Economia

Medo de bolha da IA derruba bolsas e faz o dólar subir

A Meta vai criar ações sem direito a voto para bancar a inteligência artificial, e Wall Street reagiu mal. Veja o que aconteceu, por que o mercado teme uma bolha e o que isso tem a ver com o Brasil.

Redação 5 min de leitura
Foto: Jeff Sainlar/Meta, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O medo de uma bolha da IA voltou a derrubar as bolsas nesta quinta-feira (22). Investidores duvidam que os bilhões gastos pelas gigantes de tecnologia em inteligência artificial vão dar lucro, e a Meta, dona do Facebook e do Instagram, chegou a cair 6,7% em Nova York. No Brasil, o Ibovespa recuou e o dólar subiu.

A queda começou na Ásia, passou pela Europa e chegou a Wall Street. O gatilho foram os balanços do terceiro trimestre de Meta e Tesla, divulgados na noite de quarta-feira (21). Os números vieram fortes, mas não convenceram. Além disso, o petróleo do tipo Brent passou de US$ 112 por barril, o maior nível desde maio, depois de novos ataques dos houthis na Arábia Saudita. Ou seja, o investidor acordou com dois motivos para fugir do risco ao mesmo tempo.

Painel de cotações da bolsa em um dia de queda ligado ao medo de bolha da IA
Painel de cotações da bolsa (imagem ilustrativa). Foto: Pixabay/Pexels (licença Pexels)

O que aconteceu com as bolsas hoje?

Segundo a Reuters, às 9h41 de Nova York (10h41 em Brasília) a Nasdaq, bolsa onde estão as grandes empresas de tecnologia, caía 1,46%, para 26.312 pontos. No mesmo horário, o S&P 500 recuava 0,81% e o Dow Jones, 0,26%. O setor de tecnologia liderava as perdas, com baixa de 1,6%.

A agência lista uma série de quedas entre as empresas ligadas à IA. A Meta despencava 6,7%. Enquanto isso, a Intel perdia 5,3%, e Nvidia e Amazon caíam cerca de 2% cada uma. AMD, Qualcomm, Broadcom e Micron, fabricantes de chips, recuavam entre 1,9% e 5,2%. Antes, na Ásia, o índice Kospi, da Coreia do Sul, fechou em queda de 3,52%, e o Nikkei, do Japão, caiu 2,7%, segundo o Portal do Agronegócio.

Por que a Meta caiu tanto?

O resultado da Meta foi bom no papel. Segundo o balanço da empresa, resumido pelo StockTitan, a receita do trimestre subiu 26%, para US$ 64,6 bilhões. Porém, o investimento em servidores e centros de dados quase dobrou: foram US$ 34,9 bilhões no trimestre, contra US$ 19,4 bilhões um ano antes. Com isso, o fluxo de caixa livre, o dinheiro que sobra depois de pagar as contas e os investimentos, ficou negativo em US$ 2,1 bilhões.

O que mais incomodou foi o plano para pagar essa conta. A Meta anunciou uma nova classe de ações, a classe C, sem direito a voto. Cada acionista vai receber uma ação nova para cada ação que já tem, a partir de 19 de janeiro de 2027. Segundo a empresa, os papéis poderão ser usados depois para levantar dinheiro, pagar funcionários ou comprar outras empresas. Na prática, o mercado leu o anúncio como sinal de que a IA vai exigir ainda mais capital. Além disso, a Meta passou a prever entre US$ 135 bilhões e US$ 145 bilhões de investimentos em 2026.

“Nossos investimentos estão dando resultado, o negócio principal está forte”

Mark Zuckerberg, presidente da Meta, no balanço de 21 de outubro de 2026

O que é a bolha da IA?

Bolha é quando o preço de um ativo sobe muito acima do que ele deve render no futuro, puxado pela empolgação. A bolha da IA é o temor de que as ações de tecnologia já estejam caras demais para o lucro que a inteligência artificial vai gerar. Para o gestor Brendon Dashiell, da Bogart Wealth, ouvido pela Reuters, o problema é justamente esse: “o que torna esses nomes de IA mais vulneráveis é que eles já têm avaliações muito altas”.

A dúvida vale para os dois lados, segundo analistas ouvidos pela Bloomberg e citados pelo site Invezz. Quando uma empresa gasta mais, o investidor teme que o retorno não venha. Quando gasta menos, teme que ela perca a corrida. A Tesla, por exemplo, cortou a previsão de investimentos de 2026 de mais de US$ 25 bilhões para cerca de US$ 20 bilhões e também caiu.

Placa da Nvidia, empresa no centro da corrida pelos chips da bolha da IA
Placa da Nvidia, maior fabricante de chips para inteligência artificial, na sede da empresa na Califórnia. Foto: Will Buckner (CC BY 2.0)

A bolha da IA pode estourar como a da internet?

Ninguém sabe, e a comparação mais citada é com a bolha das empresas pontocom. Segundo a Bloomberg Línea, o índice Nasdaq 100 subiu 718% entre agosto de 1995 e março de 2000, quando atingiu o recorde. Depois, até outubro de 2002, mais de 80% do valor da Nasdaq desapareceu, e o índice levou mais de 15 anos para voltar ao pico.

Há diferenças importantes, porém. Muitas pontocom de 2000 não tinham receita, enquanto Meta, Nvidia e Amazon dão lucro bilionário. Mesmo assim, uma queda de um dia não confirma bolha nenhuma. Ela mostra apenas que o investidor está mais nervoso e menos disposto a pagar qualquer preço por uma promessa. Quem investe em fundos de tecnologia deve olhar o prazo e o risco, e não o noticiário de um dia, como explica o guia do blog sobre as ações da Netflix.

O que isso muda para o Brasil e para o seu bolso?

Quando o investidor estrangeiro foge do risco, costuma tirar dinheiro de países emergentes, como o Brasil. Segundo a CNN Brasil, às 10h56 o Ibovespa caía 0,75%, para 204.874 pontos, e o dólar subia 0,31%, a R$ 5,04. Os investidores também acompanham as pesquisas para o segundo turno da eleição presidencial, marcado para domingo (25), e o resultado do Bradesco, previsto para depois do fechamento.

Operadores na bolsa de São Paulo, que também sentiu o medo de bolha da IA
Operadores na bolsa de valores de São Paulo (imagem ilustrativa). Foto: Rafael Matsunaga/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O petróleo caro pesa do mesmo jeito. Ele encarece combustível, frete e insumos importados, como o blog explicou ao falar dos ataques a petroleiros na Arábia Saudita. Por isso, um dia de pânico em Nova York pode chegar ao posto de gasolina e ao preço do eletrônico importado. Por enquanto, porém, os movimentos no Brasil são pequenos perto da queda das ações de tecnologia lá fora.

O recado do mercado nesta quinta-feira é simples: crescer já não basta para as gigantes da IA. Agora, elas precisam mostrar quando todo esse investimento vai virar lucro. Até lá, cada balanço pode reacender o medo de bolha.

Redação

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