Geopolítica

O que é a Opep e como o cartel do petróleo mexe no seu bolso

O grupo que nasceu em Bagdá em 1960 ainda guarda quase 80% das reservas de petróleo do mundo. Mas perdeu os Emirados Árabes em 2026 e tem uma reunião decisiva marcada para 29 de novembro.

Pedro Paracampos 6 min de leitura
Foto: C. Stadler/Bwag/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O que é a Opep? É a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, um grupo de 11 países que combina quanto cada um vai tirar do chão para influenciar o preço do barril. Segundo o boletim estatístico anual da própria Opep, citado pela Anadolu, os membros responderam por 36,7% do petróleo bruto produzido no mundo em 2025.

O assunto voltou ao noticiário por três motivos. Primeiro, os Emirados Árabes Unidos saíram do grupo em maio de 2026, depois de quase 60 anos. Depois, a guerra com o Irã travou boa parte das exportações do Golfo Pérsico e levou o Brent, o petróleo de referência internacional, para perto de US$ 118 no fim de outubro. Por fim, todos os membros da Opep+ se reúnem em 29 de novembro para definir as cotas de produção de 2027, segundo o InfoMoney.

Como surgiu a Opep?

A Opep nasceu em 14 de setembro de 1960, em Bagdá, no Iraque, segundo o Gulf News. Os fundadores foram cinco países: Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela.

A sede ficou primeiro em Genebra, na Suíça, e se mudou para Viena, na Áustria, em 1965. Desde então, outros países entraram e saíram. Hoje, os 11 membros são Arábia Saudita, Argélia, Congo, Gabão, Guiné Equatorial, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria e Venezuela, de acordo com o Khaleej Times.

Como a Opep controla o preço do petróleo?

O grupo não fixa o preço diretamente. Em vez disso, ele mexe na quantidade. Cada país recebe uma meta de produção, chamada de cota. Quando a Opep quer o barril mais caro, os membros produzem menos e a oferta encolhe. Quando quer ganhar mercado ou acalmar os preços, eles abrem as torneiras. Na prática, funciona como um cartel, que é o nome dado a empresas ou países concorrentes que combinam a produção para não brigar por preço.

Bombas de extração de petróleo em campo da Califórnia, nos EUA, país que não está na Opep
Bombas de extração de petróleo no campo de Lost Hills, na Califórnia: os Estados Unidos são o maior produtor do mundo e não fazem parte da Opep. Foto: Arne Hückelheim/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

O poder do grupo vem das reservas. No fim de 2025, os países da Opep guardavam 1,24 trilhão de barris, de um total de 1,57 trilhão no mundo, segundo o mesmo boletim citado pela Anadolu. Ou seja, quase 8 em cada 10 barris que ainda estão debaixo da terra pertencem aos membros. Ainda assim, o maior produtor do planeta não está no grupo: os Estados Unidos extraíram em média 13,6 milhões de barris por dia em 2025, um recorde, segundo a EIA, a agência de energia do governo americano.

O que foi o embargo do petróleo de 1973?

O episódio mais famoso da história da Opep aconteceu durante a guerra do Yom Kippur. Em 17 de outubro de 1973, os países árabes do grupo cortaram a venda de petróleo para os Estados Unidos e outras nações que apoiavam Israel, segundo o History. O preço subiu cerca de 70% logo depois e, com um novo aumento em dezembro, o barril ficou quatro vezes mais caro.

O resultado foi uma crise de energia, com filas e racionamento nos postos dos Estados Unidos e da Europa. O embargo contra os americanos acabou em março de 1974, mas o petróleo nunca voltou ao preço anterior. Essa história também ajuda a entender o petrodólar, o acordo que ligou o petróleo saudita à moeda americana.

Refinaria de Ras Tanura, da Aramco, na Arábia Saudita
Refinaria de Ras Tanura, na Arábia Saudita, o país mais influente da Opep. Foto: Aramco/Wikimedia Commons (domínio público)

O que é a Opep+ e qual a diferença para a Opep?

A Opep+ é uma aliança maior, criada em dezembro de 2016. Segundo o Khaleej Times, ela surgiu como resposta à queda dos preços provocada pelo avanço do petróleo de xisto dos Estados Unidos. A aliança junta os membros da Opep com 10 produtores de fora da organização, como a Rússia. Por isso, hoje as decisões que mais mexem no mercado saem da Opep+, e não só da Opep.

A decisão mais recente veio no domingo, 1º de novembro. Arábia Saudita, Rússia, Iraque, Kuwait, Argélia, Cazaquistão e Omã mantiveram as metas de produção para dezembro, segundo o InfoMoney. Além disso, uma revisão da capacidade de cada país deve sair até meados de novembro, antes da reunião do dia 29.

O Brasil também tem um pé nessa porta. Em fevereiro de 2025, o Conselho Nacional de Política Energética autorizou a adesão à Carta de Cooperação, um fórum ligado à Opep+. Na ocasião, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que a adesão “não gera obrigação vinculante ao Brasil”, segundo a Agência Brasil. Em outras palavras, o país conversa com o grupo, mas não segue cotas. Em 2025, o Brasil produziu em média 3,77 milhões de barris por dia, recorde segundo a ANP, como mostrou a CNN Brasil.

Plataforma de petróleo P-51 da Petrobras, no Brasil, que participa de fórum da Opep+
Plataforma P-51, da Petrobras: o Brasil participa de um fórum ligado à Opep+, mas não segue cotas. Foto: Divulgação Petrobras/Agência Brasil (CC BY 3.0 BR)

Por que os Emirados Árabes saíram da Opep?

Os Emirados anunciaram a saída em 28 de abril de 2026, com efeito a partir de 1º de maio, e deixaram também a Opep+. O país era membro desde 1967 e produzia mais de 3 milhões de barris por dia, o terceiro maior volume do grupo, segundo a eixos. Na justificativa oficial, segundo o Khaleej Times, o governo citou o investimento acelerado na produção doméstica de energia.

Para o analista Bruno Cordeiro, da StoneX, ouvido pela eixos, a saída dá aos Emirados “maior autonomia” para expandir a produção sem seguir as diretrizes do grupo. Além disso, a reportagem relaciona a decisão à insatisfação com as cotas e ao bloqueio no Estreito de Ormuz, que limita as exportações da região. Sem um de seus maiores produtores, a Opep perde parte da capacidade de mover o mercado sozinha.

Como a Opep afeta o preço da gasolina no Brasil?

O efeito é indireto, mas real. O petróleo é negociado em dólar no mercado internacional, e o preço do barril serve de referência para combustíveis no mundo todo. Assim, quando a Opep+ corta a produção ou uma guerra trava as exportações, o barril sobe e pressiona o custo da gasolina, do diesel e do querosene de aviação. Foi o que aconteceu com o preço do diesel e com o frete ao longo da guerra do Irã.

Superpetroleiro AbQaiq, que transporta petróleo do Golfo Pérsico
Superpetroleiro saudita AbQaiq: boa parte do petróleo dos países da Opep sai do Golfo Pérsico pelo mar. Foto: Marinha dos EUA (domínio público)

Por outro lado, um barril mais caro aumenta a receita de quem produz petróleo, inclusive no Brasil. Agências como a AIE já alertam para excesso de oferta em 2027, caso os fluxos do Golfo voltem ao normal, segundo o InfoMoney. Por isso, a reunião de 29 de novembro vai mostrar se o grupo ainda consegue segurar o preço do petróleo num mundo com mais produtores fora dele.

Pedro Paracampos

Roteirista e produtor. Chamado pela imprensa de “prodígio do cinema”. Cofundador do Resenha Rentável.

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