Como Singapura ficou rica sendo uma ilha sem recursos naturais
Em 1965, a ilha tinha desemprego alto, nenhuma indústria e dependia dos vizinhos até para beber água. Seis décadas depois, cada habitante produz quase nove vezes mais que um brasileiro.

Singapura ficou rica apostando no que tinha, e não no que faltava: uma posição estratégica no meio das rotas de navegação da Ásia, um porto, um governo que atraiu multinacionais e um investimento pesado em educação e moradia. Em 1965, a ilha tinha cerca de US$ 500 de produção por habitante. Em 2026, o FMI projeta mais de US$ 109 mil.
A virada chama atenção porque Singapura não tem petróleo, minério nem terra para plantar. Em 1965, a ilha media 580 quilômetros quadrados na maré baixa e dependia do exterior para comida, energia e até água, segundo um discurso de Ravi Menon, então diretor da Autoridade Monetária de Singapura, o banco central do país. Por isso, o caso virou referência para quem tenta entender por que alguns países saem da pobreza em poucas décadas e outros não.
Como era Singapura em 1965?
Era um país que quase ninguém achava viável. Singapura entrou na Federação da Malásia em 1963 e saiu dela dois anos depois, expulsa, de acordo com a Biblioteca Nacional de Singapura. Ao anunciar a separação na televisão, o primeiro-ministro Lee Kuan Yew chamou aquele de “um momento de angústia”.
O ponto de partida era duro. Segundo Ravi Menon, o desemprego beirava 9%, as greves eram comuns e a renda por habitante estava no nível do México e da África do Sul. Além disso, o próprio Lee tinha dito, em 1957, que a ideia de uma Singapura independente era um absurdo político, econômico e geográfico.

Qual foi a estratégia de Singapura para enriquecer?
A primeira escolha foi abrir as portas para empresas estrangeiras. Em vez de proteger uma indústria nacional que não existia, o governo passou a atrair multinacionais para fabricar na ilha e exportar para o mundo, explicou Menon. Para isso, ofereceu terrenos industriais, infraestrutura, mudanças nas leis trabalhistas e escolas com foco em formação técnica.
O órgão central desse plano já existia antes da independência. Em 1º de agosto de 1961, o governo criou o Conselho de Desenvolvimento Econômico (EDB, na sigla em inglês), responsável por ir atrás de investidores, segundo o verbete da Wikipédia sobre a economia do país. Com isso, a indústria saiu de 14% do PIB em 1965 para 22% em 1975. Ao mesmo tempo, contas públicas e moeda sob controle deram confiança a quem colocava dinheiro ali.
Quanto Singapura cresceu desde a independência?
O ritmo foi de país em guerra contra a pobreza. Entre 1965 e 1984, a economia cresceu cerca de 10% ao ano. Depois, entre 1985 e 2010, a média ficou em 6,7% ao ano, segundo o discurso de Menon no banco central. Assim, a renda por habitante passou de cerca de US$ 500 em 1965 para cerca de US$ 13 mil em 1990 e US$ 56 mil em 2015.
Hoje, a comparação com o Brasil impressiona. Pela edição de outubro de 2026 do World Economic Outlook do FMI, compilada pelo Worldometer, o PIB por habitante de Singapura deve ficar em US$ 109.117 neste ano, contra US$ 95.212 dos Estados Unidos e US$ 12.397 do Brasil. Ou seja, cada morador da ilha produz, em média, quase nove vezes mais que um brasileiro.
Por que o porto de Singapura é tão importante?
O porto é a vantagem que a geografia deu. Singapura fica no Estreito de Malaca, a passagem natural entre o Oceano Índico e o Pacífico para os navios que ligam a Ásia ao Oriente Médio e à Europa. Por isso, o país transformou o porto no motor da economia.
Em 2025, o porto movimentou 44,66 milhões de contêineres-padrão (a unidade TEU, que equivale a uma caixa de 20 pés), alta de 8,6% sobre 2024, segundo a Autoridade Marítima e Portuária de Singapura. No mesmo ano, as vendas de combustível para navios bateram 56,77 milhões de toneladas. Na prática, a ilha vive de receber navios para abastecer e trocar carga: as embarcações que chegaram em 2025 somaram 3,22 bilhões de toneladas brutas, também um recorde.
Como Singapura resolveu a moradia e a corrupção?
Dois pilares menos visíveis ajudam a explicar como Singapura ficou rica. O primeiro é a moradia pública. Segundo o relatório de estatísticas do HDB, a autoridade de habitação do país, 76% dos moradores permanentes viviam em apartamentos construídos pelo Estado em março de 2025, e 73% moravam em unidades compradas, não alugadas. Ou seja, a maioria da população virou dona do próprio imóvel.

O segundo pilar é o combate à corrupção, que pesa na decisão de qualquer investidor estrangeiro. No Índice de Percepção da Corrupção de 2025, da Transparência Internacional, Singapura ficou em 3º lugar entre 182 países, com 84 pontos, e em 1º na Ásia-Pacífico, segundo o órgão anticorrupção do país.
O que o resto do mundo tira do caso de Singapura?
A primeira lição é que a falta de recursos naturais não condena um país. Como o blog mostrou em por que a Suíça é tão rica e em como a Coreia do Sul ficou rica, estabilidade, educação e abertura ao comércio aparecem em quase todas as histórias de enriquecimento rápido.
Mesmo assim, copiar o modelo não é simples. Singapura é uma cidade-Estado com cerca de 6 milhões de habitantes, segundo a Wikipédia, e muitas das soluções dela funcionam pela escala pequena. Além disso, a riqueza tem custo: a ilha aparece com frequência entre as cidades mais caras do mundo para viver.
Lee Kuan Yew comandou o país como primeiro-ministro de 1959 a 1990 e morreu em 2015, aos 91 anos, segundo o jornal Malay Mail. A ilha que ele achava inviável tem hoje uma das maiores rendas por habitante do planeta, construída com porto, fábricas estrangeiras, casa própria e regras claras para quem investe.

Roteirista e produtor. Chamado pela imprensa de “prodígio do cinema”. Cofundador do Resenha Rentável.
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