Como Dubai ficou rica sem depender do petróleo
O emirado descobriu petróleo em 1966, mas hoje ele vale menos de 1% da economia. Porto, avião, imposto baixo e turismo explicam a virada, e a guerra de 2026 mostrou o tamanho do risco.

Dubai ficou rica com comércio, porto, aviação, imposto baixo e turismo, e não com petróleo. O emirado até encontrou óleo em 1966, mas usou o dinheiro para construir uma economia que não dependesse dele. Hoje, o petróleo representa menos de 1% do PIB de Dubai, segundo o Fórum Econômico Mundial. Já houve época em que passava da metade.
É uma história que costuma ser contada ao contrário. Muita gente imagina Dubai como um poço de petróleo cercado de arranha-céus, quando o vizinho rico em óleo é Abu Dhabi, a capital dos Emirados Árabes Unidos. Entender a virada de Dubai ajuda a responder uma pergunta que vale para qualquer país: o que fazer quando a riqueza que caiu do chão começa a acabar? Além disso, 2026 trouxe um teste duro para esse modelo, com a guerra no Irã do outro lado do Golfo.
Como Dubai era antes do petróleo?
Dubai nasceu como vila de pescadores e mergulhadores de pérolas na beira de um canal de água salgada, o Dubai Creek. Segundo o histórico publicado pela Emirates, a família Al Maktoum, que governa o emirado até hoje, se instalou ali em 1833. Na década de 1870, o comércio de pérolas já fazia de Dubai o principal porto daquela costa do Golfo.

Desde cedo, portanto, a vocação foi o comércio. Barcos de madeira levavam e traziam mercadorias entre a Índia, o Irã e a África. Depois, em 1966, veio a descoberta de petróleo no campo de Fateh, no mar. Em 1971, Dubai se uniu a outros emirados para formar os Emirados Árabes Unidos.
Por que Dubai não depende do petróleo?
Porque o petróleo de Dubai sempre foi pouco perto do de Abu Dhabi, e o governo sabia disso. Por isso, o emirado começou a diversificar a economia ainda nos anos 1970, segundo o Fórum Econômico Mundial. Em vez de guardar o dinheiro, investiu em infraestrutura para atrair empresas e gente de fora.
As datas mostram a estratégia. O porto de Jebel Ali abriu em 1979, e a zona franca de Jebel Ali, área com regras e impostos especiais para empresas estrangeiras, foi inaugurada em 1985. No mesmo ano, a companhia aérea Emirates fez seu primeiro voo. Na prática, Dubai virou um ponto de passagem: a mercadoria chega pelo porto, é guardada na zona franca e segue para o resto do Oriente Médio, da Ásia e da África.
O porto continua no centro do negócio. Segundo a Gulf Business, Jebel Ali movimentou 15,5 milhões de contêineres padrão em 2024, um recorde. Enquanto isso, o comércio atacadista e varejista ainda responde por 20,5% do PIB do emirado, segundo o jornal The National.
Qual o papel dos aviões e do turismo?
O mesmo raciocínio do porto vale para o céu. Dubai fica no meio do caminho entre Europa, Ásia e África, e a Emirates transformou essa posição em negócio. Segundo a Gulf News, com dados do Conselho Internacional de Aeroportos (ACI), o Aeroporto Internacional de Dubai recebeu 95,2 milhões de passageiros em 2025. É o mais movimentado do mundo em voos internacionais.

Quem faz escala, muitas vezes, decide ficar alguns dias. Para isso, a cidade apostou em obras que viram notícia no mundo todo, como o hotel Burj Al Arab, aberto em 1999, e o Burj Khalifa, de 830 metros, inaugurado em 2010. O resultado aparece nos números do governo. Segundo a Assessoria de Imprensa do Governo de Dubai, o emirado recebeu 19,59 milhões de visitantes internacionais em 2025, o terceiro recorde seguido. Já a ocupação média dos hotéis ficou em 80,7%.
Quanto se paga de imposto em Dubai?
O imposto baixo é outra peça do modelo. Nos Emirados, a pessoa física não paga imposto sobre salário, aluguel ou investimentos, segundo o Ministério das Finanças citado pela Gulf News. As empresas, por sua vez, só passaram a pagar imposto sobre o lucro a partir de junho de 2023, com alíquota de 9% sobre o que passar de 375 mil dirhams (cerca de US$ 102 mil).
Essa combinação atrai profissionais estrangeiros, que formam a maior parte da população. Segundo a Gulf News, com dados do órgão de estatística de Dubai, o emirado tinha 4,8 milhões de moradores no fim de setembro de 2026. Desde janeiro, foram quase 227 mil pessoas a mais. O lado caro da história é o custo de vida: Dubai aparece entre as cidades mais caras do mundo.

Dubai já quebrou alguma vez?
Quase. Em novembro de 2009, depois da crise financeira mundial, o conglomerado estatal Dubai World pediu mais prazo para pagar parte de uma dívida de cerca de US$ 59 bilhões. O mercado entrou em pânico, porque o crescimento da cidade dependia de crédito e de imóveis. Em dezembro daquele ano, Abu Dhabi emprestou US$ 10 bilhões a Dubai, e a dívida foi renegociada nos meses seguintes. Ou seja, o vizinho do petróleo socorreu o vizinho do comércio.
Agora, o teste é outro. Segundo o The National, o PIB de Dubai caiu 2,3% no primeiro semestre de 2026, descontada a inflação, para 473 bilhões de dirhams. O jornal atribui a queda à guerra no Irã, iniciada em 28 de fevereiro, que atrapalhou viagens e comércio na região, como mostrou o blog ao explicar a crise no Estreito de Ormuz. O comércio recuou 6%, e transporte e armazenagem, 7,4%. Mesmo assim, o setor financeiro cresceu 8,8% e já responde por 14% da economia.
O que Dubai planeja para o futuro?
O plano oficial se chama Agenda Econômica D33. Lançado em janeiro de 2023 pelo governante, Mohammed bin Rashid Al Maktoum, ele prevê dobrar o tamanho da economia de Dubai em dez anos e colocar a cidade entre as três principais do mundo para negócios, segundo a Assessoria de Imprensa do Governo de Dubai. A meta é ambiciosa, principalmente com a guerra tão perto.
A lição de Dubai, no fim, não é sobre petróleo. É sobre usar uma riqueza passageira para construir outra que dure, como fizeram países sem recursos naturais como a Coreia do Sul. O preço desse modelo também ficou claro em 2026: uma cidade que vive de gente e de mercadoria passando sente na hora quando a região entra em guerra.

Roteirista e produtor. Chamado pela imprensa de “prodígio do cinema”. Cofundador do Resenha Rentável.
Ver biografia e artigos →


