Economia

Furacão Isaías pode deixar o diesel mais caro no Brasil?

A tempestade parou quase 70% do petróleo do Golfo do México e ameaçou refinarias americanas. Veja por que isso importa para quem abastece no Brasil.

Redação 5 min de leitura
Foto: NOAA (domínio público)

O furacão Isaías parou quase 70% da produção de petróleo do Golfo do México e ameaçou refinarias no sul dos Estados Unidos. A tempestade tocou terra na Flórida na noite de sexta-feira (9) e deixou pelo menos quatro mortos. Para o Brasil, o risco está no diesel. Nos últimos meses, os Estados Unidos viraram o maior fornecedor do diesel importado pelo país.

O assunto chega num momento ruim para os combustíveis. O barril de petróleo do tipo Brent já passava de US$ 100. A causa é a guerra com o Irã, como explicamos na matéria sobre o estreito de Ormuz. Além disso, os estoques americanos de diesel estão no nível mais baixo para esta época do ano desde 1982, segundo a CNN Brasil. Ou seja, qualquer tropeço na oferta pesa mais no preço.

O que aconteceu com o furacão Isaías?

O Isaías se formou no Golfo do México e chegou à categoria 3, com ventos de cerca de 190 km/h. Depois, perdeu força e tocou terra perto de Destin, no noroeste da Flórida. Era então um furacão de categoria 2, com ventos de cerca de 170 km/h, de acordo com a CBS News. Na madrugada de sábado (10), o Centro Nacional de Furacões dos EUA rebaixou o sistema para ciclone pós-tropical.

Mesmo assim, o estrago foi grande. Pelo menos quatro pessoas morreram, duas no Alabama e duas na Flórida. Duas delas foram atingidas por árvores que caíram sobre casas. Segundo a Fox Weather, mais de 900 mil clientes ficaram sem luz no Sudeste no começo de sábado. Na manhã deste domingo (11), ainda eram mais de 389 mil, segundo a CBS. O governo federal declarou emergência na Flórida, no Alabama e na Geórgia.

Furacão Isaías visto por satélite sobre o Golfo do México
O furacão Isaías na categoria 3, no Golfo do México, em 9 de outubro de 2026. Foto: CSU/CIRA e NOAA (domínio público)

Quanto petróleo o furacão Isaías tirou do mercado?

O Golfo do México responde por cerca de 15% do petróleo bruto produzido nos Estados Unidos, segundo a agência AP, citada pelo InfoMoney. Por segurança, as petroleiras fecharam poços e tiraram funcionários do mar antes da chegada da tempestade.

No sábado, cerca de 69% da produção diária de petróleo do Golfo e 57% da de gás natural estavam paradas. O dado é do órgão americano que regula a área, divulgado pela Reuters e publicado pela CNN Brasil. Além disso, equipes de 113 plataformas de produção foram retiradas, cerca de 30% das 371 plataformas com gente trabalhando na região. Na prática, a maior parte do petróleo tirado do mar nos EUA deixou de sair no fim de semana.

Plataforma de petróleo em alto-mar, como as evacuadas antes do furacão Isaías
Plataforma de petróleo em alto-mar com barco de apoio (imagem ilustrativa). Foto: GuavaTrain/Wikimedia Commons (CC0)

Por que as refinarias preocupam mais do que os poços?

O maior risco não está no petróleo cru, e sim no combustível pronto. Duas refinarias ficaram no caminho do Isaías: a da Chevron em Pascagoula, no Mississippi, e a da Vertex em Mobile, no Alabama. Juntas, elas processam 466 mil barris por dia, cerca de 2,4% da capacidade de refino dos EUA, segundo a CNN Brasil.

Para os analistas ouvidos pela CNN, a falta de energia é a maior ameaça. Mesmo sem estrago, uma refinaria pode levar até duas semanas para voltar a funcionar por completo. “Inundações severas podem deixar uma refinaria fora de operação por meses”, afirmou à emissora o analista Lipow, que acompanha o setor de refino. Por outro lado, as grandes refinarias da Louisiana devem escapar do pior da tempestade.

Os preços nos postos americanos já estavam altos. Na sexta-feira, o galão de diesel custava em média US$ 6,28 nos EUA, cerca de US$ 1,66 por litro. O dado é da associação de motoristas AAA, citada pelo InfoMoney. Enquanto isso, o Brent fechou a sexta em alta, a US$ 104,72. O mercado estava de olho no furacão, de acordo com a Reuters, reproduzida pelo GV Wire.

O furacão Isaías afeta o preço do diesel no Brasil?

Pode afetar, mas por um caminho indireto. O Brasil produz a maior parte do diesel que consome, mas não tudo. De janeiro a agosto de 2026, as importações cobriram cerca de 22% do consumo, segundo levantamento do O Especialista, do Banco Safra. No acumulado do ano, a Rússia ainda lidera as vendas ao Brasil, com 51% do volume importado.

Nos meses mais recentes, porém, o jogo virou. Os Estados Unidos responderam por 66% do diesel importado pelo Brasil em julho e por 58% em agosto, segundo o mesmo levantamento. Por isso, se refinarias americanas pararem, sobra menos diesel para exportar e o produto fica mais caro no mercado internacional. Mesmo assim, o Safra afirma que não há sinal de falta imediata de diesel no Brasil.

Imagem de satélite do furacão Isaías chegando à costa da Flórida
O Isaías se aproxima da costa da Flórida, horas antes de tocar terra. Foto: CSU/CIRA e NOAA (domínio público)

O que o governo brasileiro já fez com os combustíveis?

O preço do diesel já pesava no bolso antes do Isaías. Em setembro, o litro do diesel S10 chegou a R$ 7,33 em média nos postos, segundo a ANP, como registrou o BP Money. O tema foi detalhado na matéria sobre o preço do diesel.

Na sexta-feira (9), o governo ampliou a ajuda ao combustível importado. A subvenção ao diesel que vem de fora ganhou mais R$ 1,40 por litro, além dos R$ 2,12 já previstos, segundo a Agência Brasil. No mesmo pacote, os tributos federais sobre a gasolina foram zerados por 30 dias, como mostramos em gasolina vai baixar?.

No fim das contas, o efeito do furacão Isaías no Brasil depende do que acontecer nas refinarias americanas nos próximos dias. Se elas voltarem rápido, o susto passa com poucos centavos de alta lá fora, segundo o analista Carl Larry, da Enverus, ouvido pela AP. Se ficarem paradas por semanas, o diesel importado encarece. E o mercado já está apertado pela guerra no Oriente Médio e pelos ataques dos houthis à Arábia Saudita.

Redação

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