Geopolítica

Por que a dívida pública mundial passou de US$ 100 trilhões

Os governos do planeta nunca deveram tanto. Veja quem mais deve, quem empresta esse dinheiro, quanto custam os juros e onde o Brasil aparece nessa conta.

Pedro Paracampos 7 min de leitura
Foto: Valugi/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

A dívida pública mundial chegou a US$ 102 trilhões em 2024, o maior valor já registrado, segundo o relatório “Um mundo endividado”, da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), publicado em junho de 2025. Em outras palavras, é o total que os governos de todos os países devem a bancos, fundos, bancos centrais e investidores. E a conta continua subindo.

Em abril de 2026, o Fundo Monetário Internacional (FMI) calculou que a dívida dos governos fechou 2025 em pouco menos de 94% do PIB mundial, a soma de tudo o que o planeta produz em um ano. Pela projeção do Fiscal Monitor do FMI, ela deve chegar a 100% do PIB em 2029, um ano antes do que o próprio Fundo previa em 2025. Por isso, o assunto saiu das planilhas dos economistas e virou tema de geopolítica: quem deve, para quem deve e quanto paga de juros muda a força de cada país no mundo.

O que é a dívida pública mundial?

A dívida pública é o dinheiro que um governo pega emprestado quando gasta mais do que arrecada com impostos. Na prática, ele faz isso vendendo títulos, que são promessas de devolver o valor no futuro com juros. Quem compra um título do Tesouro, por exemplo, está emprestando dinheiro ao governo. A dívida pública mundial é a soma dessas dívidas em todos os países.

Ela é diferente da dívida total do mundo, que inclui também famílias e empresas. Segundo o Institute of International Finance (IIF), essa conta maior subiu mais de US$ 10 trilhões só no primeiro semestre de 2026 e passou de US$ 365 trilhões, ou mais de 305% do PIB mundial, como mostrou a Forbes. Ainda segundo o IIF, governos e empresas puxaram a maior parte da alta.

Dívida pública mundial: sede do FMI, em Washington
Sede do Fundo Monetário Internacional, em Washington. Foto: APK/Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Quais países têm a maior dívida pública do mundo?

Quando a dívida é comparada com o tamanho da economia, o Japão lidera com folga. Pelos dados do World Economic Outlook do FMI de abril de 2026, compilados pelo Meio, a dívida japonesa deve chegar a 204,4% do PIB em 2026. Em seguida vêm Singapura (171,9%), Sudão (169,1%) e Bahrein (152,4%). Entre as grandes economias, aparecem ainda Itália (138,4%), Grécia (136,9%) e Estados Unidos (125,8%).

O caso do Japão mostra que dívida alta não é sinônimo de calote. Afinal, a dívida japonesa é em ienes, e o maior credor é o próprio banco central do país. Em março de 2023, o Banco do Japão tinha 53% dos títulos do governo, segundo o Nippon.com, e desde então essa fatia recuou para pouco menos da metade. Por outro lado, Sudão e Senegal, que também estão no topo da lista, são economias muito menores e mais frágeis. Ou seja, o tamanho da dívida importa, mas também importa quem empresta e em qual moeda.

Dívida pública mundial: Banco do Japão, em Tóquio
Sede do Banco do Japão, em Tóquio: o país tem a maior dívida pública do mundo em relação ao PIB. Foto: yt_siden/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)
Ranking da dívida pública mundial em relação ao PIB, com Japão, Itália, Estados Unidos e Brasil

Quanto devem os Estados Unidos?

Em valor absoluto, nenhum país deve tanto quanto os Estados Unidos. A dívida americana passou de US$ 40 trilhões pela primeira vez em agosto de 2026, segundo atualização do Departamento do Tesouro citada pela Al Jazeera e pela NPR. O salto de US$ 39 trilhões para US$ 40 trilhões levou menos de cinco meses. Além disso, o marco chegou antes do que previa o Escritório de Orçamento do Congresso, que esperava esse número só em 2028.

O custo também pesa. Segundo a Al Jazeera, Washington paga cerca de US$ 1,1 trilhão por ano só de juros, um pouco mais do que gasta com defesa. Como o dólar é a moeda de reserva do mundo, os títulos americanos continuam sendo comprados por investidores de todos os continentes. Mesmo assim, o FMI aponta no relatório de abril uma erosão do chamado prêmio de segurança desses papéis. Ou seja, eles já não são vistos como tão livres de risco quanto antes.

Dívida pública mundial: Capitólio dos Estados Unidos ao amanhecer
Capitólio dos Estados Unidos, em Washington: a dívida americana passou de US$ 40 trilhões em agosto de 2026. Foto: Architect of the Capitol/Wikimedia Commons (domínio público)

Quem empresta dinheiro para os governos?

Os credores são, em sua maioria, investidores comuns e instituições: bancos, fundos de pensão, seguradoras, fundos de investimento e pessoas físicas. Os bancos centrais também entram na conta. Nos Estados Unidos, por exemplo, o Federal Reserve tinha US$ 4,528 trilhões em títulos do governo, segundo a Al Jazeera.

Outros países também emprestam. Pelos dados de 2025 citados pela mesma reportagem, o Japão era o maior credor estrangeiro dos EUA, com US$ 1,203 trilhão em títulos americanos. Depois vinham o Reino Unido, com US$ 889 bilhões, e a China, com US$ 683 bilhões. Por isso, a dívida pública também é uma ferramenta de poder: quem financia um governo ganha influência sobre ele, e quem depende de credores externos fica mais exposto a crises.

Por que a dívida pública mundial preocupa?

O problema principal não é o tamanho da dívida, e sim o preço dos juros. Segundo a ONU News, os países em desenvolvimento pagaram o recorde de US$ 921 bilhões em juros em 2024. Além disso, 61 deles gastaram pelo menos 10% de tudo o que arrecadaram só com juros. Como consequência, cerca de 3,4 bilhões de pessoas vivem em países que gastam mais com juros da dívida do que com saúde ou com educação.

A diferença no custo também é grande. Desde 2020, os países em desenvolvimento tomaram empréstimos com juros de duas a quatro vezes maiores que os pagos pelos Estados Unidos, de acordo com a UNCTAD. Enquanto isso, nas economias ricas, a fatura também cresceu: segundo o IIF, elas pagaram mais de US$ 3,5 trilhões em juros no último ano. Por isso, o FMI defende um ajuste urgente, crível e feito em etapas nas contas públicas de todos os grupos de países.

Onde o Brasil está no ranking da dívida pública?

O Brasil fica fora do top 10, mas o número depende de quem faz a conta. Pela metodologia do FMI, a dívida bruta brasileira deve chegar a 93,3% do PIB em 2026, segundo o Meio. Pelo cálculo do Banco Central, que usa outro critério, ela estava em 82,9% do PIB em agosto, ou R$ 11,1 trilhões, como mostra o texto sobre a dívida pública brasileira. A diferença vem principalmente da forma de contar os títulos que estão com o próprio Banco Central.

Dívida pública mundial e o Brasil: prédio do Ministério da Fazenda, em Brasília
Prédio do Ministério da Fazenda, em Brasília. Foto: Pillar Pedreira/Agência Senado (CC BY 2.0)

O ponto fraco brasileiro é o custo. Com a Selic em 13,75% ao ano, o setor público gastou R$ 1,182 trilhão com juros em 12 meses até agosto, o equivalente a 8,86% do PIB e a mais de R$ 3 bilhões por dia, segundo dados do Banco Central divulgados pela Agência Brasil. Ou seja, o Brasil deve proporcionalmente menos que o Japão ou os EUA, mas paga juros bem mais altos. A lógica do crédito, que move governos e famílias, também aparece no texto sobre por que você trabalha a vida inteira e nunca fica rico.

A dívida pública mundial passou de US$ 100 trilhões porque quase todos os governos gastam mais do que arrecadam e rolam a conta com novos empréstimos. Enquanto os juros estavam baixos, isso custava pouco. Agora, com juros mais altos, quem deve muito e paga caro tem menos dinheiro para todo o resto.

O Resenha Rentável contou como o dinheiro, o crédito e as dívidas dos governos chegaram até aqui. Veja o vídeo:

Pedro Paracampos

Roteirista e produtor. Chamado pela imprensa de “prodígio do cinema”. Cofundador do Resenha Rentável.

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