Qual a origem da Black Friday e como ela chegou ao Brasil
O nome nasceu no trânsito da Filadélfia, virou sinônimo de lucro para o varejo americano e desembarcou aqui em 2010 sob desconfiança. Hoje, só o comércio online fatura quase R$ 5 bilhões num único dia.

A origem da Black Friday está no trânsito, e não nas lojas. Nos anos 1960, a polícia da Filadélfia, nos Estados Unidos, chamava de “sexta-feira negra” o dia seguinte ao feriado de Ação de Graças, quando a cidade parava com multidões de compradores e carros. Só depois o varejo transformou o apelido no maior dia de promoções do ano.
O assunto volta todo novembro, e em 2026 a data cai em 27 de novembro, a sexta-feira depois do Dia de Ação de Graças americano, celebrado na quinta, dia 26. Além disso, a Black Friday deixou há muito tempo de ser coisa só dos Estados Unidos. No Brasil, o comércio eletrônico faturou R$ 4,76 bilhões em 24 horas na edição de 2025, segundo a Confi Neotrust. Entender de onde a data veio ajuda a entender por que ela funciona tão bem para quem vende e por que exige atenção de quem compra.
De onde vem o nome Black Friday?
Existem algumas versões, e nem todas são verdadeiras. Segundo a InfoMoney, o termo aparece em 1951 para falar de funcionários que faltavam ao trabalho no dia seguinte ao feriado para emendar quatro dias de folga. Porém, a versão que pegou veio da década de 1960, na Filadélfia.
Nessa época, a polícia da cidade não podia folgar na sexta depois da Ação de Graças. Os agentes trabalhavam em turnos de mais de 12 horas para controlar o caos de pedestres e carros no centro comercial. Por isso, chamavam o dia de “Black Friday”, no sentido de dia pesado, ruim. Depois, jornais e emissoras locais repetiram a expressão, e ela se espalhou pelo país.
Vale um detalhe curioso. Segundo a CNN Brasil, a expressão já tinha aparecido em 24 de setembro de 1869, no pânico da crise do ouro em Wall Street. Ou seja, por quase cem anos, “sexta-feira negra” foi sinônimo de desastre financeiro, e não de desconto.

A Black Friday tem ligação com a escravidão?
Não. Essa história circula todo ano nas redes, mas é falsa. Segundo a InfoMoney, a versão de que o nome viria de um suposto dia de venda de pessoas escravizadas não tem base histórica. Afinal, o termo surgiu quase um século depois do fim da escravidão nos Estados Unidos, no contexto do trânsito e do comércio.
Outra explicação famosa é a contábil, e ela tem fundo de verdade, embora tenha vindo depois. A partir dos anos 1980, o varejo americano passou a contar que a Black Friday era o dia em que as lojas saíam do “vermelho”, ou seja, do prejuízo, e entravam no “preto”, o lucro. Nos livros de contabilidade antigos, perdas eram anotadas com tinta vermelha e ganhos com tinta preta. Em português, seria o dia em que a conta da loja fica “no azul”.
Como a Black Friday virou o maior dia do varejo?
A ideia contábil ajudou a mudar a imagem da data. Em vez de dia de caos, a sexta virou o dia de abrir as portas mais cedo, com descontos fortes para atrair a multidão. Segundo a InfoMoney, esse sentido atual se firmou em 1981. Assim, a Black Friday passou a marcar o início oficial das compras de Natal.
Desde então, a data só cresceu, e a internet a multiplicou. Em 2025, os americanos gastaram US$ 11,8 bilhões em compras online só na Black Friday, um recorde e alta de 9,1% sobre o ano anterior, segundo a Adobe. Na segunda-feira seguinte, a chamada Cyber Monday, foram mais US$ 14,25 bilhões. Somando os cinco dias, do feriado até a segunda, o gasto online chegou a US$ 44,2 bilhões.
O modelo é parecido com o de outras datas que viraram negócio bilionário nos Estados Unidos, como o Halloween. Primeiro vem o costume, depois o comércio descobre como transformá-lo em vendas.
Quando a Black Friday chegou ao Brasil?
A data começou a ganhar forma aqui no fim dos anos 2000 e teve a primeira edição oficial em 2010, ainda restrita às lojas online, segundo o Money Times. A estreia não foi boa. Muitas lojas subiram os preços nos dias anteriores para depois anunciar descontos, a famosa prática da “metade do dobro”. Por isso, a data ganhou o apelido de “Black Fraude”, que aparece até hoje em alertas de defesa do consumidor, como os do Correio Braziliense.
Com o tempo, a pressão dos consumidores, dos Procons e do Reclame Aqui obrigou o varejo a mudar. Segundo o Money Times, as lojas passaram a planejar melhor os estoques e a profissionalizar a operação. Depois, chegaram os gigantes, como Amazon, Mercado Livre, Magazine Luiza e Casas Bahia, além das plataformas asiáticas Shopee, Shein e Temu, que mudaram o jogo das compras internacionais (o blog explicou essa disputa na matéria sobre a taxa das blusinhas).

Quanto a Black Friday movimenta no Brasil?
Os números mais citados são os do comércio eletrônico. Na sexta-feira de 2025, 28 de novembro, as lojas online faturaram R$ 4,76 bilhões, alta de 11,2% sobre 2024, segundo a Confi Neotrust, em dados publicados pela Exame. Ao todo, foram 8,69 milhões de pedidos, 28% a mais que no ano anterior.
Mesmo assim, o tíquete médio, que é o valor gasto por compra, caiu 12,8%, para R$ 553,60. Em outras palavras, o brasileiro comprou mais vezes, mas gastou menos em cada pedido. As categorias que mais faturaram foram televisores, celulares e geladeiras. Na prática, a Black Friday brasileira continua sendo, acima de tudo, o dia de comprar eletrônico e eletrodoméstico.
Como aproveitar a Black Friday sem cair em armadilha?
A regra número um é saber o preço antes. Quem anota agora quanto custa o produto desejado consegue perceber se o desconto de novembro é real ou se é a velha “metade do dobro”. Além disso, sites de comparação mostram o histórico de preços de muitos produtos.
Depois, vale desconfiar de ofertas boas demais em lojas desconhecidas e de links recebidos por mensagem, que costumam ser porta de entrada para golpes, como mostra a matéria sobre o golpe do Pix. Por fim, quem compra pela internet tem direito de desistir em até sete dias depois de receber o produto, segundo o artigo 49 do Código de Defesa do Consumidor.
A Black Friday nasceu como reclamação da polícia sobre o trânsito, virou sinônimo de lucro para o varejo americano e chegou ao Brasil cercada de desconfiança. Hoje, ela é uma das datas mais importantes do comércio brasileiro, e o consumidor que se prepara com antecedência é quem mais aproveita.

Diretor e produtor. Apontado pela imprensa como uma das jovens promessas de Hollywood. Cofundador do Resenha Rentável.
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