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Geopolítica

O que é o petrodólar e como ele sustenta o poder do dólar

Um acordo secreto de 1974 com a Arábia Saudita ajudou a transformar o dólar na moeda do petróleo. Veja como o sistema funciona, o mito do fim em 2024 e por que a China e a guerra do Irã voltaram a colocá-lo em debate.

Pedro Paracampos 6 min de leitura
Foto: Robert L. Knudsen/Casa Branca, Arquivo Nacional dos EUA (domínio público)

O que é o petrodólar? É o sistema em que o petróleo do mundo é vendido em dólares americanos e boa parte desse dinheiro volta para os Estados Unidos, investida em títulos da dívida do governo americano. Na prática, quem quer comprar petróleo precisa antes ter dólar. Por isso, o arranjo ajudou a manter a moeda americana no centro da economia mundial desde os anos 1970.

O tema voltou ao noticiário em 2026 por causa da guerra no Irã. Segundo a revista Fortune, depois que o Irã fechou na prática o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo do mundo, alguns navios conseguiram atravessar pagando em yuan, a moeda chinesa. Além disso, economistas do Deutsche Bank escreveram que o conflito pode ser lembrado como o começo da erosão do petrodólar. Para entender o peso do estreito, veja a matéria sobre Ormuz e a guerra do Irã.

Como surgiu o petrodólar?

A história começa com o ouro. Em julho de 1944, delegados de 44 países criaram em Bretton Woods, nos EUA, um sistema em que o dólar valia uma quantia fixa de ouro: US$ 35 por onça, segundo o Federal Reserve History, o arquivo histórico do banco central americano. Em 1971, porém, o presidente Richard Nixon acabou com a troca de dólares por ouro. A partir daí, o dólar deixou de ter lastro em ouro, e o mundo passou a usar a moeda americana sem essa garantia.

Esse motivo apareceu depois de uma crise. Em 1973, países árabes fizeram um embargo de petróleo contra os EUA, em retaliação ao apoio americano a Israel na guerra do Yom Kippur, e o preço do barril quadruplicou, segundo uma reportagem da Bloomberg republicada pelo Energy Voice. Em julho de 1974, o novo secretário do Tesouro, William Simon, e seu vice, Gerry Parsky, viajaram à Arábia Saudita com uma missão delicada.

O que foi o acordo secreto com a Arábia Saudita?

Pelo acordo, a Arábia Saudita reinvestiria nos EUA bilhões de dólares ganhos com o petróleo, comprando títulos do Tesouro americano. A condição dos sauditas era que essas compras ficassem “estritamente secretas”, de acordo com a mesma reportagem da Bloomberg. Em troca, segundo a Fortune, os EUA ofereceriam ajuda militar e segurança ao reino.

O segredo durou décadas. Só em 2016, depois de um pedido baseado na lei de acesso à informação dos EUA, a Bloomberg revelou que a Arábia Saudita tinha US$ 117 bilhões em títulos do Tesouro americano. Assim, um dos maiores vendedores de petróleo do mundo virou também um dos grandes credores do governo dos EUA.

Refinaria da Aramco em Ras Tanura, peça central da história do petrodólar
Refinaria da Aramco em Ras Tanura, na Arábia Saudita, em foto histórica da empresa. Foto: Aramco/Wikimedia Commons (domínio público)

Como o petrodólar funciona na prática?

O mecanismo é um circuito. Primeiro, um país compra petróleo e paga em dólar. Depois, o país exportador junta esses dólares e precisa colocá-los em algum lugar seguro. Em seguida, boa parte desse dinheiro vai para títulos da dívida americana, que é como um empréstimo ao governo dos EUA. Por fim, o dólar volta para casa, e o ciclo recomeça.

Esse circuito dá aos EUA uma vantagem rara. Como o mundo inteiro precisa de dólar para comprar energia, a procura pela moeda fica sempre alta, e o governo americano consegue se financiar com mais facilidade. Por outro lado, o resto do mundo fica exposto às decisões de Washington: quando os juros sobem lá ou o dólar se valoriza, o petróleo e as dívidas em dólar ficam mais caros para todo mundo. Esse peso da dívida aparece na matéria sobre a dívida pública mundial.

O acordo do petrodólar acabou em 2024?

Não. Em junho de 2024, viralizou nas redes a história de que um “pacto do petrodólar” de 50 anos tinha expirado sem renovação. Porém, esse pacto com prazo nunca existiu. Segundo uma análise do TipRanks republicada pela Nasdaq, o que foi assinado em 8 de junho de 1974 foi uma comissão conjunta de cooperação econômica entre os dois países.

Paul Donovan, economista-chefe do banco UBS, explicou na mesma análise que o acordo tratava de cooperação econômica e não trazia nenhuma regra obrigando a Arábia Saudita a vender petróleo só em dólar. Ou seja, o petrodólar sempre foi mais um costume apoiado em interesses dos dois lados do que um contrato com data de validade.

Por que a China desafia o petrodólar?

A China é hoje o maior cliente de petróleo da Arábia Saudita, segundo Michael Harris, do EBC Financial Group, ouvido pela Fortune. Desde 2018, o país tem em Xangai uma bolsa de energia que negocia contratos de petróleo em yuan. Além disso, o historiador David Wight, da Universidade da Carolina do Norte em Greensboro, disse à revista que o Irã vende boa parte do seu petróleo em yuan há anos, já que a China compra cerca de 90% do que o país exporta.

Os sauditas também abriram outras portas. Em 2023, o reino assinou com a China uma troca de moedas equivalente a US$ 7 bilhões, e o seu banco central entrou na mBridge, plataforma que permite pagamentos diretos entre moedas de diferentes países, segundo a Fortune. Mesmo assim, o economista Fadhel Kaboub, da Universidade Denison, fez uma ressalva à revista: “Não vou dizer que o petrodólar está morto, porque isso é incorreto”.

Tanques de petróleo da Aramco em Ras Tanura, em 1954, no início da era do petrodólar
Tanques de petróleo em Ras Tanura, na revista Al Qafilah, da Aramco, em 1954. Foto: Saudi Aramco/Wikimedia Commons (domínio público)

O dólar está perdendo espaço no mundo?

Aos poucos, sim, mas continua muito à frente. No fim de junho de 2026, o dólar representava 56,7% das reservas em moeda estrangeira dos bancos centrais do mundo, contra 57,2% no fim de março, segundo dados do FMI divulgados pela Central Banking. Em 1999, essa fatia era de cerca de 71%, de acordo com a Fortune.

Enquanto isso, o yuan ainda é pequeno nesse ranking. No primeiro trimestre de 2026, a moeda chinesa tinha só 1,99% das reservas mundiais, e o euro, 20,03%, segundo o FMI. Em outras palavras, o yuan avança no comércio de petróleo com alguns países, mas ainda está longe de ocupar o lugar do dólar como moeda de poupança dos governos.

O que o petrodólar tem a ver com o Brasil?

Para o brasileiro, o efeito aparece no posto de gasolina e no câmbio. Como o barril é cotado em dólar no mercado internacional, uma alta do petróleo ou da moeda americana pressiona o custo dos combustíveis e do frete, como mostra a matéria sobre o preço do diesel. Assim, uma mudança no sistema do petrodólar mexeria com a forma como o país paga e recebe por energia.

No fim das contas, o petrodólar nasceu de uma viagem secreta em 1974 e virou uma das bases do poder americano. Meio século depois, ele enfrenta a concorrência da China e o teste de uma guerra no Golfo, mas os números do FMI mostram que o dólar continua sendo, de longe, a moeda que o mundo mais guarda.

Pedro Paracampos

Roteirista e produtor. Chamado pela imprensa de “prodígio do cinema”. Cofundador do Resenha Rentável.

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