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Investigação

Como a fraude da Americanas escondeu um rombo de R$ 25 bilhões

Do anúncio que derrubou a ação em 77% num dia à operação da PF que bloqueou até R$ 54 bilhões: a linha do tempo do caso e o que ainda falta a Justiça decidir.

Redação 6 min de leitura
Foto: Eduardo P/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

A fraude da Americanas foi um esquema contábil que inflou os resultados da varejista em R$ 25,3 bilhões, segundo a própria empresa admitiu em junho de 2023. O truque era esconder dívida com bancos e registrar receitas de contratos que não existiam. Três anos depois, há executivos denunciados e acusados, mas ninguém foi condenado até outubro de 2026.

O caso voltou ao noticiário em 2026 por dois motivos. Primeiro, a Polícia Federal mirou acionistas de referência e executivos de bancos numa nova fase da investigação. Além disso, a empresa pediu à Justiça para encerrar a recuperação judicial. Veja o caso do começo ao fim.

O que foi a fraude da Americanas?

Tudo começou em 11 de janeiro de 2023. Naquela noite, a Americanas comunicou ao mercado “inconsistências em lançamentos contábeis” de cerca de R$ 20 bilhões. O anúncio veio junto com a renúncia do presidente, Sergio Rial, e do diretor financeiro, André Covre, que estavam no cargo havia apenas nove dias, segundo o InfoMoney.

No dia seguinte, a ação AMER3 desabou de R$ 12,00 para R$ 2,72, uma queda de 77% num único pregão, de acordo com o Poder360. Em 19 de janeiro, a empresa pediu recuperação judicial, com dívidas de R$ 43 bilhões e mais de 16 mil credores, também segundo o InfoMoney.

Em junho de 2023, a nova diretoria enfim falou em fraude. Segundo a Agência Brasil, o comunicado dizia que a antiga gestão havia fraudado o balanço para “inflar os resultados, pagar acionistas, gerar maior recolhimento de impostos e manter a possibilidade de obter linhas de financiamento”.

Loja da Americanas em Paratinga, na Bahia, no mês em que a fraude da Americanas veio a público
Loja da Americanas em Paratinga (BA) em janeiro de 2023, mês em que o rombo veio a público. Foto: Fronteira/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Como a Americanas escondeu o rombo?

O esquema tinha duas pernas. A primeira era o risco sacado. Nessa operação, o banco paga o fornecedor à vista e a varejista paga o banco depois, com juros. Na prática, é um empréstimo. Porém, a Americanas registrava esse valor como se fosse uma conta comum com fornecedores. Assim, cerca de R$ 18,4 bilhões de dívida bancária ficavam fora do lugar certo no balanço.

A segunda perna eram as VPCs, as verbas de propaganda cooperada. É o dinheiro que um fabricante paga à loja para divulgar seus produtos. De acordo com a empresa, contratos fictícios de VPC somavam R$ 21,7 bilhões em setembro de 2022. Ou seja, o balanço mostrava uma receita que não existia.

Com isso, a companhia parecia mais lucrativa e menos endividada do que era. Em julho de 2024, o comitê independente formado pelo conselho concluiu que as apurações “confirmam a existência de fraude contábil”, segundo fato relevante da Americanas.

Quem é investigado na fraude da Americanas?

Em 27 de junho de 2024, a PF e o Ministério Público Federal lançaram a primeira fase da Operação Disclosure. Houve pedidos de prisão preventiva contra o ex-presidente Miguel Gutierrez e a ex-diretora Anna Saicali, que estavam fora do país. Gutierrez foi detido em Madri e liberado com medidas cautelares, segundo o InfoMoney. Depois, a Justiça revogou as duas prisões.

Em março de 2025, o MPF denunciou 13 ex-executivos e ex-funcionários por crimes como associação criminosa, falsidade ideológica e manipulação de mercado, de acordo com a CNN Brasil. O processo corre em segredo de Justiça.

Já em janeiro de 2026, a área técnica da Comissão de Valores Mobiliários (CVM, a xerife do mercado de ações) acusou Gutierrez e mais 29 ex-executivos. Segundo o Jornal do Comércio, a CVM aponta que a fraude existia “pelo menos desde 2013”. A defesa de Gutierrez nega tudo. Em nota à Itatiaia, afirmou que “a CVM não traz qualquer prova da suposta fraude ou de sua autoria”.

Investigado não é culpado. Até outubro de 2026, nenhum dos acusados havia sido condenado, nem na Justiça nem pela CVM.

O que a PF fez na nova fase da operação?

Em 25 de junho de 2026, a PF voltou às ruas na segunda fase da Operação Disclosure. A Justiça Federal do Rio autorizou o bloqueio de bens de até R$ 54 bilhões, segundo a Bloomberg Línea. Atenção: esse valor é o teto do bloqueio, e não o tamanho do rombo admitido pela empresa.

Os alvos foram Beto Sicupira e Paulo Alberto Lemann, ex-conselheiro e filho de Jorge Paulo Lemann, além de executivos e ex-executivos de Itaú, Santander e Bradesco. Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles não foram alvos, de acordo com a Forbes Brasil. A trajetória do trio de bilionários está na biografia de Jorge Paulo Lemann.

Os acionistas de referência disseram ter sido “continuamente enganados e induzidos a erro pela antiga diretoria”. O Itaú afirmou ter “comprovado a lisura de sua conduta”, o Santander disse que colabora com as investigações e o Bradesco declarou estar à disposição das autoridades. Já a Americanas informou que não foi alvo dos mandados.

Como a Americanas tentou sair do buraco?

O plano de recuperação foi aprovado pelos credores em dezembro de 2023 e homologado pela Justiça do Rio em fevereiro de 2024. Nele, Lemann, Telles e Sicupira se comprometeram a colocar R$ 12 bilhões na empresa. Além disso, bancos credores converteram outros R$ 12 bilhões de dívida em ações, segundo o Bora Investir, da B3.

Desde então, a varejista encolheu e vendeu ativos. Em 2026, vendeu a Uni.Co, dona da Imaginarium e da Puket, e dez lojas da rede Hortifruti Natural da Terra. Em março, pediu o fim da recuperação judicial. Credores contestaram, e até setembro o juiz ainda não havia decidido, segundo a Poder360.

Loja da Americanas no BarraShopping, no Rio, uma das unidades da rede que sobreviveu à fraude da Americanas
Loja da Americanas no BarraShopping, no Rio de Janeiro. Foto: Eduardo P/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

O que aconteceu com quem tinha ações da Americanas?

Quem tinha ações sofreu duas vezes. Primeiro, com a queda de 77% em janeiro de 2023. Depois, com o aumento de capital, que emitiu bilhões de novas ações e diluiu a fatia de quem já era sócio. Em agosto de 2024, a empresa ainda fez um grupamento: cada 100 ações viraram uma, segundo o InfoMoney.

Na prática, uma ação que valia R$ 12,00 antes do anúncio equivaleria hoje a cem papéis antigos, ou R$ 1.200. Em 25 de junho de 2026, porém, a AMER3 fechou a R$ 4,24, de acordo com o BB Investalk. Ou seja, a perda passa de 99% para quem segurou o papel desde 2023.

O resultado mais recente também não ajudou. No segundo trimestre de 2026, a Americanas teve prejuízo de R$ 274 milhões, quase o triplo do mesmo período de 2025, segundo o Times Brasil.

Votação do relatório final da CPI das Americanas na Câmara dos Deputados, em 2023
Reunião final da CPI das Americanas na Câmara, em 2023, que votou o relatório sem indiciamentos. Foto: Renato Araújo/Câmara dos Deputados (CC BY 3.0)

A Câmara também investigou o caso. Em setembro de 2023, a CPI das Americanas aprovou por 18 votos a 8 um relatório sem pedir o indiciamento de ninguém, segundo a Suno. Por isso, a resposta final está com a Justiça Federal e com a CVM, que ainda não julgaram os acusados. Até lá, o caso segue como um dos maiores escândalos corporativos do país, ao lado do Banco Master.

Redação

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