O que é o petrodólar e como ele sustenta o poder do dólar
Um acordo secreto de 1974 com a Arábia Saudita ajudou a transformar o dólar na moeda do petróleo. Veja como o sistema funciona, o mito do fim em 2024 e por que a China e a guerra do Irã voltaram a colocá-lo em debate.

O que é o petrodólar? É o sistema em que o petróleo do mundo é vendido em dólares americanos e boa parte desse dinheiro volta para os Estados Unidos, investida em títulos da dívida do governo americano. Na prática, quem quer comprar petróleo precisa antes ter dólar. Por isso, o arranjo ajudou a manter a moeda americana no centro da economia mundial desde os anos 1970.
O tema voltou ao noticiário em 2026 por causa da guerra no Irã. Segundo a revista Fortune, depois que o Irã fechou na prática o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo do mundo, alguns navios conseguiram atravessar pagando em yuan, a moeda chinesa. Além disso, economistas do Deutsche Bank escreveram que o conflito pode ser lembrado como o começo da erosão do petrodólar. Para entender o peso do estreito, veja a matéria sobre Ormuz e a guerra do Irã.
Como surgiu o petrodólar?
A história começa com o ouro. Em julho de 1944, delegados de 44 países criaram em Bretton Woods, nos EUA, um sistema em que o dólar valia uma quantia fixa de ouro: US$ 35 por onça, segundo o Federal Reserve History, o arquivo histórico do banco central americano. Em 1971, porém, o presidente Richard Nixon acabou com a troca de dólares por ouro. A partir daí, o dólar deixou de ter lastro em ouro, e o mundo passou a usar a moeda americana sem essa garantia.
Esse motivo apareceu depois de uma crise. Em 1973, países árabes fizeram um embargo de petróleo contra os EUA, em retaliação ao apoio americano a Israel na guerra do Yom Kippur, e o preço do barril quadruplicou, segundo uma reportagem da Bloomberg republicada pelo Energy Voice. Em julho de 1974, o novo secretário do Tesouro, William Simon, e seu vice, Gerry Parsky, viajaram à Arábia Saudita com uma missão delicada.
O que foi o acordo secreto com a Arábia Saudita?
Pelo acordo, a Arábia Saudita reinvestiria nos EUA bilhões de dólares ganhos com o petróleo, comprando títulos do Tesouro americano. A condição dos sauditas era que essas compras ficassem “estritamente secretas”, de acordo com a mesma reportagem da Bloomberg. Em troca, segundo a Fortune, os EUA ofereceriam ajuda militar e segurança ao reino.
O segredo durou décadas. Só em 2016, depois de um pedido baseado na lei de acesso à informação dos EUA, a Bloomberg revelou que a Arábia Saudita tinha US$ 117 bilhões em títulos do Tesouro americano. Assim, um dos maiores vendedores de petróleo do mundo virou também um dos grandes credores do governo dos EUA.

Como o petrodólar funciona na prática?
O mecanismo é um circuito. Primeiro, um país compra petróleo e paga em dólar. Depois, o país exportador junta esses dólares e precisa colocá-los em algum lugar seguro. Em seguida, boa parte desse dinheiro vai para títulos da dívida americana, que é como um empréstimo ao governo dos EUA. Por fim, o dólar volta para casa, e o ciclo recomeça.
Esse circuito dá aos EUA uma vantagem rara. Como o mundo inteiro precisa de dólar para comprar energia, a procura pela moeda fica sempre alta, e o governo americano consegue se financiar com mais facilidade. Por outro lado, o resto do mundo fica exposto às decisões de Washington: quando os juros sobem lá ou o dólar se valoriza, o petróleo e as dívidas em dólar ficam mais caros para todo mundo. Esse peso da dívida aparece na matéria sobre a dívida pública mundial.
O acordo do petrodólar acabou em 2024?
Não. Em junho de 2024, viralizou nas redes a história de que um “pacto do petrodólar” de 50 anos tinha expirado sem renovação. Porém, esse pacto com prazo nunca existiu. Segundo uma análise do TipRanks republicada pela Nasdaq, o que foi assinado em 8 de junho de 1974 foi uma comissão conjunta de cooperação econômica entre os dois países.
Paul Donovan, economista-chefe do banco UBS, explicou na mesma análise que o acordo tratava de cooperação econômica e não trazia nenhuma regra obrigando a Arábia Saudita a vender petróleo só em dólar. Ou seja, o petrodólar sempre foi mais um costume apoiado em interesses dos dois lados do que um contrato com data de validade.
Por que a China desafia o petrodólar?
A China é hoje o maior cliente de petróleo da Arábia Saudita, segundo Michael Harris, do EBC Financial Group, ouvido pela Fortune. Desde 2018, o país tem em Xangai uma bolsa de energia que negocia contratos de petróleo em yuan. Além disso, o historiador David Wight, da Universidade da Carolina do Norte em Greensboro, disse à revista que o Irã vende boa parte do seu petróleo em yuan há anos, já que a China compra cerca de 90% do que o país exporta.
Os sauditas também abriram outras portas. Em 2023, o reino assinou com a China uma troca de moedas equivalente a US$ 7 bilhões, e o seu banco central entrou na mBridge, plataforma que permite pagamentos diretos entre moedas de diferentes países, segundo a Fortune. Mesmo assim, o economista Fadhel Kaboub, da Universidade Denison, fez uma ressalva à revista: “Não vou dizer que o petrodólar está morto, porque isso é incorreto”.

O dólar está perdendo espaço no mundo?
Aos poucos, sim, mas continua muito à frente. No fim de junho de 2026, o dólar representava 56,7% das reservas em moeda estrangeira dos bancos centrais do mundo, contra 57,2% no fim de março, segundo dados do FMI divulgados pela Central Banking. Em 1999, essa fatia era de cerca de 71%, de acordo com a Fortune.
Enquanto isso, o yuan ainda é pequeno nesse ranking. No primeiro trimestre de 2026, a moeda chinesa tinha só 1,99% das reservas mundiais, e o euro, 20,03%, segundo o FMI. Em outras palavras, o yuan avança no comércio de petróleo com alguns países, mas ainda está longe de ocupar o lugar do dólar como moeda de poupança dos governos.
O que o petrodólar tem a ver com o Brasil?
Para o brasileiro, o efeito aparece no posto de gasolina e no câmbio. Como o barril é cotado em dólar no mercado internacional, uma alta do petróleo ou da moeda americana pressiona o custo dos combustíveis e do frete, como mostra a matéria sobre o preço do diesel. Assim, uma mudança no sistema do petrodólar mexeria com a forma como o país paga e recebe por energia.
No fim das contas, o petrodólar nasceu de uma viagem secreta em 1974 e virou uma das bases do poder americano. Meio século depois, ele enfrenta a concorrência da China e o teste de uma guerra no Golfo, mas os números do FMI mostram que o dólar continua sendo, de longe, a moeda que o mundo mais guarda.

Roteirista e produtor. Chamado pela imprensa de “prodígio do cinema”. Cofundador do Resenha Rentável.
Ver biografia e artigos →


