Economia

Isaac Newton na Casa da Moeda: o cientista que caçava falsários

O pai da física passou 31 anos cuidando do dinheiro da Inglaterra, trocou moedas raspadas, mandou falsificadores para a forca e ainda perdeu dinheiro numa bolha. Mas não foi ele quem inventou a borda serrilhada.

Pedro Paracampos 6 min de leitura
Foto: Godfrey Kneller/Wikimedia Commons (domínio público)

Isaac Newton passou os últimos 31 anos da vida na Casa da Moeda da Inglaterra, a Royal Mint. Entrou em 1696 como diretor, virou o chefe máximo da instituição em 1699 e ficou no cargo até morrer, em março de 1727, segundo o Royal Mint Museum. Nesse tempo, o homem da gravidade comandou a troca de todo o dinheiro de prata do país e mandou falsificadores para a forca.

A história costuma vir acompanhada de uma lenda: a de que Newton inventou a borda serrilhada das moedas para acabar com quem raspava o metal. A borda existe por esse motivo, mas ela é mais antiga do que a chegada dele. Por isso, vale contar a história do jeito que ela aconteceu, porque o problema que Newton enfrentou explica bem uma ideia central da economia: dinheiro só funciona quando as pessoas confiam nele.

Por que as moedas eram raspadas?

Até o século 17, as moedas inglesas eram de prata de verdade e feitas a martelo. Cada uma valia o metal que tinha. Assim, quem raspava um pouquinho da borda de cada moeda juntava a prata, vendia e ainda pagava as contas com a moeda raspada. Segundo a American Physical Society, as moedas batidas antes de 1662 eram raspadas com frequência, o que reduzia o peso e o valor delas.

Moeda raspada do tempo anterior a Isaac Newton na Casa da Moeda
Xelim de prata do rei Jaime I, feito a martelo e com a borda raspada. Foto: Lydia Prosser/The Portable Antiquities Scheme (CC BY 2.0)

Na prática, isso era uma espécie de inflação feita à mão, um tema que aparece na matéria sobre por que você trabalha a vida inteira e nunca fica rico. Com o tempo, ninguém sabia quanto metal havia em cada moeda, e o comércio sofria. Além disso, havia os falsificadores. O próprio Newton estimou que até 20% das moedas recolhidas na grande troca de dinheiro dos anos 1690 eram falsas, segundo a APS.

Isaac Newton inventou a borda serrilhada?

Não. A Inglaterra passou a fabricar moedas com máquinas e com a borda marcada a partir da década de 1660, segundo a Royal Mint. As moedas maiores receberam na borda a frase em latim Decus et Tutamen, “um ornamento e uma proteção”. Ou seja, qualquer raspagem ficava visível na hora, e a moeda perdia a confiança de quem a recebia.

Coroa de prata cunhada em 1696, ano em que Isaac Newton chegou à Casa da Moeda
Coroa de prata de Guilherme III cunhada em 1696, com letras gravadas na borda. Foto: Rod Trevaskus/Birmingham Museums Trust (CC BY 2.0)

O papel de Newton foi outro, e também importante. Quando ele chegou, o país ainda estava cheio de moedas antigas, feitas a martelo e raspadas. Então, ele ajudou a comandar a troca de todo esse dinheiro velho por moedas novas, feitas a máquina. Desse modo, as moedas raspadas foram saindo de circulação, substituídas por moedas com a borda protegida.

Como Isaac Newton foi parar na Casa da Moeda?

Newton era professor em Cambridge e já tinha publicado as leis do movimento e da gravidade. Em março de 1696, recebeu o convite de Charles Montague, chanceler do Tesouro, para ser Warden (diretor) da Casa da Moeda, que funcionava na Torre de Londres, segundo o Royal Mint Museum. Ele assumiu em abril daquele ano.

O salto no salário ajuda a entender a mudança. Segundo o matemático Andrew Odlyzko, na revista Physics Today, o cargo em Cambridge pagava cerca de 100 libras por ano. Já na Casa da Moeda, salário e participação na produção de moedas renderam, em média, perto de 2.000 libras por ano. Depois, no Natal de 1699, ele virou Master, o chefe da instituição, algo que nenhum Warden tinha conseguido antes, segundo o Science Museum.

Linha do tempo de Isaac Newton na Casa da Moeda

Como Newton caçava os falsificadores?

Na Inglaterra da época, falsificar moeda era crime de alta traição, punido com a forca. Newton levou a tarefa a sério: ele mesmo interrogava suspeitos e informantes, de acordo com o Royal Mint Museum. Como juiz de paz, fez mais de 100 interrogatórios e conseguiu 28 condenações, segundo a American Physical Society.

O caso mais famoso foi o de William Chaloner, um falsário que tinha sido preso por roubo em 1690. Newton o prendeu em setembro de 1697, mas ele foi absolvido. Depois, o cientista juntou oito testemunhas e o levou de novo a julgamento, por falsificar moedas francesas e coroas inglesas. Chaloner foi condenado e enforcado em 16 de março de 1699, segundo a APS.

Como ficou o dinheiro inglês depois da recunhagem?

A troca das moedas velhas terminou em três anos, com a ajuda de casas da moeda provisórias espalhadas pelo país, segundo o Royal Mint Museum. Em 1710, as moedas de ouro de Newton foram reprovadas num teste oficial de pureza. No entanto, ele provou que o padrão usado na comparação estava errado, e o Science Museum lembra que a Casa da Moeda saiu dali com fama de fazer as moedas mais precisas do mundo.

Em 1717, outro trabalho dele mexeu com o sistema. Um relatório de Newton, de 21 de setembro daquele ano, levou o governo a fixar o guinéu, a moeda de ouro, em 21 xelins. Com o tempo, o sistema com duas moedas de metal se mostrou difícil de manter, e a Inglaterra acabou adotando o padrão-ouro, em que o valor do dinheiro fica preso a uma quantidade de ouro.

Newton perdeu dinheiro na bolsa?

Perdeu, mas não ficou pobre. Em 1720, ações da Companhia dos Mares do Sul (South Sea Company) dispararam e depois desabaram. Segundo Odlyzko, Newton vendeu as ações em abril com lucro, voltou a comprar quando a bolha ainda inflava e tinha quase toda a fortuna aplicada nelas na queda de setembro. O patrimônio dele caiu de pouco mais de 30 mil libras para cerca de 20 mil em meados de 1721.

Retrato de Isaac Newton em 1702, já à frente da Casa da Moeda
Retrato de Isaac Newton pintado por Godfrey Kneller em 1702, quando ele já cuidava da Casa da Moeda. Foto: Wikimedia Commons (CC0), retrato de Godfrey Kneller na National Portrait Gallery

A frase atribuída a ele, de que conseguia calcular o movimento dos astros, mas não a loucura das pessoas, aparece em muitos livros. Porém, nem Odlyzko nem a Universidade de Oxford, no projeto Newton and the Mint, apontam uma fonte original para ela. Por isso, ela deve ser lida como anedota.

No fim, a passagem de Newton pela Casa da Moeda mostra que a confiança no dinheiro precisa de proteção física, de fiscalização e de regras claras. Já a perda na bolha de 1720 lembra que nem um gênio escapa da euforia do mercado, algo que se repetiu em crises como a de 2008.

A história das moedas raspadas aparece no vídeo do Resenha Rentável sobre a história do dinheiro:

Pedro Paracampos

Roteirista e produtor. Chamado pela imprensa de “prodígio do cinema”. Cofundador do Resenha Rentável.

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