Geopolítica

Como Singapura ficou rica sendo uma ilha sem recursos naturais

Em 1965, a ilha tinha desemprego alto, nenhuma indústria e dependia dos vizinhos até para beber água. Seis décadas depois, cada habitante produz quase nove vezes mais que um brasileiro.

Pedro Paracampos 5 min de leitura
Foto: Nicolas Lannuzel/Flickr (CC BY-SA 2.0)

Singapura ficou rica apostando no que tinha, e não no que faltava: uma posição estratégica no meio das rotas de navegação da Ásia, um porto, um governo que atraiu multinacionais e um investimento pesado em educação e moradia. Em 1965, a ilha tinha cerca de US$ 500 de produção por habitante. Em 2026, o FMI projeta mais de US$ 109 mil.

A virada chama atenção porque Singapura não tem petróleo, minério nem terra para plantar. Em 1965, a ilha media 580 quilômetros quadrados na maré baixa e dependia do exterior para comida, energia e até água, segundo um discurso de Ravi Menon, então diretor da Autoridade Monetária de Singapura, o banco central do país. Por isso, o caso virou referência para quem tenta entender por que alguns países saem da pobreza em poucas décadas e outros não.

Como era Singapura em 1965?

Era um país que quase ninguém achava viável. Singapura entrou na Federação da Malásia em 1963 e saiu dela dois anos depois, expulsa, de acordo com a Biblioteca Nacional de Singapura. Ao anunciar a separação na televisão, o primeiro-ministro Lee Kuan Yew chamou aquele de “um momento de angústia”.

O ponto de partida era duro. Segundo Ravi Menon, o desemprego beirava 9%, as greves eram comuns e a renda por habitante estava no nível do México e da África do Sul. Além disso, o próprio Lee tinha dito, em 1957, que a ideia de uma Singapura independente era um absurdo político, econômico e geográfico.

Lee Kuan Yew, o primeiro-ministro que comandou como Singapura ficou rica
Lee Kuan Yew, primeiro-ministro de Singapura de 1959 a 1990, em encontro oficial com o presidente sul-coreano Lee Myung-bak, em 2010. Foto: Korea.net/Flickr (CC BY-SA 2.0)

Qual foi a estratégia de Singapura para enriquecer?

A primeira escolha foi abrir as portas para empresas estrangeiras. Em vez de proteger uma indústria nacional que não existia, o governo passou a atrair multinacionais para fabricar na ilha e exportar para o mundo, explicou Menon. Para isso, ofereceu terrenos industriais, infraestrutura, mudanças nas leis trabalhistas e escolas com foco em formação técnica.

O órgão central desse plano já existia antes da independência. Em 1º de agosto de 1961, o governo criou o Conselho de Desenvolvimento Econômico (EDB, na sigla em inglês), responsável por ir atrás de investidores, segundo o verbete da Wikipédia sobre a economia do país. Com isso, a indústria saiu de 14% do PIB em 1965 para 22% em 1975. Ao mesmo tempo, contas públicas e moeda sob controle deram confiança a quem colocava dinheiro ali.

Quanto Singapura cresceu desde a independência?

O ritmo foi de país em guerra contra a pobreza. Entre 1965 e 1984, a economia cresceu cerca de 10% ao ano. Depois, entre 1985 e 2010, a média ficou em 6,7% ao ano, segundo o discurso de Menon no banco central. Assim, a renda por habitante passou de cerca de US$ 500 em 1965 para cerca de US$ 13 mil em 1990 e US$ 56 mil em 2015.

Hoje, a comparação com o Brasil impressiona. Pela edição de outubro de 2026 do World Economic Outlook do FMI, compilada pelo Worldometer, o PIB por habitante de Singapura deve ficar em US$ 109.117 neste ano, contra US$ 95.212 dos Estados Unidos e US$ 12.397 do Brasil. Ou seja, cada morador da ilha produz, em média, quase nove vezes mais que um brasileiro.

Por que o porto de Singapura é tão importante?

O porto é a vantagem que a geografia deu. Singapura fica no Estreito de Malaca, a passagem natural entre o Oceano Índico e o Pacífico para os navios que ligam a Ásia ao Oriente Médio e à Europa. Por isso, o país transformou o porto no motor da economia.

Em 2025, o porto movimentou 44,66 milhões de contêineres-padrão (a unidade TEU, que equivale a uma caixa de 20 pés), alta de 8,6% sobre 2024, segundo a Autoridade Marítima e Portuária de Singapura. No mesmo ano, as vendas de combustível para navios bateram 56,77 milhões de toneladas. Na prática, a ilha vive de receber navios para abastecer e trocar carga: as embarcações que chegaram em 2025 somaram 3,22 bilhões de toneladas brutas, também um recorde.

Como Singapura resolveu a moradia e a corrupção?

Dois pilares menos visíveis ajudam a explicar como Singapura ficou rica. O primeiro é a moradia pública. Segundo o relatório de estatísticas do HDB, a autoridade de habitação do país, 76% dos moradores permanentes viviam em apartamentos construídos pelo Estado em março de 2025, e 73% moravam em unidades compradas, não alugadas. Ou seja, a maioria da população virou dona do próprio imóvel.

Prédio de moradia pública do HDB, peça central de como Singapura ficou rica
Prédio de moradia pública do HDB em Upper Cross Street, no centro de Singapura. Foto: Nicolas Lannuzel/Flickr (CC BY-SA 2.0)

O segundo pilar é o combate à corrupção, que pesa na decisão de qualquer investidor estrangeiro. No Índice de Percepção da Corrupção de 2025, da Transparência Internacional, Singapura ficou em 3º lugar entre 182 países, com 84 pontos, e em 1º na Ásia-Pacífico, segundo o órgão anticorrupção do país.

O que o resto do mundo tira do caso de Singapura?

A primeira lição é que a falta de recursos naturais não condena um país. Como o blog mostrou em por que a Suíça é tão rica e em como a Coreia do Sul ficou rica, estabilidade, educação e abertura ao comércio aparecem em quase todas as histórias de enriquecimento rápido.

Mesmo assim, copiar o modelo não é simples. Singapura é uma cidade-Estado com cerca de 6 milhões de habitantes, segundo a Wikipédia, e muitas das soluções dela funcionam pela escala pequena. Além disso, a riqueza tem custo: a ilha aparece com frequência entre as cidades mais caras do mundo para viver.

Lee Kuan Yew comandou o país como primeiro-ministro de 1959 a 1990 e morreu em 2015, aos 91 anos, segundo o jornal Malay Mail. A ilha que ele achava inviável tem hoje uma das maiores rendas por habitante do planeta, construída com porto, fábricas estrangeiras, casa própria e regras claras para quem investe.

Pedro Paracampos

Roteirista e produtor. Chamado pela imprensa de “prodígio do cinema”. Cofundador do Resenha Rentável.

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