Biografias

Como Abilio Diniz transformou a doceria do pai no Pão de Açúcar

Ele quase viu a empresa da família quebrar, salvou o grupo, perdeu o controle para os franceses e recomeçou aos 76 anos como sócio do Carrefour.

Redação 5 min de leitura
Foto: Reprodução/YouTube/Flow Podcast

Abilio Diniz foi o empresário que transformou uma doceria aberta pelo pai em São Paulo no Grupo Pão de Açúcar, uma das maiores redes de varejo do país. Ele salvou a empresa da falência em 1990, vendeu o controle para o grupo francês Casino e, depois, virou um dos maiores acionistas do Carrefour. Morreu em 18 de fevereiro de 2024, aos 87 anos.

A trajetória dele é uma aula sobre crescer, quase quebrar e recomeçar. Além disso, mostra como um negócio de família pode virar uma disputa de bilhões entre sócios. Segundo a Forbes, citada pelo Diário do Nordeste, a fortuna dele era de cerca de US$ 2 bilhões (R$ 9,9 bilhões) quando morreu.

Quem foi Abilio Diniz?

Abilio dos Santos Diniz nasceu em São Paulo em 28 de dezembro de 1936. Era o mais velho dos seis filhos de Valentim dos Santos Diniz, imigrante português que chegou ao Brasil em 1929, e de Floripes. Em 1948, Valentim abriu a Doceria Pão de Açúcar, na capital paulista, segundo a InfoMoney.

Ainda jovem, Abilio trabalhava como ajudante no balcão da doceria. Depois, formou-se em administração na Fundação Getulio Vargas (FGV) e fez cursos de marketing e economia nos Estados Unidos, de acordo com a Revista Oeste. Ele também competia no esporte: em 1971, foi vice-campeão brasileiro de automobilismo, segundo o portal Mercado & Consumo.

Como nasceu o Pão de Açúcar?

Em 1959, pai e filho abriram o primeiro supermercado Pão de Açúcar, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo. Naquela época, o autosserviço ainda era novidade no Brasil. Em 1963, veio a segunda loja, em Higienópolis, segundo o Brazil Journal.

A partir daí, o grupo comprou concorrentes sem parar. Nos anos 1970, adquiriu a Eletroradiobraz e se tornou a maior varejista da América Latina, segundo a InfoMoney. Na mesma década, lançou os primeiros hipermercados do país, com a marca Jumbo. Em 1981, as empresas da família foram reunidas na Companhia Brasileira de Distribuição (CBD), nome oficial do grupo até hoje.

Abilio Diniz e o pai, Valentim Diniz, na inauguração de uma unidade do Jumbo, em 1972
Inauguração de uma unidade do Jumbo em São Paulo, em 1972: Abilio Diniz (de terno quadriculado) e o pai, Valentim, atrás do governador Laudo Natel. Foto: Joel D. P. Barreto/Arquivo Público do Estado de São Paulo (domínio público)

Como Abilio Diniz salvou o Pão de Açúcar da falência?

O crescimento rápido, porém, cobrou o preço. No fim dos anos 1980, a empresa estava muito endividada e a família brigava pelo comando. Em 1990, Abilio assumiu a presidência com o grupo no vermelho: o prejuízo daquele ano foi de US$ 32 milhões, segundo a InfoMoney.

Abilio Diniz no programa Roda Viva, em 1987, três anos antes de assumir a presidência do Pão de Açúcar
Abilio Diniz entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 1987. Foto: Reprodução/YouTube/Roda Viva

Então veio um corte duro. De acordo com o Brazil Journal, o número de funcionários caiu de 47 mil para 17 mil, e o de lojas, de 626 para 262. Em 1993, Abilio virou acionista majoritário. Com a empresa mais enxuta, o Pão de Açúcar abriu o capital na bolsa brasileira e, depois, em Nova York, onde foi a primeira varejista do país a ter ações negociadas, segundo a InfoMoney.

A recuperação abriu espaço para uma nova fase de compras. Ao longo dos anos 2000, o grupo levou Sendas, Assaí e, em 2009, Ponto Frio e Casas Bahia, que deram origem à Via Varejo, segundo a Brasil Agro.

Por que Abilio Diniz perdeu o controle para o Casino?

Em 1999, Abilio fechou uma sociedade com o grupo francês Casino, que comprou 24,5% da empresa. Em 2005, os dois criaram uma holding meio a meio, a Vieri Participações, segundo o portal Mercado & Consumo. O acordo, no entanto, tinha uma cláusula decisiva: em 2012, o Casino passaria a ter o controle do grupo.

Seção de frutas de um supermercado Pão de Açúcar, rede que Abilio Diniz perdeu para o Casino
Seção de frutas de um supermercado Pão de Açúcar, em foto divulgada pelo grupo Casino. Foto: Groupe Casino/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Quando a data se aproximou, Abilio tentou uma fusão com o Carrefour, rival do Casino na França. O presidente do Casino, Jean-Charles Naouri, se sentiu traído, e a briga foi parar em tribunais e câmaras de arbitragem. Segundo o Brazil Journal, os dois lados gastaram cerca de US$ 1 bilhão com assessores. Mais tarde, o próprio Abilio chamou o contrato com o Casino de o maior erro da sua vida empresarial, segundo a Brasil Agro.

Por fim, em setembro de 2013, depois de 54 anos no grupo, ele deixou o conselho do Pão de Açúcar. O acordo final foi mediado por William Ury, professor de negociação da Universidade Harvard.

O que Abilio Diniz fez depois do Pão de Açúcar?

Mesmo aos 76 anos, ele não parou. Em 2013, assumiu a presidência do conselho da BRF, dona da Sadia e da Perdigão, onde ficou até 2018. Ao mesmo tempo, passou a comandar a Península Participações, empresa que administra os investimentos da família.

Pela Península, Abilio virou sócio justamente do Carrefour. Em 2014, comprou cerca de 10% do Carrefour Brasil e, depois, ações do grupo na França. Segundo o Brazil Journal, ele chegou a ser o terceiro maior acionista do Carrefour no mundo. Além disso, ensinou liderança na FGV e, em 2022, estreou como apresentador na CNN Brasil.

Qual foi a fortuna de Abilio Diniz?

Quando Abilio morreu, a Forbes estimava a fortuna dele em cerca de US$ 2 bilhões, o que o colocava na posição 1.526 entre os bilionários do mundo. Em 2023, segundo o Brazil Journal, a revista calculava cerca de R$ 13 bilhões. Nesse meio-tempo, as ações do Carrefour valiam perto de 15 euros quando ele morreu, bem abaixo dos 33 a 37 euros que ele pagou ao entrar, segundo a mesma publicação.

A história dele ajuda a entender o varejo brasileiro moderno, assim como a de Silvio Santos, que também começou atrás de um balcão. Do outro lado, a trajetória de Jorge Paulo Lemann mostra outro caminho para montar um império de consumo. No caso de Abilio, a lição foi menos sobre começar e mais sobre recomeçar: ele construiu, quase perdeu, salvou e, depois de perder o próprio grupo, montou uma nova fortuna como sócio do concorrente.

Redação

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