Ford vs Ferrari é história real? O que o filme mudou na disputa
A Ford tentou comprar a Ferrari por US$ 10 milhões, levou um não e gastou uma fortuna para vencer Le Mans. Veja o que aconteceu de verdade e o que Hollywood inventou.

Ford vs Ferrari é história real, mas com muito tempero de Hollywood. O filme de 2019 conta como a Ford tentou comprar a Ferrari em 1963, levou um não de Enzo Ferrari e montou um carro, o GT40, só para vencer os italianos nas 24 Horas de Le Mans. A vitória veio em 1966, com os três primeiros lugares, segundo The Henry Ford, o museu da família Ford.
A história continua atual porque é, no fundo, uma briga de negócios. Uma empresa gigante decidiu resolver com dinheiro um problema de orgulho e de marketing. Além disso, o filme virou um caso raro de longa sobre carros que agradou ao público e à Academia. Por isso, vale separar o que aconteceu de verdade do que foi inventado para o roteiro.
Por que a Ford tentou comprar a Ferrari?
No começo dos anos 1960, a Ferrari dominava Le Mans, e a Ford queria entrar nas corridas pela porta da frente. Assim, depois de encontros secretos em 1963, Henry Ford II ofereceu US$ 10 milhões pela empresa italiana, segundo o SlashGear e o site History vs Hollywood, que compara filmes com os fatos.
O negócio quase saiu. No entanto, o contrato dava à Ford o controle do orçamento das corridas e, com ele, as decisões da equipe. Enzo Ferrari não aceitou e desistiu no último momento. Segundo a Biography, o arquivista da Ford Ted Ryan afirmou que Enzo chegou a aprovar o acordo final antes de recuar. Em vez de vender, a Ferrari ficou independente, e a Fiat só comprou uma participação nela em 1969.

Quanto a Ford gastou para vencer a Ferrari?
Ninguém sabe o número exato. O projeto do GT40 começou com um orçamento de US$ 1,7 milhão, de acordo com o SlashGear. Depois, a conta cresceu muito: o History vs Hollywood fala em pelo menos US$ 25 milhões ao longo do programa, com estimativas que chegam perto de US$ 100 milhões. Ou seja, a Ford gastou várias vezes o valor que tinha oferecido pela própria Ferrari.
O começo foi um desastre. Em 1964, os três GT40 inscritos em Le Mans abandonaram a prova com problemas mecânicos. Em 1965, nenhum GT40 terminou, e a Ferrari venceu de novo. Os freios chegavam a cerca de 800 °C, as caixas de câmbio quebravam e, acima de 320 km/h, o carro perdia aderência, segundo o History vs Hollywood. Foi então que Carroll Shelby, ex-piloto e dono da Shelby American, assumiu o desenvolvimento ao lado do piloto inglês Ken Miles.
O que aconteceu em Le Mans em 1966?
A Ford chegou com força total. Segundo o The Henry Ford, a montadora inscreveu oito GT40 Mark II, a versão com motor V8 de 7 litros. Do lado italiano, nenhuma Ferrari de fábrica chegou ao fim. A corrida terminou em 19 de junho de 1966 com os três primeiros lugares da Ford, a primeira vitória de uma montadora americana na prova, de acordo com a Society of Automotive Historians.
O final é a parte mais famosa, e ela é real. Ken Miles liderava com folga quando a Ford pediu que ele diminuísse o ritmo, para os três carros cruzarem a linha juntos na foto. Miles obedeceu. Porém, os fiscais consideraram que o carro de Bruce McLaren e Chris Amon tinha largado mais atrás e, portanto, percorrido uma distância maior. Assim, a vitória ficou com McLaren e Amon, e Miles terminou em segundo, com Denny Hulme.

Com isso, Miles perdeu a chance de vencer Daytona, Sebring e Le Mans no mesmo ano, já que tinha ganhado as duas primeiras. “Estou decepcionado, claro, mas o que se pode fazer”, disse ele depois da prova, segundo a Society of Automotive Historians. Dois meses mais tarde, em 17 de agosto de 1966, Miles morreu ao testar o sucessor do GT40 no circuito de Riverside, na Califórnia.
O que o filme Ford vs Ferrari mudou da história real?
Bastante coisa, quase sempre para criar tensão. Segundo o History vs Hollywood, Shelby nunca apostou a própria empresa na vitória de Miles. A corrida em Willow Springs, em que Shelby e Miles brigam por um lugar na equipe, não aconteceu. Além disso, foi Miles, e não Shelby, quem levou Henry Ford II para o famoso passeio em alta velocidade, e não há registro de que o empresário tenha chorado.
Outras mudanças são de personagem. O diretor de corridas da Ford, Leo Beebe, é mostrado como vilão, mas a rivalidade com Shelby foi exagerada. Enzo Ferrari também aparece em Le Mans, quando na vida real ele não foi à prova. Por fim, o filme deixa de lado dezenas de engenheiros da Ford que trabalharam no carro. Ainda assim, o essencial é verdadeiro: a compra frustrada, os fracassos de 1964 e 1965, a vitória tripla e o final amargo de Miles.

Quanto o filme Ford vs Ferrari faturou?
O longa de James Mangold, com Matt Damon como Shelby e Christian Bale como Miles, estreou nos Estados Unidos em 15 de novembro de 2019. Custou US$ 97,6 milhões e faturou US$ 224,4 milhões no mundo, sendo US$ 117,6 milhões só no mercado americano, segundo o The Numbers). Na prática, ficou longe do filme de maior bilheteria da história, mas pagou bem a conta para um drama adulto sem super-herói.
O reconhecimento veio no Oscar de 2020. O filme concorreu a melhor filme e ganhou duas estatuetas, de montagem e de edição de som, segundo a CarAdvice. Para quem quer entender o que pesa no orçamento de uma produção desse tamanho, o blog explicou quanto custa fazer um filme e de onde sai o dinheiro.
Quem ganhou a briga no fim das contas?
Nas pistas, a Ford. Depois de 1966, a montadora venceu Le Mans também em 1967, 1968 e 1969, quatro vezes seguidas, segundo a Society of Automotive Historians. A Ferrari, por outro lado, seguiu independente e só aceitou um sócio, a Fiat, três anos depois da derrota. Ou seja, cada lado conseguiu o que queria: a Ford comprou a vitória que não conseguiu comprar com a empresa, e Enzo manteve o controle da escuderia.

Roteirista e produtor. Chamado pela imprensa de “prodígio do cinema”. Cofundador do Resenha Rentável.
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