Biografias

Guilherme Benchimol foi demitido e criou a XP com R$ 10 mil

O carioca que desistiu da medicina abriu uma salinha em Porto Alegre, vendeu parte da empresa ao Itaú por R$ 6,3 bilhões e levou a XP à Nasdaq. Hoje, a Forbes calcula sua fortuna em R$ 9,1 bilhões.

Redação 6 min de leitura
Foto: XP Divulgação/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Guilherme Benchimol é o fundador da XP, a corretora que nasceu numa sala de 25 metros quadrados em Porto Alegre e virou um dos maiores grupos de investimento do Brasil. Ele começou o negócio em 2001, depois de ser demitido, com R$ 10 mil. Em outubro de 2026, a Forbes estimou sua fortuna em R$ 9,1 bilhões.

A história dele ajuda a entender como o brasileiro comum passou a investir fora dos grandes bancos. Além disso, Benchimol voltou ao noticiário neste mês. Numa entrevista à Forbes Brasil, publicada em 1º de outubro, ele disse que, a partir de certo ponto, o dinheiro “começa a atrapalhar”. Hoje, aos 50 anos, ele preside o conselho da XP Inc., empresa listada na bolsa americana Nasdaq.

Quem é Guilherme Benchimol?

Benchimol cresceu no Rio de Janeiro, numa família de médicos: o avô, o pai e vários primos seguiram a profissão. Por isso, a medicina parecia o caminho natural. No entanto, ao acompanhar a rotina da família, ele percebeu que o trabalho incluía perder pacientes e desistiu da ideia, segundo um perfil publicado pela Forbes Brasil em 2019.

Na adolescência, o esporte também disputou espaço. Aos 15 anos, ele quis largar a escola para virar tenista, mas o pai impôs condições que encerraram o plano. A virada veio depois de uma palestra do banqueiro Luiz Cesar Fernandes. A partir dali, Benchimol decidiu trabalhar no mercado financeiro. Matemática, aliás, era a matéria preferida dele.

Como Guilherme Benchimol começou no mercado financeiro?

O primeiro passo foi pequeno. Benchimol trabalhou na Sênior Corretora e depois no back office da Icatu, “liquidando ações e ativos”, como contou à Forbes. Em seguida, passou para a área comercial da Investshop, ligada ao banco Bozano, onde fez bons contatos.

Então veio o golpe. Aos 24 anos, ele foi demitido quando o departamento foi cortado. “Foi péssimo. Encarei como uma derrota pessoal”, disse à revista em 2019. Pouco depois, uma corretora gaúcha para a qual ele tinha vendido um produto o chamou para trabalhar em Porto Alegre. Ele aceitou. “Eu não tinha nada a perder. E fui.”

Como nasceu a XP?

Em 2001, Benchimol se juntou ao gaúcho Marcelo Maisonnave para oferecer investimentos a pessoas físicas, sem as taxas altas cobradas pelos bancos. Os dois começaram numa sala no bairro Moinhos de Vento, com R$ 10 mil e nenhum dinheiro de fundos de investimento, segundo a Forbes. Primeiro, a empresa se chamou XPTO e funcionava como escola de educação financeira. Depois, virou XP.

O começo foi apertado. A equipe tinha os dois sócios e dois estagiários, e Benchimol chegou a vender um Fusca para pôr dinheiro no negócio. Para não perder uma das estagiárias, Ana Clara Sucolotti, os sócios ofereceram a ela uma participação na empresa. Ela trabalhou na XP até 2011, e os dois se casaram em 2005.

Com o tempo, a XP deixou de ser só escola e passou a vender investimentos por meio de uma rede de agentes autônomos espalhados pelo país. Em 2019, o grupo já incluía as corretoras Rico e Clear e somava 1,1 milhão de contas e R$ 230 bilhões sob custódia, segundo a Forbes.

Guilherme Benchimol no palco da Expert XP, evento da empresa que ele fundou
Benchimol no palco da Expert XP, o festival de investimentos organizado pela empresa. Foto: Reprodução/YouTube/InfoMoney

Quanto o Itaú pagou pela XP?

O grande salto financeiro veio em 2017. Em 11 de maio daquele ano, o Itaú Unibanco anunciou a compra de 49,9% do capital da XP por R$ 6,3 bilhões, segundo a Forbes Brasil. Desse total, R$ 5,7 bilhões serviram para comprar ações dos antigos sócios, o fundo americano General Atlantic e a gestora carioca Dynamo. Os outros R$ 600 milhões entraram como capital novo na corretora.

Mesmo assim, os fundadores continuaram no comando. O acordo dava ao banco duas cadeiras no conselho, e a operação precisou passar pelo Cade, o órgão que analisa fusões no Brasil. Ou seja, um dos maiores bancos do país pagou bilhões para ser sócio de uma empresa que nasceu para oferecer uma alternativa aos bancos.

Como a XP chegou à Nasdaq?

Dois anos depois, a XP decidiu abrir capital nos Estados Unidos. Em 11 de dezembro de 2019, a XP Inc. estreou na Nasdaq, em Nova York, e captou US$ 2,25 bilhões, segundo o InfoMoney. Na estreia, a empresa foi avaliada em US$ 14,9 bilhões. Com isso, a oferta ficou entre as dez maiores do mundo naquele ano, de acordo com dados da FactSet citados pelo site.

Guilherme Benchimol na estreia da XP na Nasdaq, em 2019
Guilherme Benchimol com a bandeira do Brasil na estreia da XP Inc. na Nasdaq, em Nova York, em dezembro de 2019. Foto: XP Divulgação/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Em seguida, Benchimol mudou de papel. Em março de 2021, a XP anunciou que Thiago Maffra, até então diretor de tecnologia, assumiria como CEO em maio. Benchimol passou a presidente executivo do conselho, segundo o Mercado & Consumo. Hoje, a XP diz ter 4,8 milhões de clientes ativos e R$ 1,5 trilhão em ativos de clientes, além de mais de 18,3 mil assessores, segundo a Forbes.

Qual é o patrimônio de Guilherme Benchimol?

A Forbes estima a fortuna de Guilherme Benchimol em cerca de R$ 9,1 bilhões, o que o coloca em 37º lugar entre os bilionários brasileiros de 2026. Na lista de 2025, ele aparecia com US$ 1,6 bilhão, em 32º lugar, segundo a Forbes Brasil. A maior parte do patrimônio vem das ações da XP, por isso o valor sobe e desce com a bolsa.

Guilherme Benchimol em entrevista ao programa CNN Líderes
Guilherme Benchimol em entrevista ao programa CNN Líderes, quando ainda era CEO da XP. Foto: Reprodução/YouTube/CNN Brasil

Para ele, porém, o dinheiro não foi o alvo. “Eu nunca mirei no dinheiro. O dinheiro, para mim, é uma consequência”, disse à Forbes. Na mesma entrevista, ele resumiu como pensa o risco.

“Empreendedor bom é conservador.”

Guilherme Benchimol, à Forbes Brasil, em outubro de 2026

O que a trajetória de Benchimol ensina?

A história mostra como uma demissão pode virar ponto de partida. Além disso, a XP cresceu num momento em que os juros altos e a oferta de produtos fora dos bancos atraíram milhões de brasileiros para os investimentos, tema que explicamos em taxa Selic hoje e no texto sobre como funciona o FGC.

Benchimol também costuma descrever a XP como uma “empresa de donos”, com centenas de sócios, segundo a Forbes. Para comparar com outra grande trajetória de empresário brasileiro, vale ler a história de Abilio Diniz. Questionado pela Forbes sobre o que faria diferente, ele respondeu que talvez tentasse “curtir um pouco mais a jornada”.

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