B3 aciona circuit breaker e Ibovespa cai até 17% após eleição
Foi a primeira parada do pregão desde a pandemia. Entenda o que é o circuit breaker, por que a B3 puxou o freio e o que acontece com o dinheiro de quem investe.

O circuit breaker é o freio de emergência da bolsa: quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento do dia anterior, a B3 suspende todas as negociações por 30 minutos. Nesta segunda-feira (26), o mecanismo foi acionado pela primeira vez desde março de 2020, no primeiro pregão depois do segundo turno da eleição presidencial.
Segundo o Poder360, a parada veio um dia depois da reeleição de Lula (PT), que teve 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL). De acordo com a Reuters, o resultado contrariou as apostas de parte do mercado e reacendeu a preocupação com as contas públicas. Por isso, investidores venderam ações e compraram dólar logo cedo, e o pregão virou um dos mais tensos dos últimos anos.
O que é circuit breaker e como ele funciona?
O nome vem do disjuntor elétrico, que desliga a energia quando a corrente passa do limite. Na bolsa, a lógica é parecida. Segundo a própria B3, o mecanismo interrompe temporariamente os negócios para que os investidores parem, avaliem as informações e evitem decisões tomadas só no susto.
A regra tem três estágios, sempre medidos pela queda do Ibovespa sobre o fechamento anterior. Com 10% de queda, tudo para por 30 minutos. Depois da reabertura, se a queda chegar a 15%, a pausa é de 1 hora. Por fim, se o tombo atingir 20%, a B3 pode suspender o pregão pelo tempo que definir e avisa o mercado pelos canais oficiais. Além disso, a retomada acontece sempre por leilão, e o mecanismo não é acionado nos 30 minutos finais da sessão.
Na prática, o circuit breaker não impede que os preços caiam. Ele apenas define quando e por quanto tempo o mercado para. Ou seja, funciona como um intervalo forçado, e não como uma rede de proteção para o investidor.
Por que o circuit breaker foi acionado hoje?
Na sexta-feira (23), o Ibovespa fechou em 205.082,56 pontos, com alta de 0,47%, e o dólar terminou o dia em R$ 4,99. Já no pré-mercado desta segunda, o índice futuro abriu em queda de quase 15%, segundo a cobertura ao vivo do InfoMoney. Antes mesmo da abertura, a B3 ampliou de forma excepcional os limites de oscilação dos contratos futuros de índice e de dólar.
Pouco antes das 10h, o circuit breaker foi acionado e suspendeu por 30 minutos as negociações de ações, BDRs, ETFs, opções e parte da renda fixa privada. Mesmo assim, a pressão continuou depois da volta. Às 11h26, o Ibovespa chegou a cair 17,26%, aos 169.681,50 pontos, o pior momento da manhã. Em seguida, o índice reduziu parte das perdas e, às 12h42, recuava 14,44%, aos 175.466,12 pontos.
Quais ações e investimentos mais caíram?
As maiores quedas vieram de empresas que dependem do consumo interno e do crédito barato. Segundo o InfoMoney, varejistas como Magazine Luiza e C&A chegaram a perder cerca de metade do valor, e construtoras como Cyrela e MRV caíram mais de 40%. Entre os bancos, o Banco do Brasil chegou a recuar 31%. Já as ações da Petrobras caíam entre 10% e 12,5% perto das 11h45.
Enquanto isso, exportadoras subiram, porque ganham em dólar. Vale, Suzano e Embraer operavam em alta de quase 6% a 8% perto das 11h30. Além disso, o dólar comercial chegou a R$ 5,605 no começo do dia, alta de 12,25%, e às 12h42 estava em R$ 5,415, com alta de 8,47%.
Os juros futuros também dispararam. A taxa do contrato DI para janeiro de 2031 foi a 14,46% ao ano, contra 12,64% na sexta. Com isso, o Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação previstos para esta semana e informou que vai continuar monitorando o mercado.
O que dizem os analistas sobre a queda da bolsa?
As leituras divergem. Para a Monte Bravo, citada pelo Money Times, “a reeleição de Lula exige uma reavaliação do prêmio de risco dos ativos brasileiros”. O JP Morgan, por sua vez, rebaixou a recomendação para o real e para os títulos públicos brasileiros, e a Capital Economics afirmou que o resultado frustra as esperanças de reformas.
Por outro lado, há quem veja exagero. Para Fábio Murad, da Wiser Asset, “a continuidade do governo não determina, sozinha, uma baixa permanente”. A Gavekal Research avaliou que a queda pode abrir oportunidades, por causa dos juros altos e da força das commodities. Assim, segundo Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, a questão central passa a ser a capacidade do governo de dar sinais sobre as contas públicas.
Quantas vezes o circuit breaker já foi acionado no Brasil?
O mecanismo existe desde 1997. Segundo a B3, ele parou o pregão na crise asiática de 1997, na desvalorização do real em 1999, seis vezes em menos de um mês durante a crise de 2008 e outras seis vezes em março de 2020, no início da pandemia. Ao todo, foram 23 acionamentos antes desta segunda, de acordo com levantamento da Suno com base em dados da B3.
Portanto, o episódio desta segunda é o primeiro em mais de seis anos. Ainda assim, quedas tão fortes em um só dia costumam vir acompanhadas de muita volatilidade nas sessões seguintes, para cima e para baixo.
O circuit breaker afeta quem não investe na bolsa?
Indiretamente, sim. O dólar mais caro encarece produtos importados, viagens e combustíveis, e pode pressionar a inflação nos próximos meses. Da mesma forma, juros futuros mais altos tendem a encarecer financiamentos de longo prazo, como o imobiliário. Para entender essa ligação, vale ler como funciona a taxa Selic e por que o dólar tinha caído nas semanas anteriores.
Quem tem títulos prefixados ou atrelados à inflação no Tesouro Direto também pode ver o saldo cair no extrato. Isso acontece por causa da marcação a mercado: quando os juros sobem, o preço de venda antecipada desses títulos cai. Contudo, quem leva o título até o vencimento recebe a taxa contratada na compra.
O circuit breaker desta segunda mostra quanto o mercado estava concentrado em um único resultado eleitoral. Nos próximos dias, a atenção deve se voltar para a escolha da equipe econômica e para o calendário até a posse do presidente, em 5 de janeiro de 2027.

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