Como a crise de 1929 quebrou a bolsa e levou o mundo à Depressão
Ações compradas com dinheiro emprestado, um pânico em cinco dias e uma bolsa que levou 25 anos para se recuperar. A história do crash que mudou as regras do dinheiro até hoje.

A crise de 1929 foi a quebra da Bolsa de Valores de Nova York em outubro daquele ano, que abriu caminho para a Grande Depressão, a pior crise econômica do século 20. Em poucos dias de pânico, as ações americanas despencaram. Depois, a queda continuou por quase três anos, até o índice Dow Jones perder 89% do valor.
O assunto volta todo mês de outubro, porque o crash completa 97 anos nos próximos dias. Além disso, quase toda crise financeira desde então, da crise de 2008 às quedas recentes das bolsas, é comparada com 1929. Entender o que aconteceu ajuda a entender por que os bancos, as bolsas e até a garantia do seu dinheiro funcionam do jeito que funcionam hoje.
O que causou a crise de 1929?
Nos anos 1920, os Estados Unidos viveram uma década de euforia. Segundo o Federal Reserve History, site de história do banco central americano, o Dow Jones saiu de 63 pontos em agosto de 1921 para 381 em setembro de 1929. Ou seja, o índice multiplicou o seu valor por seis em oito anos.
Boa parte dessa alta foi feita com dinheiro emprestado. Na época, era comum comprar ações “na margem”: o investidor pagava cerca de 10% do preço e pegava o resto emprestado com a corretora, dando as próprias ações como garantia. Enquanto os preços subiam, o modelo parecia mágico. No entanto, bastava uma queda para o credor pedir mais garantia, e quem não tinha dinheiro era obrigado a vender.
O banco central americano também entrou na história. De acordo com o Federal Reserve History, o Fed tentou frear a especulação e, em agosto de 1929, autorizou o Fed de Nova York a subir a taxa de desconto para 6%. A alta de juros encareceu o crédito justamente quando o mercado estava mais alavancado.
Como foi a quebra da bolsa de Nova York?
O pico do Dow Jones veio em 3 de setembro de 1929, aos 381,17 pontos. Depois, as quedas começaram a se acumular. Na quinta-feira, 24 de outubro, a chamada Quinta-Feira Negra, o índice chegou a cair 11% na abertura, segundo o Suno Notícias. Banqueiros de Wall Street tentaram segurar o mercado comprando ações a preços altos, mas a manobra não funcionou.
Na semana seguinte, o pânico virou colapso. O índice caiu quase 13% na segunda-feira, 28 de outubro, e quase 12% na terça-feira, 29 de outubro, a Terça-Feira Negra, de acordo com o Fed. Em meados de novembro, as ações já tinham perdido quase metade do valor. Mesmo assim, o pior ainda estava por vir: o fundo do poço só chegou em 8 de julho de 1932, aos 41,22 pontos.
Quanto tempo a bolsa levou para se recuperar?
A resposta assusta qualquer investidor. Segundo o Federal Reserve History, o Dow Jones só voltou ao nível de antes do crash em 23 de novembro de 1954. Foram, portanto, 25 anos de espera para quem comprou ações no pico de 1929.
Esse dado explica por que a crise de 1929 virou a régua das quedas da bolsa. Por outro lado, ele também mostra o risco de investir com dinheiro emprestado. Quem comprou na margem, em geral, não teve a chance de esperar a recuperação, porque foi obrigado a vender no meio da queda.
Por que a crise de 1929 virou a Grande Depressão?
A quebra da bolsa foi o começo, e não a crise inteira. Com o pânico, as pessoas cortaram compras a prazo, como carros, e as fábricas reduziram a produção e demitiram. Em seguida, vieram as corridas aos bancos, quando os clientes tentam sacar tudo ao mesmo tempo. Segundo a FDIC, a agência americana que garante depósitos, cerca de 9 mil bancos suspenderam as operações entre 1930 e 1933.
O estrago na economia real foi enorme. De acordo com o Federal Reserve de St. Louis, o PIB real dos Estados Unidos caiu 29% entre 1929 e 1933. No mesmo período, o desemprego saiu de cerca de 4% para 25%, e os preços ao consumidor caíram 25%.

Mesmo assim, a relação entre o crash e a Depressão ainda é debatida. Para o historiador Richard Sylla, citado pelo Suno, a ideia de que a quebra da bolsa sozinha causou a Grande Depressão é um mito. Muitos economistas apontam, por exemplo, a onda de falências bancárias e os erros de política monetária como os motores principais da crise.
Como a crise de 1929 afetou o Brasil?
O Brasil sentiu o golpe pelo café. Segundo reportagem do Jornal do Comércio, o produto respondia por 69% das receitas de exportação do país entre 1927 e 1930, e os Estados Unidos compravam cerca de 80% da produção. Com a crise, a saca caiu de 200 mil réis em janeiro de 1929 para 21 mil réis um ano depois.
Para tentar segurar os preços, o governo comprou 18 milhões de sacas e mandou queimar o estoque em 1931, na Baixada Santista, de acordo com o mesmo jornal. A economia brasileira encolheu 2,1% em 1930 e 3,3% em 1931. Depois, voltou a crescer, e a indústria nacional ganhou espaço ao longo dos anos 1930.
O que mudou no mundo depois da crise de 1929?
A crise deixou regras que valem até hoje. Nos Estados Unidos, o governo criou em 1933 a FDIC, que passou a garantir os depósitos bancários a partir de 1934, com cobertura inicial de até US$ 2.500 por cliente. A ideia era acabar com as corridas aos bancos, porque quem sabe que o dinheiro está garantido não tem motivo para sacar tudo de uma vez. No Brasil, o FGC cumpre um papel parecido.
Além disso, o próprio Fed tirou lições do episódio. Segundo o Federal Reserve History, em 1929 o Fed de Nova York comprou títulos, emprestou mais aos bancos e baixou juros para garantir dinheiro no sistema, e o ensaio conclui que essa estratégia pode conter os estragos de uma queda da bolsa. Para quem investe hoje, a crise de 1929 deixa um recado simples: bolsa sobe e desce, mas dívida para comprar ação pode transformar uma queda em uma perda que não tem volta.
O vídeo do Resenha sobre a história do dinheiro passa pelas grandes crises e explica por que tantas pessoas trabalham a vida inteira e não ficam ricas:

Diretor e produtor. Apontado pela imprensa como uma das jovens promessas de Hollywood. Cofundador do Resenha Rentável.
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