Geopolítica

Como a Coreia do Sul ficou rica em 60 anos depois da guerra

Em 1960, o sul-coreano médio era mais pobre que um ganense. Hoje, ganha mais de três vezes o que ganha um brasileiro. Veja o que explica a virada.

Pedro Paracampos 6 min de leitura
Foto: Bryan Dorrough/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A Coreia do Sul ficou rica em 60 anos com uma receita que juntou exportação acima de tudo, indústria pesada puxada pelo governo e uma obsessão nacional por educação. Em 1960, segundo o Banco Mundial, cada sul-coreano produzia em média US$ 159 por ano, menos que um brasileiro (US$ 235) e até menos que um ganense (US$ 175). Em 2025, eram US$ 36.227.

A virada ficou conhecida como “milagre do rio Han”, o rio que corta Seul. A expressão se inspira no “milagre do Reno”, nome dado à reconstrução da Alemanha Ocidental depois da Segunda Guerra. Entender como a Coreia do Sul ficou rica interessa ao Brasil por um motivo simples: os dois países começaram a década de 1960 em níveis parecidos e seguiram caminhos muito diferentes. Hoje, a renda média sul-coreana é mais de três vezes a brasileira.

Tabela compara como a Coreia do Sul ficou rica: renda por pessoa de Coreia do Sul, Brasil e Gana em 1960 e 2025

Quão pobre era a Coreia do Sul depois da guerra?

Muito pobre. A Guerra da Coreia (1950 a 1953) deixou cerca de 500 mil sul-coreanos mortos e 5 milhões de desabrigados, segundo o Korea Times. Além disso, 43% das instalações industriais e metade das minas foram destruídas ou danificadas. O país, que já era agrícola, ficou sem fábricas e sem recursos naturais relevantes.

Refugiados durante a Guerra da Coreia, antes de a Coreia do Sul ficar rica
Refugiados caminham na neve durante a Guerra da Coreia, em 1951. Foto: Cpl. Walter Calmus/Exército dos EUA (domínio público)

Por isso, a sobrevivência dependeu de ajuda de fora. Nos três anos seguintes à guerra, os Estados Unidos mandaram US$ 1,6 bilhão. Segundo a K-Developedia, base de dados do instituto de pesquisa KDI, a ajuda externa equivalia a cerca de 74% das receitas do governo entre 1953 e 1961. Enquanto isso, as exportações eram minúsculas: só US$ 28 milhões em 1952.

O que mudou a partir de 1961?

Em 16 de maio de 1961, o general Park Chung-hee tomou o poder num golpe militar. Ele governou até ser assassinado, em outubro de 1979. Segundo a Britannica, os 18 anos de Park trouxeram “enorme expansão econômica, ao custo das liberdades civis e da liberdade política”. Em 1972, ele dissolveu o Parlamento e impôs uma Constituição que permitia reeleição sem limite.

Park Chung-hee em 1962, no início da fase em que a Coreia do Sul ficou rica
Park Chung-hee em 1962, um ano depois do golpe que o levou ao poder. Foto: Escritório de Informação Pública da Coreia do Sul/Wikimedia Commons (domínio público)

Na economia, o governo passou a planejar tudo em ciclos de cinco anos. O primeiro plano quinquenal foi de 1962 a 1966, segundo estudo da Biblioteca do Congresso dos EUA. A estratégia era clara: em vez de proteger o mercado interno, o país deveria vender ao mundo. Empresas que exportavam ganhavam crédito barato e incentivos. Assim, o país chegou aos primeiros US$ 100 milhões em exportações em 1964, e o dia 30 de novembro virou o “Dia da Exportação”.

Qual foi o papel da Samsung, da Hyundai e da indústria pesada?

As empresas que mais receberam incentivos cresceram até virar os chaebols, grandes conglomerados familiares como Samsung, Hyundai, LG e SK. Em janeiro de 1973, Park lançou o programa de indústria pesada e química, com seis setores prioritários: aço, metais não ferrosos, máquinas, navios, eletrônicos e química. Na prática, o Estado escolhia os setores e emprestava dinheiro a quem topasse entrar neles.

Os símbolos dessa fase saíram do papel rápido. A siderúrgica estatal POSCO foi fundada em 1968, com 39 funcionários, e acendeu seu primeiro alto-forno em junho de 1973. Já a Hyundai começou a construir seu estaleiro em Ulsan em março de 1972 e, dois anos depois, já entregava superpetroleiros. Antes disso, em julho de 1970, o país inaugurou a rodovia de 426 quilômetros entre Seul e Busan, segundo o Korea Times.

Trecho da rodovia Seul-Busan aberto em 1968, obra da fase em que a Coreia do Sul ficou rica
Abertura de um trecho da rodovia Seul-Busan, em 1968. Foto: Governo da Província de Gyeonggi/Wikimedia Commons (domínio público)

Por que a educação pesou tanto?

Porque fábrica moderna precisa de gente treinada, e o país formou essa mão de obra em poucas décadas. Hoje, segundo o relatório Education at a Glance 2026 da OCDE, citado pelo Korea Herald, 71,1% dos sul-coreanos de 25 a 34 anos têm ensino superior, a maior taxa entre os países da organização. A média da OCDE é de 47,5%.

O resultado aparece também nas provas internacionais. No Pisa de 2022, os alunos sul-coreanos fizeram 527 pontos em matemática, contra média de 472 na OCDE. Esse estoque de engenheiros e técnicos explica por que o país conseguiu trocar navios e aço por chips e celulares nas décadas seguintes.

Como a Coreia do Sul saiu da crise de 1997?

O modelo quase quebrou em 1997. Empresas muito endividadas e bancos frágeis levaram o país a pedir socorro ao FMI. Em dezembro daquele ano, o Fundo anunciou um empréstimo de cerca de US$ 21 bilhões, dentro de um pacote internacional de aproximadamente US$ 55 bilhões. Em troca, o país aceitou cortar gastos e reestruturar bancos e empresas.

A reação da população virou símbolo. Entre janeiro e abril de 1998, cerca de 3,5 milhões de pessoas doaram 227 toneladas de ouro para ajudar o país a pagar dívidas em dólar, segundo o Korea Herald. Com a economia de volta ao crescimento, a Coreia do Sul quitou antecipadamente o empréstimo do FMI em agosto de 2001.

Quanto vale a economia sul-coreana hoje?

Em 2025, o PIB do país chegou a US$ 1,87 trilhão, segundo o Banco Mundial. No mesmo ano, as exportações bateram recorde de US$ 709,7 bilhões, e só os semicondutores renderam US$ 173,4 bilhões, de acordo com o Ministério do Comércio sul-coreano. Além disso, o país investe 5,13% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, o segundo maior percentual do mundo, atrás de Israel.

Gangnam, em Seul, retrato de como a Coreia do Sul ficou rica
Gangnam, em Seul, um dos bairros mais ricos do país. Foto: Kallerna/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O sucesso também deixou contas a pagar. A taxa de fecundidade foi de 0,80 filho por mulher em 2025, uma das mais baixas do planeta, o que ameaça a mão de obra do futuro. Além disso, a dívida das famílias passa de 89% do PIB, e os sul-coreanos trabalham em média 1.833 horas por ano, acima da média da OCDE. A riqueza cultural que veio depois, do K-pop aos doramas, é contada em onda coreana.

A história mostra que não há fórmula única para enriquecer. A Suíça chegou lá com séculos de neutralidade e bancos; a Argentina fez o caminho inverso. A Coreia do Sul apostou em exportar, estudar e investir em tecnologia, e conseguiu em duas gerações o que muitos países não conseguiram em um século.

Pedro Paracampos

Roteirista e produtor. Chamado pela imprensa de “prodígio do cinema”. Cofundador do Resenha Rentável.

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