Quem é Pedro Alliana, que assume o Paraguai após a queda de Peña
O Senado tirou Santiago Peña do cargo por 44 votos, e horas depois ele foi detido no caso Ueno Bank. O vice, um veterano do Partido Colorado, vai governar até 2028.

Pedro Alliana, de 52 anos, é o novo presidente do Paraguai. Ele era o vice e tomou posse na noite de sexta-feira, 6 de novembro de 2026, logo depois que o Senado destituiu Santiago Peña por 44 votos, num juízo político ligado à quebra do Ueno Bank. Segundo o jornal ABC Color, Alliana vai completar o mandato, que termina em agosto de 2028.
A troca aconteceu em poucas horas e terminou com Peña detido. O caso importa para o Brasil porque o Paraguai é vizinho, sócio no Mercosul e parceiro na usina de Itaipu. Além disso, a crise começou num banco digital que travou o dinheiro de cerca de 2,9 milhões de clientes, como mostramos na matéria sobre o Ueno Bank.
Como Santiago Peña perdeu o cargo?
Na quinta-feira, 5 de novembro, a Câmara dos Deputados aprovou a acusação contra Peña por “mau desempenho de suas funções”. Pouco antes, ele tinha anunciado a renúncia, mas o Congresso não chegou a votar o pedido. Por isso, o processo seguiu para o Senado, que funciona como tribunal nesses casos.
Na sexta, às 18h55 de Assunção, os senadores condenaram Peña por 44 votos, de um total de 45, e mandaram afastá-lo de imediato, segundo o ABC Color. Ele não foi ao plenário e foi representado pelos advogados Ricardo Preda e Adolfo Ferreiro. Segundo o jornal, Ferreiro argumentou que o julgamento não tinha mais objeto depois da renúncia, enquanto Preda disse que o devido processo foi violado.
A acusação no Congresso ligava o presidente à queda do Ueno Bank e ao dinheiro do IPS, a previdência social do país, aplicado no banco. Peña foi sócio da empresa que deu origem à holding do Ueno até 2025 e nega irregularidades. Segundo o InfoMoney, ele sustenta que a crise é uma questão de regulação bancária.
Por que Peña foi detido?
Logo depois da votação, o Ministério Público pediu a detenção de Peña e do ex-presidente do Banco Central do Paraguai Carlos Carvallo. O pedido faz parte da investigação criminal do caso Ueno, aberta por “lesão de confiança e outros”, segundo o ABC Color. Na prática, lesão de confiança é o crime de quem administra dinheiro alheio e causa prejuízo a ele.
Os promotores Christian Benítez e Silvia Franco foram à casa de Peña, em Assunção, por volta das 20h. Primeiro, ele ficou detido em casa. Depois, protestos na frente da residência levaram a polícia a transferi-lo de madrugada para o Regimiento Escolta Presidencial, uma unidade militar, de acordo com a Infobae. Segundo o promotor Benítez, a investigação também apura tráfico de influência e administração em proveito próprio.
Neste sábado, Peña foi levado à sede do Ministério Público e se recusou a falar, informou o La Nación, de Assunção. Carvallo se entregou à polícia na noite de sexta. Investigado não é culpado: até 7 de novembro de 2026, nenhum dos dois havia sido julgado. O advogado Ricardo Preda afirmou à Infobae que não existe motivo para a prisão preventiva e que Peña vai colaborar.
Quem é Pedro Alliana?
Pedro Alliana nasceu em 19 de fevereiro de 1974, em Pilar, no departamento de Ñeembucú, no extremo sul do país, na fronteira com a Argentina. Ele é um político de carreira do Partido Colorado, que a BBC descreve como o partido mais poderoso do país. Segundo a BBC News Brasil, a trajetória dele começou com uma derrota, na disputa pela prefeitura de Pilar em 2006.
Depois disso, a carreira acelerou. Alliana foi governador de Ñeembucú de 2008 a 2013 e deputado de 2013 a 2023. Nesse período, presidiu a Câmara dos Deputados entre 2019 e 2022 e o Partido Colorado entre 2015 e 2023. Em seguida, foi eleito vice na chapa de Peña e assumiu a vice-presidência em 15 de agosto de 2023.
Na quinta, os deputados também analisaram um pedido de juízo político contra ele, mas rejeitaram a acusação por 48 votos a 30, segundo o ABC Color. Assim, a linha de sucessão ficou de pé. Para a vaga de vice, o Congresso escolheu na própria sexta o senador Antonio Barrios, também colorado, que deixou a cadeira no Senado para tomar posse.
Qual é a relação de Alliana com Horacio Cartes?
Alliana é visto há anos como parte do círculo próximo do ex-presidente Horacio Cartes, o principal líder colorado. Segundo a BBC News Brasil, os dois tinham se afastado semanas antes, numa disputa sobre a escolha de candidatos para 2028. No entanto, Alliana reapareceu ao lado de Cartes numa reunião do partido na tarde de sexta, quando ambos apoiaram o juízo político.
Para a cientista política Rocío Duarte, da Universidade Católica de Assunção, ouvida pela BBC, Alliana conhece a estrutura do partido em todo o país. Por isso, ele é visto internamente como alguém ligado às bases, enquanto Peña representava o perfil técnico, de economista. Alliana já disse que pretende disputar a Presidência em 2028.
O que Alliana prometeu ao assumir?
No discurso de posse, Alliana disse que os cidadãos prejudicados pela quebra do banco serão compensados por completo e que não vão ficar desamparados, segundo a BBC. Além disso, prometeu um plano para racionalizar os gastos públicos e colocar os poupadores no centro do governo, de acordo com o ABC Color.
O desafio é grande. O Ueno era o maior banco digital do país, e o fundo de garantia paraguaio cobre só até 75 salários mínimos por cliente. Ou seja, funciona como o FGC brasileiro, que devolve o dinheiro até um teto quando um banco quebra.
O que muda na relação com o Brasil?
O presidente Lula publicou uma mensagem desejando “pleno êxito” a Alliana e disse que quer trabalhar com ele de maneira “aberta, franca e cooperativa”, segundo O Tempo. O Itamaraty preferiu não comentar a crise e trata o caso como assunto interno do Paraguai. Segundo o jornal, os diplomatas não esperam mudança importante na relação entre os dois países, e o primeiro encontro deve ser na cúpula do Mercosul de 4 de dezembro, em Montevidéu.
O Paraguai já viveu algo parecido. Em 22 de junho de 2012, o Congresso destituiu Fernando Lugo num juízo político, e o país foi suspenso do Mercosul dois dias depois, segundo reportagem da Agência Brasil republicada pelo IHU Unisinos. Desta vez, o Senado votou depois da renúncia anunciada e de uma acusação aprovada por unanimidade na Câmara.
Pedro Alliana assume, portanto, um país em crise bancária, com o antecessor detido e uma eleição marcada para 2028. A forma como o governo vai devolver o dinheiro dos clientes do Ueno deve decidir o tamanho do estrago. No Brasil, o caso lembra outro escândalo recente que pôs a garantia de depósitos em debate, o do Banco Master.

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