Biografias

David Vélez se irritou numa agência e criou o Nubank

O colombiano que fugiu da violência de Medellín virou bilionário no Brasil vendendo um cartão roxo sem anuidade. Hoje, o banco dele tem 139 milhões de clientes.

Redação 6 min de leitura
Foto: Nubank/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

David Vélez é o colombiano que fundou o Nubank em 2013, depois de passar meses tentando abrir uma conta num banco tradicional de São Paulo. Treze anos depois, o banco digital tem cerca de 139 milhões de clientes no Brasil, no México e na Colômbia. Segundo a Forbes Colômbia, a fortuna de Vélez era estimada em US$ 14,5 bilhões em março de 2026.

A trajetória dele explica boa parte da mudança no jeito como o brasileiro usa o banco. Antes dos bancos digitais, abrir uma conta costumava exigir ida à agência, porta giratória e tarifas. Além disso, a história de Vélez mostra como um estrangeiro sem experiência em banco de varejo achou uma brecha que os gigantes do setor não viram.

Quem é David Vélez e de onde ele veio?

David Vélez nasceu em Medellín, na Colômbia, em 1981, numa família de pequenos empresários. Segundo a Stanford GSB, o pai tinha uma fábrica de botões, e quase todos os tios também tinham negócios próprios. Na época, a cidade vivia a guerra do narcotráfico. Depois que um tio foi sequestrado, a família deixou tudo para trás e se mudou para a Costa Rica, onde o pai abriu outra fábrica.

Na Costa Rica, Vélez se destacou na escola. Em seguida, foi para os Estados Unidos estudar em Stanford, onde se formou em engenharia em 2005 e fez MBA, concluído em 2012. Antes do MBA, trabalhou nos bancos de investimento Morgan Stanley e Goldman Sachs. Depois, passou para o lado de quem investe em empresas, na General Atlantic e na Sequoia Capital, com foco no Brasil.

David Vélez, fundador do Nubank, no Web Summit Rio
David Vélez no palco principal do Web Summit Rio, em maio de 2023. Foto: Web Summit Rio/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Como David Vélez chegou ao Brasil?

Vélez chegou a São Paulo em 2012, com cerca de 30 anos, contratado por Douglas Leone para montar a operação da Sequoia no país. Porém, a aventura durou pouco. Segundo reportagem da Forbes reproduzida pela Forbes Argentina, Leone ligou em 1º de outubro daquele ano para avisar que a Sequoia tinha desistido do Brasil.

Com isso, Vélez ficou sem o emprego que o tinha trazido ao país. Mesmo assim, ele já tinha uma ideia na cabeça. Durante os meses em São Paulo, ele percebeu que os brasileiros pagavam caro por serviços bancários simples e eram mal atendidos. Ou seja, havia um mercado enorme insatisfeito, dominado por poucos bancos.

Que agência bancária irritou o fundador do Nubank?

A história é contada pelo próprio Vélez. Segundo a Bloomberg Línea, em 2012 o celular dele disparou o detector de metais da porta giratória de uma agência, e seguranças armados o cercaram. Depois, vieram meses de burocracia e várias visitas para conseguir abrir a conta. Mais tarde, ele comparou a segurança da agência à de uma prisão.

À revista colombiana Semana, ele resumiu a experiência numa frase reproduzida pelo Pulzo: “Fui tratado como um criminoso” (em tradução do espanhol). Na mesma entrevista, disse que aquela não era a forma de tratar um consumidor. Foi dessa irritação que saiu a proposta do Nubank: um banco sem agência, sem porta giratória e sem fila.

“Fui tratado como um criminoso.”

David Vélez, à revista Semana, sobre a tentativa de abrir conta em São Paulo, em 2012

Como o Nubank começou numa casa alugada?

O Nubank foi fundado em maio de 2013, em São Paulo, por Vélez, pela brasileira Cristina Junqueira e pelo americano Edward Wible. O primeiro escritório foi uma casa alugada em São Paulo, onde Wible morava no andar de cima. Para começar, Vélez levantou US$ 1 milhão com Leone e ex-colegas da Sequoia, e a gestora argentina Kaszek colocou outro US$ 1 milhão, segundo a Forbes.

O primeiro produto, lançado em 2014, foi o cartão de crédito roxo, sem anuidade e controlado por aplicativo. Em agosto daquele ano, a Sequoia liderou uma rodada de US$ 15 milhões. Depois, em dezembro de 2016, a gestora de Yuri Milner liderou outra, de US$ 80 milhões. Enquanto isso, os grandes bancos deram pouca atenção ao novato. Para Vélez, “foi uma bênção ser ignorado”, segundo a Bloomberg Línea.

David Vélez, fundador do Nubank, em palestra no Rio
O fundador do Nubank durante a abertura do Web Summit Rio de 2023. Foto: Web Summit Rio/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Quanto vale o Nubank hoje?

O Nubank estreou na Bolsa de Nova York em 9 de dezembro de 2021, a US$ 9 por ação. Na abertura, valia US$ 41,7 bilhões, mais do que o Itaú na B3, segundo o Mercado & Consumo. Na época, virou o banco mais valioso da América Latina.

Hoje, os números são de gigante. No segundo trimestre de 2026, o banco teve lucro de US$ 1,1 bilhão, o primeiro trimestre acima de US$ 1 bilhão da sua história, segundo o balanço da Nu Holdings. A receita chegou a quase US$ 5,9 bilhões, e o Brasil soma quase 118 milhões de clientes. Em maio, o banco também fechou acordo para dar nome ao estádio do Palmeiras, o Nubank Parque, por cerca de R$ 50 milhões por ano, segundo o Jornal Opção.

“Isso não é mais uma hipótese, e agora geramos mais de 1 bilhão de dólares de lucro líquido por trimestre.”

David Vélez, no balanço do segundo trimestre de 2026

O próximo passo é nos Estados Unidos. Em 29 de janeiro de 2026, o regulador americano OCC deu aprovação condicional para o Nubank abrir um banco nacional no país, que ainda depende do aval do FDIC e do Fed. Vélez chama essa expansão de “terceiro ato” da estratégia, segundo a Bloomberg Línea.

Aplicativo do Nubank, a empresa de David Vélez
Área do Pix no aplicativo do Nubank, em dezembro de 2023. Foto: Nubank/Wikimedia Commons (domínio público)

Qual é o patrimônio de David Vélez?

Segundo a Forbes Colômbia, David Vélez tinha US$ 14,5 bilhões em 1º de março de 2026, alta de 35,5% em um ano. Com isso, ele é o segundo homem mais rico da Colômbia, atrás de Jaime Gilinski. Quase toda a fortuna vem das ações do Nubank. Além disso, ele controla cerca de 75% dos votos da empresa por meio de ações com supervoto, guardadas numa holding chamada Rua California.

Em 2021, Vélez e a mulher, Mariel Reyes, assinaram o Giving Pledge, o compromisso de doar a maior parte da fortuna, e criaram a VélezReyes+, voltada à América Latina. Para entender como outros brasileiros e estrangeiros montaram grandes fortunas no país, veja a história de Guilherme Benchimol, da XP, e a de Jorge Paulo Lemann.

A trajetória de David Vélez junta um problema comum, uma fila de banco, com a decisão de resolver o problema em vez de só reclamar dele. O menino que deixou Medellín por causa da violência virou o dono de um dos bancos mais valiosos da América Latina sem nunca abrir uma agência.

Redação

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