Geopolítica

O que mudou na Venezuela desde a captura de Maduro

Nove meses depois da operação americana, o país tem governo interino, petróleo aberto aos EUA, promessa de eleição sem data e um terremoto no caminho. Veja como está a Venezuela hoje.

Redação 6 min de leitura
Foto: City Vzla/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A Venezuela vive desde janeiro de 2026 sob um governo interino comandado por Delcy Rodríguez, que era vice-presidente de Nicolás Maduro. Ele foi capturado por forças dos Estados Unidos em 3 de janeiro e responde a um processo por narcotráfico em Nova York. Desde então, o país abriu o petróleo a empresas estrangeiras, reaproximou-se de Washington e prometeu eleições, ainda sem data.

O assunto voltou ao noticiário na semana passada. Em 23 de setembro, Delcy discursou na Assembleia Geral da ONU e afirmou que “na Venezuela haverá eleições”, segundo o Correio Braziliense. Na mesma viagem, ela se encontrou com Donald Trump em Nova York. Por isso, vale entender o que mudou no país vizinho, que divide fronteira com Roraima e tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo.

O que aconteceu com Maduro?

Na madrugada de 3 de janeiro, os Estados Unidos fizeram ataques na Venezuela e levaram Maduro e a mulher dele, Cilia Flores, para Nova York. Lá, os dois foram acusados de conspiração para narcoterrorismo e para importação de cocaína, entre outros crimes. Em 5 de janeiro, ambos se declararam inocentes diante da Justiça americana.

Desde então, o caso andou devagar. Em julho, o juiz Alvin Hellerstein marcou o julgamento para 1º de junho de 2027, segundo a Al Jazeera. Além disso, a defesa, liderada pelo advogado Barry Pollack, informou que vai contestar o processo alegando imunidade de chefe de Estado. Ou seja, até outubro de 2026, Maduro é réu e não foi julgado.

Quem governa a Venezuela hoje?

Delcy Rodríguez tomou posse como presidente interina em 5 de janeiro. Antes, ela tinha sido chanceler entre 2014 e 2017 e, depois, vice-presidente executiva de Maduro. Em vez de romper com Washington, o governo interino escolheu negociar. Assim, a embaixada americana em Caracas reabriu em março e os voos comerciais entre os dois países voltaram em abril, segundo o resumo do ano na Wikipédia. Além disso, os EUA retiraram as sanções contra Delcy em 1º de abril, segundo o The Rio Times.

Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela
Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela, em Caracas, em janeiro de 2026. Foto: Presidência da Venezuela (domínio público)

Outra mudança foi a lei de anistia, aprovada em fevereiro. Ela beneficiou presos por protestos políticos, mas deixou de fora condenados por rebelião militar, corrupção e violações de direitos humanos, segundo a Agência Brasil. Em abril, Delcy anunciou o fim da lei. Na época, a ONG Foro Penal contava cerca de 473 presos políticos ainda detidos, de acordo com a Revista Oeste.

O que muda no petróleo da Venezuela?

O petróleo é o centro da nova relação com os EUA. Em janeiro, uma reforma acabou com o monopólio da estatal PDVSA e abriu o setor a empresas privadas. Na época, a própria PDVSA estimava produzir cerca de 1,2 milhão de barris por dia, segundo a Exame.

Refinaria de Puerto La Cruz, parte da indústria do petróleo da Venezuela
Refinaria de Puerto La Cruz, no estado de Anzoátegui, uma das estruturas da indústria do petróleo venezuelana. Foto: Daniel Zambrano/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Depois, no fim de agosto, Trump anunciou um acordo que dá a uma empresa apoiada pelos EUA concessões de 100 anos em 17 campos de petróleo. Juntos, eles somam 65 bilhões de barris de reservas, segundo a PBS. Para Delcy, a Venezuela “mantém a propriedade e a soberania sobre seus recursos”. Já o economista Ricardo Hausmann, de Harvard, chamou o acordo de “vergonhoso” e disse duvidar que ele dure. Na prática, especialistas ouvidos pela PBS lembram que a infraestrutura está degradada e que aumentar a produção vai levar anos.

Esse ponto também importa para o Brasil. Afinal, o preço do petróleo pesa no diesel e na gasolina daqui, como mostramos em por que o diesel ficou mais caro e no texto sobre a guerra do Irã.

Quando vão ser as eleições na Venezuela?

Ainda não há data. Na ONU, Delcy disse que haverá eleições e que o povo venezuelano vai determinar “o momento correto”. Ela também disse manter diálogo com setores da oposição, segundo a Euronews. No mesmo discurso, afirmou que “a democracia mede-se pela qualidade da competição”.

Do lado americano, Trump disse que os venezuelanos ainda não lhe parecem prontos para votar, segundo o Metrópoles. Por enquanto, portanto, a promessa existe, mas sem dia marcado.

Delcy Rodríguez e Donald Trump em Nova York
Delcy Rodríguez e Donald Trump em Nova York, durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2026. Foto: Presidência da Venezuela (domínio público)

Como está a economia da Venezuela?

A economia melhorou em alguns números, mas segue frágil. Em maio, a inflação mensal ficou em 6,3%, o primeiro resultado de um dígito desde outubro de 2024, segundo dados do Banco Central da Venezuela citados pela Revista Fórum. Mesmo assim, a alta acumulada em 12 meses chegava a 524%. Em abril, o FMI projetava crescimento de 4% para 2026, com inflação perto de 400% no ano.

Além disso, o país sofreu um choque inesperado. Em 24 de junho, dois terremotos, de magnitude 7,2 e 7,5, atingiram o litoral do país, perto da cidade de Morón, a cerca de 160 quilômetros de Caracas, segundo a World Vision. Segundo balanço das autoridades venezuelanas divulgado em agosto pelo Brasil de Fato, foram 6.125 mortes e mais de 23 mil pessoas desabrigadas.

A Venezuela já é um país aberto?

Em parte. Por um lado, voltaram os voos para os EUA e o diálogo com Washington. Por outro, a Repórteres Sem Fronteiras pôs a Venezuela em 159º lugar entre 180 países no ranking de liberdade de imprensa de 2026, e a organização ainda classifica o país como fechado à imprensa, segundo o El Pitazo.

Na fronteira com o Brasil, o movimento também mudou. Nos primeiros 13 dias de janeiro, 1.014 venezuelanos entraram por Pacaraima, contra 2.121 no mesmo período de 2025, segundo a Operação Acolhida, em dados publicados pela Folha BV. Segundo a Polícia Federal, cerca de 743 mil venezuelanos viviam no Brasil em dezembro de 2025. A crise venezuelana lembra a de outro país do Caribe, como mostramos na reportagem sobre a crise em Cuba.

Nove meses depois da captura de Maduro, a Venezuela trocou de comando, reabriu o petróleo e se reaproximou dos EUA. No entanto, as perguntas centrais seguem sem resposta: quando o país vai votar, quanto o novo acordo vai render aos venezuelanos e se o julgamento em Nova York vai mesmo acontecer em 2027.

O Resenha Rentável tentou entrar na Venezuela pela fronteira e mostrou o que encontrou. Veja:

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