir, da B3. Agora, em outubro de 2026, a sensação continua, e por um bom motivo: a comida voltou a subir no mercado.
Por que está tudo caro se a inflação caiu?
A confusão vem de duas ideias diferentes. A inflação mede quanto os preços sobem num período. Já o preço alto é o resultado acumulado de todos os anos anteriores. Assim, quando a inflação cai de 10% para 4%, os preços continuam subindo, só que num ritmo menor.
Em 2025, por exemplo, o IPCA fechou em 4,26%, a menor taxa desde 2018, segundo a Agência Gov. Para o IBGE, foi “o quinto menor resultado da série desde o plano Real”, nas palavras do gerente da pesquisa, Fernando Gonçalves. Mesmo assim, foi uma alta. Ninguém viu a conta do mercado voltar para o valor de 2020.
O ano que mais pesou nessa conta foi 2021, quando a inflação passou de 10%. Depois disso, as taxas ficaram entre 4% e 6% ao ano. Por isso, a impressão de que tudo está caro tem base nos números: são seis anos seguidos de alta, um em cima do outro.

Os preços algum dia voltam a cair?
Alguns voltam, mas são exceção. Quando um produto cai, quase sempre é porque tinha subido muito antes por um motivo passageiro, como uma safra ruim. Em 2025, o arroz ficou 26,56% mais barato, segundo o IBGE. Mesmo assim, foi exceção num ano em que a média dos preços subiu.
Já a queda geral de preços, chamada de deflação, é rara e quase nunca dura. Na prática, os salários, os aluguéis e os serviços são reajustados todo ano. Com isso, o custo de produzir e vender sobe junto, e as empresas repassam para o preço final. Por esse motivo, o que alivia o bolso não é o preço voltar, e sim a renda subir mais que a inflação.
Por que a comida está mais cara agora?
Em outubro de 2026, o prato voltou a ser o vilão. Na prévia da inflação do mês, o IPCA-15, a alimentação em casa subiu 1,01%, segundo a Gazeta do Povo. O tomate liderou, com alta de 24,54% em um mês. Em seguida vieram a cebola (13,63%), a batata-inglesa (10,96%) e o arroz (5,80%).

Alimento fresco depende do clima e da época de colheita. Por isso, ele sobe e desce mais do que os outros itens da cesta. Além disso, quem ganha menos sente mais, porque gasta uma parte maior da renda com comida. A matéria sobre o IPCA-15 de outubro detalha o que subiu e o que caiu em cada cidade.
Por que o café ficou tão caro?
O café virou o símbolo da carestia em 2025. No IPCA, o café moído acumulou alta de 77,88% em 12 meses até junho de 2025, segundo o Bora Investir. O motivo foi a oferta curta: os estoques mundiais chegaram perto do menor nível da década, depois de quatro anos seguidos de colheitas abaixo do esperado nos maiores produtores.
Depois do pico, o preço começou a ceder. Mesmo assim, em novembro de 2025 o café ainda estava mais de 48% acima do mesmo mês de 2024. Na prévia de outubro de 2026, o café moído caiu 1,16%. Ou seja, o produto parou de disparar, mas continua muito acima do que custava antes da crise.
O que mais pesa no bolso além da comida?
A conta de luz e os combustíveis. Em 2025, a energia elétrica residencial subiu 12,31% e foi o item que mais pressionou a inflação do ano, segundo a Agência Gov. Em setembro de 2026, ela voltou a subir 7,89% com o fim do bônus de Itaipu, um desconto pago aos consumidores quando a usina tem saldo positivo, segundo o Diário do Grande ABC. Com isso, o IPCA do mês foi a 0,82%, como mostrou a matéria sobre o IPCA de setembro.

O diesel tem um efeito escondido. Ele move os caminhões que levam quase tudo o que se compra no país. Na prévia de outubro, o diesel subiu 3,70%, segundo a Gazeta do Povo. Assim, a alta chega ao frete e depois ao preço da comida e dos produtos, como explica a matéria sobre o preço do diesel.
Como a inflação afeta o seu salário?
A inflação corrói o poder de compra, ou seja, a quantidade de coisas que o mesmo dinheiro consegue comprar. Se o salário sobe 4% e os preços sobem 4,6%, a pessoa termina o ano um pouco mais pobre, mesmo com o aumento. Em 12 meses até meados de outubro de 2026, a inflação medida pelo IPCA-15 estava em 4,62%, acima do teto da meta de 4,5%.

É por isso que o Banco Central mantém os juros altos quando a inflação passa do limite. Juros altos encarecem o crédito e freiam o consumo, o que ajuda a segurar os preços. Por outro lado, deixam o financiamento e o cartão mais caros. A matéria sobre a taxa Selic hoje explica esse mecanismo e como a taxa chega ao seu bolso.
Em resumo, está tudo caro porque os preços acumularam seis anos de alta e quase nunca voltam atrás. A inflação mais baixa só diminui a velocidade da subida. No curto prazo, a comida e a energia são os itens que mais pesam, enquanto o café, que assustou em 2025, parou de subir, mas ficou num patamar bem mais alto.
O Resenha Rentável contou a história do dinheiro, das conchas à inflação de hoje, neste vídeo:

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