O INSS vai quebrar? O que os números dizem sobre a aposentadoria
A Previdência gastou mais de R$ 1 trilhão em 2025 e fechou com rombo de R$ 317 bilhões. Veja por que isso não significa que o INSS vai fechar as portas, e o que de fato está em risco.

O INSS vai quebrar? Não do jeito que muita gente imagina. A Previdência Social fechou 2025 com um rombo de R$ 317,2 bilhões, mas a lei obriga a União a cobrir a diferença com dinheiro do Tesouro. Ou seja, o risco real não é o INSS parar de pagar, e sim o custo crescente para o resto do orçamento e regras mais duras no futuro.
A dúvida pesa principalmente para quem tem de 18 a 35 anos. Em pesquisa da Fenaprevi com o Datafolha feita em julho de 2026, 11% dos brasileiros disseram acreditar que nunca vão conseguir parar de trabalhar, segundo a CNseg. Além disso, 65% não sabem quanto vão receber do INSS. Por isso, vale entender o que os números oficiais mostram de verdade.
Como funciona o dinheiro do INSS?
O INSS paga as aposentadorias e pensões do Regime Geral de Previdência Social (RGPS), o sistema de quem trabalha no setor privado. Ele funciona pelo regime de repartição. Na prática, a contribuição de quem trabalha hoje paga o benefício de quem já se aposentou. Não existe uma conta individual guardando o seu dinheiro, como acontece numa previdência privada.
Esse modelo depende de um equilíbrio simples: muita gente contribuindo para poucos aposentados. Quando o número de aposentados cresce mais rápido que o de contribuintes, a conta deixa de fechar. É exatamente isso que acontece no Brasil. Segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado, o número de beneficiários do RGPS subiu 11,6% entre 2021 e 2025 e chegou a 35,2 milhões, como relatou o SBT News em maio de 2026.

De quanto é o rombo da Previdência hoje?
Em 2025, o governo central teve déficit de R$ 61,7 bilhões. Esse resultado juntou um superávit de R$ 255,5 bilhões do Tesouro e do Banco Central com um déficit de R$ 317,2 bilhões da Previdência, segundo dados do Tesouro Nacional publicados pelo Times Brasil em 29 de janeiro de 2026.
Os gastos com benefícios passaram de R$ 1 trilhão pela primeira vez. Para a IFI, a despesa do RGPS foi de R$ 1,027 trilhão em 2025, o equivalente a 8,1% do PIB e a 42,9% de todo o gasto primário federal. Em outras palavras, quase metade do que o governo gasta, sem contar os juros da dívida, vai para a Previdência. Além disso, a instituição projeta que esse gasto chegue a 9,1% do PIB em 2030.
O INSS vai quebrar como uma empresa quebra?
Não. Uma empresa quebra quando o dinheiro acaba e ninguém cobre a dívida. Com o INSS, a lei já define quem cobre. O artigo 16 da Lei 8.212, de 1991, diz que a União é responsável por cobrir eventuais insuficiências financeiras da Seguridade Social no pagamento dos benefícios. Por isso, o rombo de R$ 317 bilhões não deixou nenhum aposentado sem receber em 2025.
O problema está no outro lado da conta. Cada real que o Tesouro coloca na Previdência deixa de ir para saúde, educação ou investimento, ou vira mais dívida pública. Para ter uma ideia, o tamanho da dívida brasileira já é tema de outra matéria do blog, sobre a dívida pública em agosto de 2026. Assim, a pergunta certa não é se o INSS vai quebrar, mas quem vai pagar a diferença e como.

Por que o rombo do INSS tende a crescer?
O principal motivo é o envelhecimento. Segundo projeção do IBGE divulgada em agosto de 2024, a fatia de brasileiros com 60 anos ou mais deve passar de 15,6% em 2023 para 37,8% em 2070, como mostrou o Jornal de Brasília. Na mesma projeção, a população total para de crescer e começa a cair a partir de 2042, segundo O Povo.
O próprio governo registra esse efeito nas contas de longo prazo. No anexo da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026, o déficit do RGPS sai de 2,58% do PIB e chega a 11,59% do PIB em 2100, segundo o Portal Contábeis. Em resumo, a projeção oficial indica um rombo mais de quatro vezes maior em relação ao tamanho da economia.
A reforma de 2019 não resolveu o déficit do INSS?
Resolveu uma parte. A Emenda Constitucional 103, promulgada em 13 de novembro de 2019, criou idade mínima de 65 anos para homens e 62 para mulheres no setor privado e acabou com a aposentadoria só por tempo de contribuição, segundo o Migalhas. Na época, a economia estimada era de cerca de R$ 800 bilhões em dez anos.
Mesmo assim, a IFI avalia que a reforma desacelerou parte do crescimento das despesas, mas não foi suficiente para frear o aumento estrutural do gasto. Entre os motivos citados estão a alta no número de beneficiários e os reajustes do salário mínimo, que é o piso dos benefícios. Por isso, o tema de uma nova reforma continua no debate econômico.
O que dizem os dois lados sobre o déficit da Previdência?
De um lado, órgãos como a IFI e o próprio governo, nas projeções da LDO, tratam o déficit como estrutural. Para eles, o envelhecimento torna inevitável algum ajuste, seja em idade, em regras de cálculo ou em novas receitas. O argumento é que adiar a mudança deixa a conta maior para os mais jovens.
De outro lado, entidades como a Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Anfip) defendem há anos que a Previdência deve ser analisada dentro da Seguridade Social, junto com saúde e assistência, e que renúncias fiscais e dívidas não cobradas pesam no resultado, como mostrou a Gazeta do Povo. Nessa visão, a solução passa por cobrar mais de quem deve, e não por cortar benefícios.
O que fazer com a sua aposentadoria do INSS?
Para quem tem até 35 anos, o cenário mais provável não é ficar sem INSS, e sim se aposentar mais tarde ou com regras diferentes das atuais. Na mesma pesquisa da Fenaprevi, 59% disseram que gostariam de parar até os 60 anos, mas só 28% acreditam que vão conseguir. Além disso, 92% dos aposentados ouvidos têm o INSS como principal fonte de renda.
Na prática, o INSS continua sendo a base da renda na velhice da maioria dos brasileiros, mas dificilmente será a única. Por isso, guardar uma parte da renda desde cedo faz diferença, como explicamos em por que você trabalha a vida inteira e nunca fica rico. E, para quem já recebe, vale conferir o extrato com atenção depois do escândalo dos descontos indevidos, contado na matéria sobre a fraude do INSS.
O INSS não deve quebrar como uma empresa, porque a lei manda a União cobrir a diferença. O que está em jogo é o tamanho dessa conta, que cresce com o envelhecimento e pressiona o orçamento. É esse peso que vai definir as regras da aposentadoria de quem hoje está começando a trabalhar.

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