Guerra Rússia e Ucrânia vai acabar? O que está na mesa agora
Os EUA querem pôr russos e ucranianos na mesma sala até o fim de outubro. Mas Moscou exige todo o Donbass, Kiev recusa, e o inverno se aproxima com ataques à energia.

A guerra Rússia e Ucrânia ainda não tem data para acabar, mas entrou numa nova rodada de diplomacia. Os Estados Unidos querem reunir russos e ucranianos numa conversa técnica até o fim de outubro de 2026. Porém, os dois lados continuam longe num ponto central: Moscou exige toda a região do Donbass, e Kiev se recusa a entregá-la.
O assunto voltou ao centro da agenda nesta semana. Em Miami, numa reunião marcada para sexta (9) e sábado (10), enviados de Donald Trump receberam a delegação ucraniana e representantes europeus. Ao mesmo tempo, a Rússia ampliou os ataques à rede de energia da Ucrânia, e o inverno se aproxima. Por isso, os próximos dias dizem muito sobre o rumo de um conflito que já passa de quatro anos e meio, desde a invasão em larga escala de fevereiro de 2022.
Como está a guerra Rússia e Ucrânia em outubro de 2026?
A Rússia ocupa cerca de um quinto do território ucraniano, segundo a agência AFP, em texto publicado pelo O Tempo. Além disso, os bombardeios aumentaram nas últimas semanas. Um ataque russo contra dois ônibus em Kramatorsk deixou 30 mortos, de acordo com a mesma reportagem.
Moscou diz que mira o setor de energia da Ucrânia, enquanto Kiev atinge refinarias russas. Segundo a Al Jazeera, ataques parecidos no inverno passado deixaram cidades sem luz e sem aquecimento por dias, com temperaturas de até 20 graus negativos.

O que os EUA propõem para encerrar o conflito?
A Casa Branca tenta avançar em etapas. Em setembro, os enviados Steve Witkoff e Jared Kushner visitaram Kiev e Moscou, segundo um relatório da Biblioteca da Câmara dos Comuns do Reino Unido. Depois, em 4 de outubro, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse que Washington propõe uma reunião técnica a três (EUA, Rússia e Ucrânia) até o fim do mês. Ele afirmou que Kiev aceita o encontro nos Emirados Árabes Unidos ou em outro país indicado pelos americanos.
Na mesa estão duas ideias mais imediatas. A primeira é um cessar-fogo parcial, que suspenderia os ataques contra usinas, linhas de energia e o transporte de grãos, segundo o site Axios, citado pela AFP. A segunda é a reabertura do corredor de grãos no Mar Negro, de acordo com o Kyiv Independent. Ainda segundo a AFP, a Ucrânia se mostra aberta à trégua de energia, enquanto a Rússia demonstrou pouco entusiasmo.

O que aconteceu na reunião de Miami?
O encontro reuniu Witkoff, Kushner, a equipe de Zelensky e conselheiros de segurança do Reino Unido, da França e da Alemanha, além de representantes da Otan e da União Europeia. Depois da conversa, Witkoff chamou a reunião de “construtiva” numa publicação no X. Segundo ele, os participantes trataram da preparação para o inverno, da resistência da rede elétrica ucraniana, da exportação de grãos e de garantias de segurança, informou o NV.
Mesmo assim, a imprensa ucraniana relatou que o encontro terminou antes do previsto, sem o segundo dia de conversas. Na véspera, em Lisboa, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, resumiu o momento.
“Acreditamos que não existe uma solução militar para este conflito.”
Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, em Lisboa, em 8 de outubro de 2026, segundo a AFP
O que a Rússia e a Ucrânia exigem para assinar a paz?
O território é o nó principal. O Kremlin insiste em controlar todo o Donbass, inclusive as áreas que Kiev ainda controla, segundo a AFP. Zelensky recusa a proposta e argumenta que a Rússia poderia usar essa região como trampolim para novos ataques.
Já Vladimir Putin repete outras condições. Em 1º de outubro, no fórum Valdai, em Moscou, ele disse que prefere encerrar a guerra por negociação e que quer uma Ucrânia neutra depois do conflito, segundo a Al Jazeera. No mesmo discurso, porém, ele descartou a troca proposta por Kiev, de parar de atacar refinarias russas em troca do fim dos ataques à energia ucraniana. Putin chamou a ideia de “simplesmente ridícula”.
Também há divergência sobre um encontro de líderes. Zelensky ofereceu conversar com Putin durante a reunião do G20 nos EUA, em dezembro. No entanto, o Kremlin rejeitou a ideia e disse que esse encontro só poderia acontecer em Moscou, segundo o relatório britânico.

Por que o diesel russo virou briga entre aliados?
Na sexta (9), depois de conversar com Putin, Trump anunciou um acordo para levar diesel russo ao mercado mundial. Segundo o Metrópoles, ele falou em mais de 300 mil toneladas imediatamente, 500 mil em novembro e mais 1 milhão depois. Para Trump, isso ajudaria a baixar o preço dos combustíveis. Em seguida, o Tesouro americano liberou temporariamente esse comércio até 7 de abril de 2027, informou o NV.
Zelensky reagiu no mesmo dia. Para ele, a medida significa “dinheiro adicional para esta guerra” e foi “uma decisão fraca vinda de parceiros fortes”. Ou seja, o anúncio saiu enquanto os negociadores ucranianos estavam na Flórida, o que aumentou a tensão entre os aliados.
O que a guerra Rússia e Ucrânia muda para o Brasil?
O efeito chega ao Brasil por dois caminhos: combustível e adubo. No caso do diesel, a Rússia virou a principal origem do produto importado pelo Brasil a partir de abril de 2023. De janeiro de 2023 a junho de 2025, as compras somaram US$ 12,4 bilhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento compilados pelo Poder360. Por isso, o que acontece com o diesel russo mexe com um combustível essencial para o frete no país, tema que explicamos em por que o diesel ficou mais caro.
Nos fertilizantes, a dependência também é grande. China e Rússia respondem juntas por quase metade do adubo importado pelo país, segundo análise do Itaú BBA publicada pelo Agrolink. De janeiro a novembro de 2025, o Brasil comprou 38,8 milhões de toneladas. Assim, uma escalada no Mar Negro ou novas sanções podem encarecer o custo de plantar no Brasil.

Há ainda o efeito diplomático. A disputa entre Washington e Moscou se mistura à briga comercial com Pequim, que mostramos em China e Estados Unidos, e ao conflito no Golfo, que explicamos em Estreito de Ormuz.
A guerra vai acabar em 2026?
Ninguém consegue afirmar isso com segurança. Há sinais de diálogo, mas as exigências sobre o Donbass não mudaram, e os ataques aumentaram às vésperas do inverno.
Na prática, o que vale acompanhar nas próximas semanas é se a reunião a três sai do papel e se Moscou aceita alguma pausa nos ataques à energia. Sem isso, a guerra Rússia e Ucrânia chega ao inverno sem acordo à vista.

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