Por que a disputa entre China e Estados Unidos mexe com o Brasil
Xi Jinping e Donald Trump fecharam uma trégua comercial em Washington, mas Taiwan e os chips continuam no centro da briga. E a soja brasileira está no meio do caminho.

A disputa entre China e Estados Unidos entrou numa fase de trégua, mas não acabou. Na visita de Xi Jinping a Washington, de 23 a 25 de setembro de 2026, os dois governos aceitaram cortar tarifas sobre US$ 30 bilhões em produtos de cada lado. Mesmo assim, Taiwan e os chips de inteligência artificial seguem como os pontos mais sensíveis da relação.
Para o Brasil, essa briga não é distante. A China é, de longe, o maior comprador dos produtos brasileiros, e os Estados Unidos vêm logo atrás. Por isso, cada acordo entre as duas maiores economias do mundo mexe com a soja, o minério e o petróleo que o país vende. Além disso, a disputa define o preço de eletrônicos, carros e tecnologia que chegam ao consumidor brasileiro.
O que China e Estados Unidos acertaram na cúpula de setembro?
Segundo a CNN Brasil, foi a primeira visita de Xi a Washington desde 2015, com cerimônia militar, reunião no Salão Oval e jantar de Estado. De acordo com a Forbes Brasil, que publicou o resumo da agência Reuters, o principal resultado foi a redução de tarifas sobre US$ 30 bilhões em bens considerados não sensíveis, nos dois sentidos.
Do lado americano, a lista inclui produtos agrícolas, madeira e cosméticos. Do lado chinês, entram pequenos eletrodomésticos, brinquedos e itens de decoração. Os dois países também decidiram criar um conselho de comércio e abrir um diálogo sobre os riscos da inteligência artificial, com nova rodada marcada para novembro.

Antes da cúpula, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, já tinha anunciado a prorrogação da trégua comercial. O prazo, que acabava em 10 de novembro, foi estendido até 10 de janeiro. Essa trégua nasceu num encontro entre Trump e Xi em Busan, na Coreia do Sul, em outubro de 2025.
O que é a trégua comercial entre os dois países?
Em 2025, a guerra de tarifas chegou ao auge, com taxas cada vez maiores dos dois lados. Em 30 de outubro daquele ano, porém, os dois presidentes fecharam um acordo de um ano. Segundo a Bloomberg Línea, os Estados Unidos cortaram pela metade a tarifa ligada ao fentanil, de 20% para 10%, e suspenderam outras sobretaxas.
Em troca, a China adiou por 12 meses a ampliação do controle sobre a exportação de terras raras, grupo de minerais usados em ímãs, celulares, carros elétricos e armas. Pequim também prometeu voltar a comprar soja americana. Na prática, a trégua congelou a escalada, mas não desfez a desconfiança entre os dois lados.
Por que Taiwan é o ponto mais delicado?
A China considera Taiwan parte do seu território e não descarta o uso da força para reunificar a ilha. Taiwan, por sua vez, tem governo próprio desde 1949. Os Estados Unidos reconhecem oficialmente apenas o governo de Pequim, mas são o principal fornecedor de armas da ilha.
Em maio de 2026, depois de visitar Pequim, Trump comentou o assunto numa entrevista à Fox News, citada pela agência AFP e publicada pela CartaCapital. “Não queremos que alguém pense: vamos proclamar a independência”, disse. Na mesma ocasião, ele afirmou que ainda não tinha decidido sobre uma nova venda de armas à ilha. Já o governo de Taiwan agradeceu o apoio americano à paz no estreito.
Na véspera da cúpula de setembro, a CNN Brasil informou que Taiwan estava entre os temas que Pequim levaria “com veemência” à mesa. Assim, a ilha continua sendo o assunto que pode transformar uma disputa comercial numa crise militar.
Qual o papel dos chips na disputa entre China e Estados Unidos?
Taiwan é também o centro mundial da fabricação de chips avançados, graças à TSMC, maior fabricante sob encomenda do mundo. Em janeiro de 2026, segundo a Al Jazeera, Washington e Taipé fecharam um acordo que reduziu de 20% para 15% a tarifa americana sobre produtos da ilha. Em troca, empresas taiwanesas prometeram investir pelo menos US$ 250 bilhões nos Estados Unidos.

Enquanto isso, os Estados Unidos controlam quais chips podem ser vendidos à China. Em dezembro de 2025, Trump autorizou a Nvidia a exportar o chip H200 para clientes chineses aprovados, com 25% do valor indo para o governo americano, segundo a Bloomberg Línea. No entanto, os chips mais avançados da empresa, das linhas Blackwell e Rubin, ficaram fora do acordo. A Nvidia, fundada por Jensen Huang, virou assim uma peça da diplomacia entre os dois países.
Como a disputa afeta a soja e as exportações do Brasil?
A China compra quase um terço de tudo o que o Brasil exporta. Em 2025, segundo dados do governo compilados pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) e publicados pelo Poder360, as vendas para o país asiático somaram US$ 100 bilhões, ou 28,7% do total. Para os Estados Unidos, a fatia foi de 10,8%.
A soja é o principal produto dessa relação. Em 2025, o Brasil vendeu à China um recorde de 85,4 milhões de toneladas, no valor de US$ 34,5 bilhões. Já no primeiro semestre de 2026, as exportações para a China bateram recorde, com US$ 58,3 bilhões, e o país asiático levou 69,5% da soja exportada pelo Brasil, segundo o CEBC, citado pela Exame.

O risco está na trégua. Pelo compromisso anunciado pela Casa Branca, a China deve comprar cerca de 25 milhões de toneladas de soja americana por ano até 2028, segundo reportagem da CNN Agro reproduzida pelo Brasilagro. Ou seja, parte das compras chinesas pode trocar o Brasil pelos Estados Unidos. Por outro lado, analistas ouvidos pela reportagem lembram que a soja brasileira segue mais barata e que, em junho de 2026, quase 90% da soja importada pela China veio do Brasil.
O que esperar das próximas rodadas?
Trump e Xi devem se encontrar de novo em novembro, na reunião da Apec em Shenzhen, na China, e em dezembro, na cúpula do G20 em Miami. Antes disso, o diálogo sobre inteligência artificial tem nova rodada marcada. Nesses encontros, a trégua de tarifas, a soja e as terras raras devem voltar à mesa.
Para o Brasil, a relação entre os dois gigantes tem dois lados. Em 2025, ano do auge da guerra de tarifas, a China comprou um volume recorde de soja brasileira, 17,8% maior que no ano anterior, segundo o CEBC. Agora, com a trégua, os produtores americanos tentam recuperar espaço. Por isso, vale acompanhar também o tarifaço de Trump contra o Brasil e o papel do BRICS nessa disputa.
Em resumo, China e Estados Unidos trocaram a escalada de tarifas por uma trégua com prazo, mas seguem rivais em Taiwan e nos chips. E, a cada acordo fechado entre os dois, o agronegócio brasileiro precisa recalcular quanto vai vender para seu maior cliente.

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