Negócios

A história da Starbucks, da loja de grãos às 41 mil cafeterias

Três amigos abriram uma loja que nem servia café pronto. Um vendedor de máquinas viu ali outra coisa, comprou a empresa por US$ 3,8 milhões e criou um modelo que hoje fatura US$ 37,9 bilhões por ano.

Pietro Krauss 5 min de leitura
Foto: Pike Place Market/Arquivo Municipal de Seattle (CC BY 2.0)

A história da Starbucks começa em 1971, em Seattle, nos Estados Unidos, com uma loja que vendia café em grão, chá e especiarias, mas não servia nenhuma xícara pronta. Cinco décadas depois, a marca fechou o ano fiscal de 2026 com 41.607 cafeterias e US$ 37,9 bilhões em receita, segundo o balanço enviado à SEC, a comissão de valores dos EUA.

O caminho entre esses dois pontos é uma das grandes lições de negócios do século 20. A Starbucks não inventou o café nem a cafeteria. O que ela fez foi vender uma experiência, e depois descobrir como espalhar essa experiência pelo mundo sem pagar sozinha por cada loja. Além disso, a trajetória da marca no Brasil mostra o outro lado desse modelo, com quase uma quebra em 2023.

Como a Starbucks começou?

Três amigos que tinham estudado na Universidade de São Francisco, Jerry Baldwin, Gordon Bowker e Zev Siegl, abriram a primeira loja em 1971, segundo a Fox Business. O nome veio de Starbuck, o imediato do baleeiro do livro Moby Dick, de Herman Melville. Na época, a loja vendia grãos torrados para o cliente preparar em casa, com a orientação de Alfred Peet, dono da Peet’s Coffee, que ensinou o método de torra aos fundadores.

O endereço mais famoso da marca, no Pike Place Market, não foi o primeiro. Segundo a ficha da foto no Arquivo Municipal de Seattle, publicada no Wikimedia Commons, a loja abriu na Western Avenue e mudou para o mercado em 1976. Mesmo assim, é essa a unidade que turistas do mundo inteiro visitam hoje como a “loja original”.

Quem é Howard Schultz e o que ele mudou?

Howard Schultz trabalhava numa fabricante de cafeteiras quando notou que a pequena Starbucks comprava máquinas demais. Ele entrou na empresa em 1982, como diretor de operações e marketing. No ano seguinte, numa viagem a Milão, ficou impressionado com os bares de espresso italianos, onde o café era um ponto de encontro. Por isso, voltou com a ideia de transformar a loja de grãos numa rede de cafeterias.

Os fundadores recusaram a proposta. Então, Schultz saiu em 1985 e abriu a própria cafeteria, a Il Giornale, em 1986, segundo a Wikipédia. Em 1987, os donos decidiram vender a Starbucks, e ele comprou a marca por US$ 3,8 milhões, de acordo com o The Motley Fool. A partir daí, as lojas passaram a servir a bebida pronta, no modelo que ele tinha visto na Itália.

Como a Starbucks cresceu tão rápido?

A expansão começou por Chicago e Vancouver. Em 26 de junho de 1992, a empresa abriu capital na bolsa a US$ 17 por ação e fechou o primeiro dia a US$ 21,50, segundo a Fox Business. Com o dinheiro do IPO, a rede acelerou. Em 1995 veio o Frappuccino, e em seguida a marca chegou ao Japão (1996), a Singapura (1997), à Europa (1998) e à China (1999).

O segredo estava menos no café e mais no lugar. A ideia era transformar a loja num ponto de encontro entre a casa e o trabalho, inspirado nos bares de Milão. Ou seja, o cliente pagava também pelo ambiente. Quando Schultz deixou o cargo de presidente executivo, em 2000, a rede já passava de 3 mil lojas.

A Starbucks quase quebrou?

Não chegou a quebrar, mas sofreu. Sem Schultz no comando, a rede passou a abrir lojas em ritmo acelerado, e a experiência perdeu força. Ele voltou como presidente executivo em janeiro de 2008, no meio da crise financeira, e fechou 900 lojas, segundo a Fox Business. A empresa só recuperou o equilíbrio por volta de 2012.

Depois disso, Schultz deixou o comando em 2017 e voltou de forma interina entre 2022 e 2023. Desde 2024, a empresa é comandada por Brian Niccol, que lançou o plano “Back to Starbucks”, de volta ao básico. No ano fiscal de 2026, encerrado em setembro, as vendas nas lojas comparáveis subiram 6,2%, segundo o balanço da empresa.

Como a Starbucks ganha dinheiro hoje?

A Starbucks não é dona da maior parte das suas cafeterias. Segundo o balanço de 2026, cerca de 32% das lojas são operadas pela própria empresa e 68% são licenciadas, ou seja, um parceiro local paga pelo direito de usar a marca e repassa uma parte das vendas. É um raciocínio parecido com o que explica como o McDonald’s ganha dinheiro.

Esse modelo ficou ainda maior em 2026. A empresa vendeu o controle da operação na China para uma parceria com o fundo Boyu Capital, e 7.991 cafeterias chinesas passaram de próprias a licenciadas. Com isso, a Starbucks recebeu US$ 2,54 bilhões líquidos e registrou um ganho de US$ 536 milhões, segundo o documento entregue à SEC.

Como a Starbucks chegou ao Brasil?

As duas primeiras lojas brasileiras abriram em 30 de novembro de 2006, no MorumbiShopping, em São Paulo, segundo o Jornal do Brasil. Em 2018, a matriz passou toda a operação para a gestora SouthRock, quando a rede tinha 113 unidades em 17 cidades, segundo o Meio & Mensagem. A SouthRock pagava uma taxa sobre as vendas pelo uso da marca.

No fim de 2023, a SouthRock entrou com pedido de recuperação judicial, com dívidas de R$ 1,8 bilhão, e dezenas de lojas fecharam. Em 2024, a Zamp, dona do Burger King no Brasil e controlada pelo fundo Mubadala, comprou a operação por R$ 120 milhões, valor depois ajustado para R$ 101,8 milhões, segundo a Bloomberg Línea. A rede terminou 2025 com 112 lojas e planejou abrir cerca de 30 em 2026.

A trajetória brasileira resume o lado de risco do modelo, parecido com o que aconteceu em outras recuperações judiciais do varejo. Afinal, a marca pode ser global, mas a conta de cada loja fica com o parceiro local. A Starbucks virou gigante vendendo o mesmo café em qualquer lugar do mundo, e a sua história mostra que a experiência do cliente é o produto, enquanto o licenciamento é o motor que leva esse produto mais longe.

Pietro Krauss

Diretor e produtor. Apontado pela imprensa como uma das jovens promessas de Hollywood. Cofundador do Resenha Rentável.

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