Como o assalto ao Banco Central de Fortaleza levou R$ 164 milhões
Uma falsa loja de grama sintética, um túnel de 80 metros e 3,5 toneladas de notas de R$ 50. A história do maior furto a banco do Brasil e do rastro que ele deixou.

O assalto ao Banco Central de Fortaleza é o maior furto a banco da história do Brasil: na madrugada de 6 de agosto de 2005, uma quadrilha cavou um túnel de cerca de 80 metros até o cofre e levou R$ 164.755.150 em notas de R$ 50. Por ter sido feito sem violência contra ninguém, o caso foi tratado pela Justiça como furto. O crime só foi descoberto na segunda-feira seguinte, quando os funcionários abriram a casa-forte.
Duas décadas depois, a história ainda rende livro, filme e série. Ela também ajuda a entender como o crime organizado move dinheiro no país, assunto que voltou ao noticiário com casos como o do PCC na Faria Lima. Corrigido pela inflação, o valor levado passaria de R$ 577 milhões hoje, segundo cálculo do jornal O Povo feito em 2025 com a Calculadora do Cidadão.
Como foi planejado o assalto ao Banco Central?
O plano começou pelo menos três meses antes. Em abril de 2005, o grupo alugou uma casa na Rua 25 de Março, no Centro de Fortaleza, a poucos metros da sede regional do Banco Central, segundo o Diário do Nordeste. Ali, montou uma empresa de fachada que dizia vender grama sintética.
A fachada tinha uma função prática. Afinal, uma loja de grama justificava a saída constante de terra e o movimento de homens trabalhando. De acordo com o Jornal de Brasília, a empresa se chamava Gramas Sintéticas. Segundo um dos presos, citado pelo Diário do Nordeste, até a Polícia Militar, a companhia de energia e a vigilância sanitária passaram pelo imóvel sem notar nada.
Como era o túnel até o cofre?
O túnel tinha cerca de 80 metros de extensão e corria a uns 4 metros de profundidade, segundo engenheiros ouvidos pelo O Povo. As paredes eram escoradas com tábuas e lona plástica. Além disso, havia iluminação elétrica e um sistema para levar ar até o fim da galeria.
O trabalho mais difícil ficou para o final. Para entrar no cofre, a quadrilha precisou furar uma laje de concreto armado com 1,10 metro de espessura. Mesmo assim, o desvio em relação ao ponto planejado foi de poucos centímetros. “Eles saíram exatamente no cofre”, resumiu ao O Povo o engenheiro Otacílio Borges, ex-presidente do Crea-CE.
Quanto custou a obra? Segundo o delegado da Polícia Federal Antônio Celso, que comandou a investigação, cerca de R$ 800 mil. Já o engenheiro Alfran Sampaio Moura, ouvido pelo O Povo, estimou entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão.
Quanto dinheiro foi levado no assalto ao Banco Central?
Segundo o Banco Central, foram R$ 164.755.150, todos em notas de R$ 50. Eram cédulas recolhidas da rede bancária para conferência, guardadas em cinco contêineres dentro da casa-forte. Ao todo, o dinheiro pesava cerca de 3,5 toneladas, e saiu pelo túnel entre a noite de sexta-feira e a manhã de sábado.
A precisão impressionou até quem estuda o crime. “Foi realmente uma operação milimetricamente planejada”, disse ao Jornal de Brasília a professora Jânia Perla Diógenes, do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará. Segundo ela, o estilo era o de agir em silêncio, sem confronto, o que na gíria da época se chamava fazer “no sapatinho”.

Como a Polícia Federal chegou aos responsáveis?
A investigação recebeu o nome de Operação Toupeira. Quatro dias depois do furto, a polícia já havia achado R$ 2,5 milhões escondidos em 11 carros num caminhão-cegonha em Minas Gerais, segundo o Diário do Nordeste. A partir daí, as prisões se espalharam por vários estados.
Os números finais são enormes. Segundo a Justiça Federal no Ceará, citada pelo Jornal de Brasília, o Ministério Público Federal denunciou 133 pessoas e 119 foram condenadas, por crimes como furto, formação de quadrilha, extorsão, sequestro e lavagem de dinheiro. Entre os condenados está Antônio Jussivan Alves dos Santos, o Alemão, preso em 2008 e condenado a 49 anos e 2 meses, pena reduzida depois para 35 anos e 10 meses.
O dinheiro também atraiu violência. Luís Fernando Ribeiro, apontado pela polícia como um dos financiadores, foi sequestrado em São Paulo em outubro de 2005. Segundo o Diário do Nordeste, a família pagou R$ 2 milhões de resgate, mas o corpo dele foi encontrado dois dias depois em Minas Gerais.
Quanto do dinheiro foi recuperado?
Aqui as fontes divergem, porque as contas misturam dinheiro vivo e bens leiloados. Pelos dados da Justiça Federal no Ceará, cerca de R$ 27,7 milhões tinham voltado aos cofres públicos até 2025, incluindo leilões de imóveis e gado. Já reportagens do Diário do Nordeste e do O Povo falam em cerca de R$ 60 milhões, somando bens apreendidos.
Em qualquer das contas, a maior parte do dinheiro nunca apareceu. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo de 2006, citada pelo Jornal de Brasília, a polícia estimava na época que cerca de R$ 50 milhões teriam ido para o PCC. O caso ajuda a explicar por que o dinheiro das facções é tão difícil de rastrear, tema que voltou ao debate com a decisão dos EUA de pôr o PCC na lista de grupos terroristas.
Que filmes e séries contam essa história?
A primeira versão para o cinema foi o filme Assalto ao Banco Central, dirigido por Marcos Paulo, que estreou em 22 de julho de 2011, segundo a Exame. A obra é uma ficção inspirada no caso, com Milhem Cortaz, Eriberto Leão e Lima Duarte no elenco.
Depois veio o documentário. A série 3 Tonelada$: Assalto ao Banco Central estreou na Netflix em 16 de março de 2022, com três episódios de 50 minutos, segundo a própria Netflix. Ela tem depoimentos de policiais e de envolvidos no crime. O caso também está no livro Toupeira, de Roger Franchini. Para quem gosta do gênero, a lista de filmes sobre golpes reais traz outras histórias do tipo.
O assalto ao Banco Central virou referência justamente pelo contraste. Foi um crime sem armas, feito com paciência de obra e cálculo de engenheiro, mas que terminou em sequestros, mortes e mais de cem condenações. Depois dele, segundo o O Povo, o Banco Central criou um departamento só para cuidar da segurança institucional.

Roteirista e produtor. Chamado pela imprensa de “prodígio do cinema”. Cofundador do Resenha Rentável.
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