Cinema

A história da Pixar, que quase faliu antes de Toy Story

Antes de virar o estúdio de US$ 1 bilhão por filme, a Pixar vendia computador caro que ninguém comprava e vivia do bolso de Steve Jobs. Veja como o jogo virou.

Pietro Krauss 5 min de leitura
Foto: Bill Abbott/Flickr (CC BY 4.0)

A história da Pixar começa longe do cinema: o estúdio de Toy Story nasceu como uma empresa de computadores que dava prejuízo atrás de prejuízo. Durante quase dez anos, quem pagou a conta foi Steve Jobs. Só com Toy Story, em 1995, o negócio virou, e em 2006 a Disney comprou a Pixar por US$ 7,4 bilhões.

A trajetória ganhou novo capítulo em 2026. Toy Story 5 passou de US$ 1 bilhão nas bilheterias, enquanto a Disney cortou funcionários do estúdio. Por isso, vale entender como uma empresa que quase fechou virou uma das marcas mais lucrativas do cinema, e por que até ela vive de altos e baixos.

Como começou a história da Pixar?

A Pixar saiu da divisão de computação gráfica da Lucasfilm, a produtora de George Lucas. Depois de sair da Apple, em 1985, Steve Jobs comprou essa divisão por US$ 10 milhões, segundo a Biography.com. No começo, porém, o plano não era fazer filmes.

O produto principal era o Pixar Image Computer, uma máquina para criar e tratar imagens. Ela custava US$ 135 mil, e só cerca de 100 unidades foram vendidas, a maioria para hospitais e agências de inteligência. Em outras palavras, era um produto caro demais para um mercado pequeno demais. Enquanto isso, um pequeno grupo liderado pelo animador John Lasseter fazia curtas-metragens animados por computador, quase como vitrine da tecnologia.

Ed Catmull, um dos nomes centrais da história da Pixar
Ed Catmull, então presidente da Pixar, em palestra sobre criatividade em 2014. Foto: Steve Jurvetson/Flickr (CC BY 2.0)

Quanto dinheiro Steve Jobs perdeu com a Pixar?

Muito. Segundo a NPR, rádio pública americana, Jobs perdeu mais de US$ 1 milhão por ano nos primeiros cinco anos. Até 1991, ele já tinha colocado cerca de US$ 50 milhões do próprio bolso no estúdio, segundo a Biography.com. Depois, Jobs vendeu a parte de hardware, e a empresa passou a viver de software, comerciais e curtas.

“Eu continuava colocando mais dinheiro, e o único ponto positivo eram os curtas do John”, disse Jobs, segundo a Biography.com. A situação apertou ainda mais em 1994. Segundo o Computer History Museum, quando o executivo Lawrence Levy chegou à Pixar, no fim daquele ano, a empresa acumulava um prejuízo de US$ 50 milhões, não tinha lucro nem caixa, e Jobs pagava a folha de salários com cheques pessoais.

Como a Disney entrou no negócio?

A virada começou em 1991. Naquele ano, a Disney topou financiar e distribuir o primeiro longa da Pixar. Jobs negociou um acordo de três filmes que dava ao estúdio 12,5% da bilheteria, segundo a Biography.com. Ou seja, a Disney ficava com a maior parte, mas a Pixar finalmente tinha um cliente grande.

O resultado foi Toy Story, o primeiro longa do estúdio. O filme estreou em novembro de 1995 e faturou cerca de US$ 362 milhões no mundo, a maior bilheteria daquele ano, segundo a NPR. Para quem gosta de números de cinema, vale ver também qual é o filme de maior bilheteria da história.

Como Toy Story salvou a Pixar?

Toy Story salvou a Pixar duas vezes: nas telas e na bolsa. Uma semana depois da estreia, Jobs abriu o capital da empresa. As ações foram vendidas a US$ 22 e fecharam o primeiro dia a US$ 39, alta de cerca de 77%, segundo a agência UPI na época. A oferta levantou US$ 132 milhões, e a fatia de cerca de 80% de Jobs passou a valer perto de US$ 1 bilhão.

Mesmo assim, o caminho não foi reto. Segundo o Computer History Museum, os bancos Morgan Stanley e Goldman Sachs tinham recusado coordenar a oferta, por acharem que a Pixar não tinha potencial de crescimento. Além disso, três semanas depois da estreia na bolsa, a ação já tinha caído para US$ 12. Com o sucesso do filme, porém, a Pixar ganhou força para renegociar com a Disney. Em 1997, as duas fecharam um acordo de cinco filmes, agora dividindo custos e lucros meio a meio.

Por quanto a Disney comprou a Pixar?

Em janeiro de 2006, a Disney anunciou a compra da Pixar por US$ 7,4 bilhões, pagos em ações. Segundo a reportagem da Associated Press publicada pelo Deseret News, Jobs tinha mais da metade das ações da Pixar e, com o negócio, virou o maior acionista individual da Disney, além de ganhar uma cadeira no conselho.

O acordo também mudou o comando da animação da Disney. Ed Catmull, que comandava a Pixar, virou presidente dos estúdios de animação da Pixar e da Disney. Lasseter assumiu o cargo de diretor de criação. Na época, filmes como Procurando Nemo e Os Incríveis já tinham ganhado o Oscar de animação. Quem acompanha o blog vai notar o padrão: três anos depois, a Disney repetiria a estratégia ao comprar a Marvel.

Como está a Pixar em 2026?

Com Toy Story 5, a Pixar chegou ao sexto filme com mais de US$ 1 bilhão de bilheteria, segundo a Cartoon Brew. Os outros são Toy Story 3, Procurando Dory, Os Incríveis 2, Toy Story 4 e Divertida Mente 2. Até o começo de outubro, o novo filme somava cerca de US$ 1,15 bilhão no mundo, com orçamento de US$ 250 milhões, segundo o site The Numbers).

Por outro lado, os filmes originais sofrem mais. Segundo o site TheWrap, citado pelo tbreak, a Disney demitiu centenas de funcionários em julho de 2026, inclusive na Pixar. A mesma reportagem diz que Hoppers, animação original lançada em março, fez US$ 389,5 milhões no mundo com orçamento de US$ 150 milhões, perto do ponto de equilíbrio. A Disney não detalhou os cortes e falou apenas em avaliação contínua de recursos.

Quarenta anos depois da compra por US$ 10 milhões, a Pixar segue como um dos estúdios mais valiosos do cinema, mas com o mesmo dilema do começo: a aposta em algo novo custa caro e nem sempre se paga logo. A diferença é que, hoje, Woody e Buzz ajudam a pagar a conta. Para conhecer melhor o homem que bancou o estúdio nos anos difíceis, veja a história de Steve Jobs.

Pietro Krauss

Diretor e produtor. Apontado pela imprensa como uma das jovens promessas de Hollywood. Cofundador do Resenha Rentável.

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