A história da IKEA, do menino que vendia fósforos ao império
Um garoto sueco de 17 anos, uma mesa que não cabia no carro e uma ideia simples: fazer o cliente montar o próprio móvel. Foi assim que nasceu a maior rede de móveis do mundo.

A história da IKEA começa em 1943, na Suécia, quando Ingvar Kamprad, então com 17 anos, registrou uma pequena empresa de vendas por catálogo. Oito décadas depois, a rede vendeu 44,6 bilhões de euros no ano fiscal de 2025 e recebeu 915 milhões de visitas nas lojas, segundo a Inter IKEA, dona da marca.
O caminho entre uma coisa e outra explica muito sobre como se ganha dinheiro no varejo. A IKEA não ficou gigante por vender o móvel mais bonito nem o mais resistente. Ela cresceu porque mudou quem faz o trabalho: o cliente escolhe, carrega e monta. Por isso, cada parte da operação foi desenhada para cortar custo, e esse corte vira preço baixo na etiqueta.
Quem foi Ingvar Kamprad, o fundador da IKEA?
Kamprad nasceu em 30 de março de 1926, na província de Småland, no sul da Suécia, segundo a Britannica. Ainda menino, vendia fósforos para os vizinhos. Depois, passou a vender molduras, joias e meias de náilon, quase sempre por encomenda.

O nome da empresa saiu da vida dele. As letras I e K são as iniciais de Ingvar Kamprad; o E vem de Elmtaryd, a fazenda da família; e o A, de Agunnaryd, o vilarejo onde ele cresceu, de acordo com a Britannica. O registro foi feito em 28 de julho de 1943, segundo a própria IKEA.
Como a IKEA começou a vender móveis?
No começo dos anos 1950, a empresa já distribuía o catálogo que viraria sua marca registrada, segundo a Britannica e a própria IKEA. Em seguida, em 1953, abriu um showroom em Älmhult, uma cidade pequena de Småland. Assim, os clientes podiam ver os móveis de perto antes de comprar.
Esse detalhe parece simples, mas fazia diferença. Na venda por catálogo, o cliente só via a foto e não sabia se o móvel era bom. Com o showroom, ele podia conferir antes de pagar. Em 1958, a primeira loja da rede abriu na mesma cidade. Dois anos depois, em 1960, a loja de Älmhult ganhou o primeiro restaurante da IKEA, segundo a empresa.
Qual foi a ideia que mudou a história da IKEA?
A virada veio em 1956, com o móvel desmontado, o chamado flat-pack. Segundo a própria IKEA, Kamprad e o designer Gillis Lundgren buscavam um jeito de evitar os estragos no transporte. A história mais contada, registrada pela Dezeen, é que Lundgren não conseguia fazer uma mesa caber no carro depois de uma sessão de fotos para o catálogo. Então, ele tirou as pernas dela.
A mesa era a Lövet, uma mesinha de três pernas em formato de folha, considerada o primeiro produto desmontado da IKEA. A partir dali, a lógica se espalhou para quase tudo. Na prática, móvel desmontado ocupa menos espaço no caminhão, no depósito e no carro do cliente. Além disso, a montagem sai da folha de custos da empresa e vai para a sala de quem comprou.

Segundo a Britannica, o sistema ajudou a baixar custos e preços. É por isso que as lojas da rede têm o depósito de autosserviço no fim do percurso, onde o próprio cliente pega as caixas na prateleira.
Por que montar o próprio móvel faz a pessoa gostar mais dele?
Existe até um nome científico para isso: efeito IKEA. Em 2012, os pesquisadores Michael Norton, Daniel Mochon e Dan Ariely publicaram um estudo no Journal of Consumer Psychology mostrando que as pessoas dão mais valor às coisas que montam com as próprias mãos. Nos testes, voluntários montaram móveis da IKEA, dobraram origamis e construíram peças de Lego, segundo o resumo do artigo na Universidade Duke.
O resultado chamou atenção. Os participantes avaliaram as próprias criações, feitas de forma amadora, quase no mesmo nível das peças feitas por especialistas. Porém, o efeito tinha uma condição: ele só aparecia quando a pessoa terminava a tarefa. Quando o objeto era desmontado ou ficava pela metade, o carinho a mais sumia.

Como a IKEA se espalhou pelo mundo?
A expansão foi lenta no começo. A primeira loja fora da Suécia abriu na Noruega, em 1963. Depois, em 1973, veio a primeira fora dos países nórdicos, na Suíça, e em 1985 a rede chegou aos Estados Unidos, segundo a Britannica.
Hoje, a IKEA tem mais de 500 lojas em cerca de 60 países e por volta de 220 mil funcionários, de acordo com dados de 2025 reunidos na Wikipédia. Na América do Sul, a rede chegou só em 2022, no Chile, e no ano seguinte abriu na Colômbia, em ambos os casos por meio de uma parceria com a varejista Falabella. Em 2018, o jornal Valor noticiou que a empresa estudava entrar no Brasil, mas a Falabella disse na época que não havia negociação, segundo o La República.
Quem é o dono da IKEA hoje?
A IKEA não tem ações na bolsa nem um dono único. A empresa é controlada por uma estrutura de holdings e fundações sem fins lucrativos, montada em parte por causa dos impostos altos da Suécia, segundo a Britannica. As lojas ficam em grande parte com o Ingka Group, ligado à Fundação Ingka, enquanto a marca pertence à Inter IKEA, ligada à Fundação Interogo.
Kamprad morreu em 27 de janeiro de 2018, aos 91 anos. A empresa que ele deixou ainda segue a mesma conta do começo: tirar custo de cada etapa e repassar a economia para o preço. No ano fiscal de 2025, as vendas caíram cerca de 1% em relação ao ano anterior, segundo a Inter IKEA, num ano que a empresa descreveu como de desafios globais.
A história da IKEA mostra que uma boa ideia de negócio nem sempre é um produto novo. Às vezes, é só mudar quem faz uma parte do trabalho. A mesma lógica de padronizar tudo e ganhar na escala aparece em outras marcas que viraram gigantes, como na história da Lego e no jeito como o McDonald’s ganha dinheiro.


Diretor e produtor. Apontado pela imprensa como uma das jovens promessas de Hollywood. Cofundador do Resenha Rentável.
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