Economia dos criadores cresce, mas a classe média da internet some
As marcas nunca gastaram tanto com criadores de conteúdo. Ainda assim, cada vez menos gente vive bem disso. Os números mostram para onde o dinheiro está indo.

A economia dos criadores nunca movimentou tanto dinheiro, mas esse dinheiro está cada vez mais concentrado no topo. No Brasil, a fatia de criadores que fatura entre R$ 2 mil e R$ 10 mil por mês caiu para cerca de 35% em 2025, segundo a pesquisa Creators & Negócios, da YouPix. Um ano antes, essa faixa reunia quase 60% dos entrevistados.
Esse grupo do meio é o que se pode chamar de classe média da internet: gente que paga as contas com conteúdo, sem ser celebridade. Enquanto ele encolhe, crescem as duas pontas, a de quem ganha pouco e a de quem ganha muito. O movimento importa porque ser criador virou sonho de carreira: nos Estados Unidos, 57% da Geração Z diz que gostaria de ser influenciador, segundo pesquisa da Morning Consult citada pelo Fed de St. Louis. Só que os números mostram um mercado bem mais duro do que parece no feed.
O que é a economia dos criadores?
A economia dos criadores, ou creator economy, é o mercado formado por pessoas que produzem conteúdo na internet e pelas empresas que vivem em volta delas. Entram aí os criadores, as plataformas como YouTube, Instagram e TikTok, as agências e as marcas que pagam por publicidade. Ou seja, é toda a cadeia que transforma vídeo, post e transmissão ao vivo em dinheiro.
O tamanho desse mercado impressiona. Em abril de 2023, o banco Goldman Sachs estimou que a economia dos criadores valia US$ 250 bilhões e poderia chegar a US$ 480 bilhões em 2027. Segundo o mesmo estudo, existiam cerca de 50 milhões de criadores no mundo naquele momento.
Quanto as marcas gastam com criadores de conteúdo?
O dinheiro das marcas é um dos motores desse mercado, e ele não para de crescer. Nos Estados Unidos, o gasto com publicidade em criadores deve chegar a US$ 37 bilhões em 2025, segundo relatório do IAB, a associação americana de publicidade digital. Em 2021, eram US$ 13,9 bilhões, e em 2024, US$ 29,5 bilhões.
Além disso, o ritmo é muito maior que o do resto da publicidade. Segundo o IAB, o gasto com criadores cresce 26% ao ano, quatro vezes mais rápido que os 5,7% do mercado de mídia como um todo. Hoje, 48% dos anunciantes já tratam os criadores como compra obrigatória, atrás apenas das redes sociais e da busca paga.
Por que a classe média da internet está sumindo?
Se o bolo cresce, a pergunta óbvia é quem está comendo. A pesquisa da YouPix, feita com 490 criadores brasileiros entre julho e setembro de 2025, dá a resposta. Mais de 40% deles ganham até R$ 2 mil por mês, cerca de 35% ficam entre R$ 2 mil e R$ 10 mil, e perto de 12% passam dos R$ 10 mil, segundo o Metrópoles.
Na edição anterior, de 2024, o retrato era outro. Segundo o Meio & Mensagem, quase 60% dos 370 criadores ouvidos pela Brunch e pela YouPix faturavam entre R$ 2.001 e R$ 10 mil por mês. As amostras não são as mesmas, então a comparação mostra uma tendência, e não uma conta exata. Mesmo assim, o desenho é claro: o meio afinou e as pontas engordaram.
Uma das explicações, segundo o E-Commerce Update, é a chegada acelerada de gente nova, muitas vezes tratando o conteúdo como passatempo. Afinal, cerca de 3 em cada 10 criadores ouvidos em 2025 ainda não ganham nada, a maioria com menos de um ano de atividade. Além disso, 53% mantêm outro trabalho, com carteira assinada ou como freelancer, para ter estabilidade, segundo o Metrópoles.

Quem fica com o dinheiro da economia dos criadores?
O fenômeno não é só brasileiro. No mesmo estudo de 2023, o Goldman Sachs calculou que apenas 4% dos criadores do mundo podiam ser chamados de profissionais, com ganhos acima de US$ 100 mil por ano. Em outras palavras, 96% ficavam abaixo dessa marca, mesmo num mercado de centenas de bilhões de dólares.
Em março de 2026, o Federal Reserve de St. Louis, um dos bancos regionais do sistema de banco central dos EUA, descreveu esse mercado como um caso de “o vencedor leva tudo”. Na prática, pequenas diferenças de talento ou de sorte viram diferenças enormes de renda, porque o algoritmo amplifica quem já está na frente. Ao mesmo tempo, basta um celular para entrar, e por isso a concorrência derruba o preço de quem está começando.
Quantos criadores de conteúdo existem no Brasil?
A concorrência no Brasil também é grande. Em 2023, um levantamento da Nielsen citado pelo Terra contou mais de 500 mil pessoas atuando como influenciadores no país, considerando só perfis com pelo menos 10 mil seguidores.
Com tanta oferta, as marcas ficaram mais exigentes. No relatório do IAB, a reputação do criador aparece como o primeiro critério de escolha, citada por 58% dos anunciantes, à frente do tamanho da audiência. Esse é o ponto em que influência e conteúdo se separam, uma diferença explicada no texto sobre influenciador ou criador de conteúdo. No Brasil, a confiança ganhou peso depois que a publicidade de apostas feita por influenciadores entrou na pauta da CPI das Bets.
O que separa quem vive de conteúdo de quem desiste?
A pesquisa da YouPix aponta um fator simples: tempo. Segundo a empresa, 1 em cada 2 criadores que ganham mais de R$ 10 mil por mês produz conteúdo há mais de cinco anos. Ou seja, a renda alta costuma vir depois de anos de constância, e não de um vídeo que viralizou.

Outro fator é não depender de uma única fonte de dinheiro. Segundo o Metrópoles, cresceram na pesquisa de 2025 as receitas fora da publicidade tradicional, como conteúdo sob encomenda para marcas, programas de afiliados, cursos e licenciamento. Com isso, os criadores que montam um negócio em volta do conteúdo sofrem menos quando uma marca corta verba ou o algoritmo muda.
No fim, a economia dos criadores segue o caminho de qualquer mercado que amadurece: depois da corrida do ouro, sobra menos espaço para amadores e mais para quem trata o conteúdo como empresa. O bolo continua crescendo, mas a fatia do meio ficou mais fina.
O Resenha Rentável mostrou por que o modelo dos influenciadores começou a perder força. Assista:

Roteirista e produtor. Chamado pela imprensa de “prodígio do cinema”. Cofundador do Resenha Rentável.
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