Economia

Desenrola 3.0 chama bancos para leilão de R$ 90 bi em dívidas

O governo abriu a seleção de credores que querem vender dívidas antigas de cartão e crédito pessoal com desconto mínimo de 90%. Veja quem pode ser atendido e o que o devedor precisa fazer agora.

Redação 5 min de leitura
Foto: Dave Garcia/Pexels (licença Pexels)

O Desenrola 3.0 deu nesta quinta-feira (22) o primeiro passo para comprar dívidas antigas dos brasileiros: o Ministério da Fazenda abriu a seleção de bancos, financeiras e fundos que querem vender carteiras de até R$ 90 bilhões em dívidas, com desconto mínimo de 90%. Depois, o governo vai repassar esse desconto a quem deve.

A medida importa porque mira um tipo de dívida que quase ninguém consegue pagar sozinho: a que está atrasada há mais de dois anos. Segundo a Agência Brasil, o país tinha 83,9 milhões de pessoas negativadas em agosto de 2026, com R$ 592 bilhões em dívidas atrasadas. Por isso, o governo aposta num modelo novo, em que a própria União compra a dívida no lugar de esperar que banco e cliente cheguem a um acordo.

O que o Desenrola 3.0 anunciou nesta quinta?

O ministério publicou o chamamento para credores, uma espécie de convite formal. Segundo a Radioagência Nacional, bancos, instituições financeiras e fundos de investimento em direitos creditórios (os FIDCs, que compram dívidas de terceiros) têm cinco dias úteis, até 30 de outubro, para informar quanto querem oferecer. Além disso, quem se inscrever precisa aceitar o desconto mínimo de 90% sobre o valor original.

Essa etapa ainda não é o leilão. Na prática, o governo quer saber o tamanho do estoque antes de decidir quanto vai comprar em cada faixa de renda. Segundo a Agência Brasil, o leilão está previsto para novembro, mas pode ficar para o começo de dezembro. Enquanto isso, o governo não é obrigado a comprar todas as carteiras oferecidas.

Quanto o governo vai gastar com o leilão?

A conta máxima é de R$ 9 bilhões. Isso porque, se o governo comprar os R$ 90 bilhões com o desconto mínimo, pagará no máximo 10% do valor. “De partida a gente saberia que no máximo consumiriam R$ 9 bilhões”, disse o secretário-executivo da Fazenda, Rogério Ceron, segundo a Agência Brasil.

O desconto, porém, pode ser maior. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que, dependendo das carteiras recebidas, o governo pode exigir mais no leilão e até conseguir “descontos ainda maiores”. Ou seja, quanto mais bancos quiserem vender, maior tende a ser a disputa por preço.

“A gente pode exigir desconto de 93%, 95% no leilão.”

Dario Durigan, ministro da Fazenda, em 21 de outubro de 2026

Quais dívidas entram no Desenrola 3.0?

As regras são mais estreitas que as das fases anteriores. Segundo a Agência Brasil, entram dívidas de pessoas físicas e de microempreendedores individuais (MEIs) de até R$ 10 mil no valor original. Além disso, o atraso precisa estar entre 720 e 1.645 dias, ou seja, entre dois e quatro anos e meio, contados a partir de 25 de setembro de 2026, quando a medida provisória foi editada.

Cartões de crédito: dívidas antigas no cartão podem entrar no Desenrola 3.0
Dívidas de cartão de crédito, no rotativo ou parceladas, estão entre as que podem entrar no leilão (imagem ilustrativa). Foto: Dave Garcia/Pexels (licença Pexels)

Quanto ao tipo, valem as dívidas de cartão de crédito, no rotativo ou parceladas, e o crédito pessoal sem desconto em folha (o consignado fica de fora). O foco são os devedores de renda mais baixa e os MEIs. No entanto, se o volume nessas faixas ficar abaixo do esperado, o governo pode comprar dívidas de quem ganha mais. “Nosso foco são faixas de renda menores”, afirmou Durigan.

Quanto o devedor vai pagar no novo Desenrola?

A ideia é que o desconto conseguido no leilão chegue inteiro ao devedor. Por exemplo, a Agência Brasil calculou que uma dívida de R$ 10 mil comprada com o desconto mínimo de 90% vira uma renegociação de R$ 1 mil. Depois, o cliente poderá quitar à vista ou parcelar, com juros no parcelamento.

Notas de real: com o desconto mínimo, o Desenrola 3.0 pode transformar R$ 10 mil em R$ 1 mil
Notas de R$ 100: pelo Desenrola 3.0, uma dívida de R$ 10 mil pode cair para R$ 1 mil com o desconto mínimo. Foto: Daniel Dan/Pexels (licença Pexels)

Por enquanto, faltam detalhes importantes. Prazos, taxas de juros e regras de atendimento ainda dependem do Conselho Monetário Nacional (CMN), o órgão que regula o crédito no país. Assim, ainda não dá para saber em quantas parcelas será possível pagar nem onde o devedor vai fechar o acordo.

O que muda em relação às outras fases?

Nas duas primeiras fases, banco e cliente negociavam direto. Segundo a Agência Brasil, a primeira atendeu 15 milhões de pessoas e renegociou R$ 53 bilhões; a segunda, mais 10 milhões de pessoas e R$ 22 bilhões. Essa segunda fase, lançada em maio de 2026, aceitava dívidas com atraso de 90 dias a dois anos e permitia usar o FGTS, de acordo com a CNN Brasil.

O Desenrola 3.0 olha para as dívidas mais velhas, que os bancos já consideram difíceis de receber. Por isso, eles podem aceitar vender por uma fração do valor. Quando lançou o programa, em setembro, o governo estimou até R$ 150 bilhões em dívidas elegíveis e até 15 milhões de pessoas beneficiadas. A primeira chamada, de até R$ 90 bilhões, é a parte que os credores podem colocar na mesa agora.

Preciso fazer alguma coisa agora?

Não. O chamamento desta quinta é só para os credores. “O chamado que sai publicado amanhã é para os credores, não para as pessoas físicas nem para os MEIs”, disse Durigan na quarta-feira (21), segundo o Repórter Maceió. O governo ainda vai divulgar como o devedor será atendido.

Por isso, mensagens que pedem pagamento ou dados pessoais para “garantir vaga” no programa merecem desconfiança. Se cair num golpe, o guia do blog sobre o golpe do Pix explica o que fazer nos primeiros minutos. Para mais contexto, vale ler também o explicador sobre quem pode limpar o nome no Desenrola 3.0 e a reportagem sobre o Desenrola MEI.

Em resumo, o leilão só acontece depois que os bancos mostrarem quanto querem vender, até 30 de outubro. Se tudo seguir o calendário, a compra sai entre novembro e dezembro, e só então os devedores com dívidas de dois a quatro anos e meio saberão quanto vão pagar.

Redação

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