Cinema

Prenda-me Se For Capaz é história real? O que os registros mostram

O filme de Spielberg vendeu a história de um adolescente que enganou a Pan Am, os hospitais e o FBI. Os arquivos da Justiça americana contam outra coisa: boa parte daqueles anos ele passou atrás das grades.

Pedro Paracampos 6 min de leitura
Foto: Abagnale & Associates/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Prenda-me Se For Capaz é história real só em parte. O filme de 2002 conta a vida de Frank Abagnale, um golpista americano que de fato falsificou cheques e passou anos na prisão. No entanto, registros públicos mostram que ele estava preso numa penitenciária de Nova York justamente no período em que dizia viajar o mundo fingindo ser piloto da Pan Am e fugindo do FBI.

A dúvida não é nova, mas ganhou força em 2020. Naquele ano, o escritor Alan C. Logan lançou o livro “The Greatest Hoax on Earth” (“A maior farsa do mundo”, em tradução livre), com documentos dos arquivos do estado de Nova York. Desde então, a história que encantou o público virou um caso curioso: um filme sobre um mentiroso que talvez tenha sido baseado, ele mesmo, numa mentira.

O que conta Prenda-me Se For Capaz?

O longa foi dirigido por Steven Spielberg, com roteiro de Jeff Nathanson, a partir do livro que Abagnale escreveu com o jornalista Stan Redding em 1980. Leonardo DiCaprio faz Frank, um adolescente que foge de casa e passa a viver de golpes. Ele se passa por piloto, médico e advogado, enquanto espalha cheques falsos pelos Estados Unidos e pela Europa. Tom Hanks vive Carl Hanratty, o agente do FBI que passa anos atrás dele.

O filme foi um sucesso de público e de crítica. Segundo o The Numbers, ele custou US$ 52 milhões e faturou US$ 355,6 milhões no mundo depois da estreia, em 25 de dezembro de 2002. Além disso, recebeu duas indicações ao Oscar, para Christopher Walken como ator coadjuvante e para a trilha de John Williams.

Steven Spielberg, diretor de Prenda-me Se For Capaz
Steven Spielberg, diretor de Prenda-me Se For Capaz, em 2017. Foto: Gage Skidmore/Flickr (CC BY-SA 2.0)

Nos bastidores, as filmagens foram de fevereiro a maio de 2002, em 147 locações e 52 dias de gravação, segundo a Wikipédia. Uma delas foi o antigo terminal da TWA no aeroporto JFK, em Nova York, um ícone da arquitetura dos anos 1960.

O que é verdade em Prenda-me Se For Capaz?

Frank Abagnale existe e foi mesmo um golpista. Ele nasceu em 27 de abril de 1948, no Bronx, em Nova York. Segundo os registros reunidos pela Wikipédia, foi preso várias vezes a partir de 1965, por furto, roubo de carro e cheques sem fundo. Em 1969, passou temporadas em prisões da França e da Suécia, e foi deportado de volta aos Estados Unidos em 1970.

Frank Abagnale, o golpista que inspirou Prenda-me Se For Capaz, história real só em parte
Frank Abagnale em 2007, quando já trabalhava como consultor contra fraudes. Foto: Marcus JB/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A parte dos cheques da Pan Am também tem base real, mas em escala bem menor. Em novembro de 1970, ele foi preso na Geórgia depois de descontar cheques falsos de pagamento da companhia aérea. Em 1971, a Justiça federal o condenou a dez anos de prisão por cheques que somavam menos de US$ 1.500, mais dois anos por fugir da cadeia. Ele saiu em liberdade condicional em 1974, depois de cerca de dois anos preso na Virgínia.

O que os registros desmentem?

O ponto central do livro de Logan é o calendário. Segundo os documentos, Abagnale ficou preso na penitenciária de Great Meadow, em Nova York, de julho de 1965 a dezembro de 1968. Ou seja, ele estava atrás das grades entre os 17 e os 20 anos, a fase em que o livro e o filme o mostram cruzando o mundo de uniforme.

“Public records obtained by me show that he was confined for the most part in prison during those years.”

Alan C. Logan, à emissora WHYY, em abril de 2021

Outras histórias já tinham sido contestadas antes. Em 1978, a Ordem dos Advogados da Louisiana não achou registro de que ele tivesse feito o exame da ordem, e administradores de um hospital da Geórgia disseram que o plantão de pediatra que ele descrevia nem existia. Além disso, um porta-voz da Pan Am negou que a empresa tenha perdido US$ 2,5 milhões com ele, o valor que ele dizia ter tirado da empresa, segundo a WHYY, afiliada da rede pública NPR.

Boeing 707 da Pan Am, a companhia citada em Prenda-me Se For Capaz
Boeing 707 da Pan Am, a companhia aérea que Abagnale dizia ter enganado por anos. Foto: SDASM Archives/San Diego Air and Space Museum (sem restrições de direitos conhecidas)

O livro também traz um caso que não aparece no filme. Em 1969, segundo Logan, Abagnale se aproximou de uma comissária da TWA vestido de piloto, foi atrás dela até Baton Rouge e roubou cerca de US$ 1.200 da família dela. A versão contrasta com a imagem do golpista simpático que só enganava bancos e companhias aéreas.

Abagnale trabalhou mesmo para o FBI?

No filme, o golpista termina ajudando o FBI a pegar falsários. Na vida real, Abagnale criou em 1976 uma consultoria contra fraudes e virou palestrante conhecido. Porém, segundo a Wikipédia, um porta-voz do FBI confirmou apenas que ele deu palestras ocasionais na academia da agência e negou os elogios oficiais que ele dizia ter recebido.

O personagem de Tom Hanks também é uma invenção parcial. Abagnale dizia que o agente que o perseguiu se chamava Joseph Shea e não queria ter o nome no filme. Por isso, o roteiro criou Carl Hanratty, um nome emprestado de um jogador de futebol americano.

O que Abagnale diz sobre as acusações?

Ele já admitiu exageros, mas nunca abriu mão da história. Em 2002, num texto no site da própria empresa, disse que Redding, o coautor, “dramatizou demais e exagerou” partes do livro. Sobre o longa, também fez questão de dizer que ele não era um documentário.

“It is important to understand that it is just a movie, not a biographical documentary.”

Frank Abagnale, em declaração sobre o filme

Sobre o livro de Logan, a resposta foi curta. À WHYY, Abagnale disse que não tinha lido a obra e que não a considerava digna de comentário. Em 2022, o jornalista Javier Leiva disse ter confirmado de forma independente os achados de Logan e confrontou Abagnale num evento na Universidade Xavier, onde ele negou ter mentido, segundo a Wikipédia.

Por que Hollywood comprou essa história?

A explicação mais simples é que ela tinha tudo que um roteiro precisa: carisma, disfarces, viagens e um caçador obstinado. Abagnale vendeu os direitos do livro para o cinema ainda em 1980, e o projeto passou por vários diretores antes de chegar a Spielberg, em 2001. O estúdio DreamWorks anunciou o filme como “inspirado numa história real”, e não como biografia.

Terminal da TWA no aeroporto JFK, locação de Prenda-me Se For Capaz
O antigo terminal da TWA no aeroporto JFK, em Nova York, uma das locações do filme. Foto: Warren LeMay/Flickr (CC0)

Hollywood faz esse tipo de escolha com frequência, como mostram os casos de O Lobo de Wall Street e de Ford vs Ferrari. A diferença, aqui, é que a liberdade criativa pode ter começado antes do roteiro, no próprio relato do protagonista. Quem quiser comparar com outros casos pode ver a nossa lista de filmes sobre golpes reais.

No fim, Prenda-me Se For Capaz continua um ótimo filme, mas funciona melhor como ficção do que como aula de história. O golpe que de fato rendeu milhões talvez não tenha sido contra a Pan Am, e sim a própria história, vendida em livro, palestras e numa bilheteria de US$ 355 milhões.

Pedro Paracampos

Roteirista e produtor. Chamado pela imprensa de “prodígio do cinema”. Cofundador do Resenha Rentável.

Ver biografia e artigos →
Essa conversa continua no canal.Inscreva-se no YouTube