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Economia

El Niño pode deixar comida e conta de luz mais caras em 2027

O aquecimento do Pacífico bateu recorde em setembro e já entrou nas contas do governo e do Banco Central. Veja como ele chega à soja, ao milho, à carne e à energia.

Pietro Krauss 6 min de leitura
Foto: Tiago da Mota e Silva/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O El Niño é o aquecimento fora do normal do Oceano Pacífico perto da linha do Equador, e o de 2026 já entrou na conta da inflação brasileira de 2027. Em setembro, o Ministério da Fazenda subiu de 3,6% para 3,8% a sua projeção para o IPCA do ano que vem por causa do efeito do fenômeno na próxima safra. Na prática, o risco é de comida e energia mais caras.

O tema ficou urgente porque este El Niño caminha para ser o mais forte já medido. Segundo a NOAA, a agência americana de oceanos e clima, a chance de um evento “muito forte” no fim de 2026 passa de 90%. Como o efeito no clima vem meses depois do pico no oceano, a conta deve pesar mais em 2027.

O que é o El Niño e como ele muda o clima no Brasil?

De tempos em tempos, o Pacífico perto do Equador esquenta além do normal. Essa água quente muda o caminho dos ventos e, com isso, a chuva muda de lugar. O Brasil sente o fenômeno de um jeito dividido. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o El Niño costuma trazer mais chuva ao Sul, sobretudo no inverno e na primavera, e aumenta o risco de seca no norte das regiões Norte e Nordeste. Ou seja, um lado do país encharca enquanto o outro seca.

Por que o El Niño de 2026 preocupa tanto?

A força do fenômeno é medida pelo quanto a água do Pacífico central fica acima da média. No boletim de 10 de setembro de 2026, o Centro de Previsão Climática da NOAA registrou a média de agosto em 1,8 °C acima do normal. Além disso, a agência calculou 75% de chance de um evento histórico, mais forte do que todos os medidos desde 1950.

Dias depois, o recorde caiu. Segundo uma análise do site Carbon Brief, o índice diário chegou a 3,11 °C em 21 de setembro e superou os 3,08 °C de novembro de 2015, o recorde anterior. Os modelos de previsão apontam um pico perto de 4,1 °C ainda em 2026. Segundo a mesma análise, a maior parte do impacto no clima deve aparecer em 2027.

O que o último El Niño fez com o Brasil?

O episódio de 2023 e 2024 foi mais fraco do que o atual e, mesmo assim, deixou estragos. Em 26 de outubro de 2023, o Rio Negro chegou a 12,70 metros no porto de Manaus, o nível mais baixo desde o início das medições, em 1902, segundo o Portal Amazônia. No Lago Tefé, também no Amazonas, a água passou de 40 °C e cerca de 200 botos morreram, de acordo com estudo do Instituto Mamirauá citado pelo Olhar Digital.

Boto morto no Lago Tefé durante a seca do El Niño de 2023
Boto morto no Lago Tefé, no Amazonas, durante a seca extrema de 2023. Foto: Gpgeo/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O calor também bateu recorde. Em 19 de novembro de 2023, Araçuaí, em Minas Gerais, marcou 44,8 °C, a maior temperatura já registrada no país, segundo o Inmet, em dado publicado pelo Poder360. Depois, em 2024, veio a enchente do Rio Grande do Sul. Para o grupo de cientistas World Weather Attribution, a tragédia teve três causas juntas: mudança climática, El Niño e falhas de infraestrutura.

Marca da enchente de 2024 no Mercado Público de Porto Alegre
Marca da enchente de 2024 nas paredes do Mercado Público de Porto Alegre. Foto: Ricardo André Frantz/Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Como o El Niño chega ao preço da comida?

O caminho começa na lavoura. Onde falta chuva, a planta cresce menos; onde sobra, o agricultor não consegue colher na hora certa. Com safra menor, o preço sobe. No Relatório de Política Monetária de setembro de 2026, o Banco Central resumiu assim o histórico do fenômeno no país: “Os impactos adversos são mais disseminados sobre milho, algodão e arroz, ao passo que, para a soja, os efeitos variam entre estados”.

Colheita de soja, uma das lavouras sensíveis ao El Niño
Colheita de soja em Rondonópolis, Mato Grosso. Foto: Roosevelt Pinheiro/Agência Brasil (CC BY 3.0 BR)

Depois, o aumento se espalha. Boa parte do milho e da soja vira ração para boi, porco e frango, então a carne sobe alguns meses depois. A Fazenda descreveu esse repique nas carnes como um efeito indireto do fenômeno. O Brasil já viu esse filme: em 2024, o IPCA fechou em 4,83%, mas o grupo alimentação e bebidas subiu 7,69%, segundo o IBGE. Para entender como a inflação come o salário ao longo dos anos, veja por que você trabalha a vida inteira e nunca fica rico.

Quanto o El Niño pode pesar na inflação de 2027?

A conta oficial já mudou. Em 22 de setembro de 2026, a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda elevou a projeção do IPCA de 2027 de 3,6% para 3,8%, por causa do efeito de um El Niño mais intenso sobre a safra do ano que vem. O Banco Central, por sua vez, perguntou a 89 economistas quanto o fenômeno deve somar à inflação. A resposta do meio da lista foi 0,5 ponto percentual em 2027, segundo o Diário do Comércio.

Esse meio ponto importa por causa da meta de inflação, de 3%, com tolerância até 4,5%. Quando a inflação sobe, o Banco Central costuma ter menos espaço para cortar a Selic, a taxa básica de juros do país.

E a conta de luz, o que tem a ver com o El Niño?

Grande parte da energia do Brasil vem de hidrelétricas, que dependem de rio cheio. Em outubro de 2023, por exemplo, a usina de Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia, parou de gerar porque a vazão do rio estava cerca de 50% abaixo da média histórica, segundo o Mercado & Consumo.

Para não faltar energia, o sistema liga as termelétricas, mais caras, e a diferença chega à conta pelas bandeiras tarifárias. Em agosto de 2026, a Aneel manteve a bandeira amarela, de R$ 1,885 a cada 100 kWh, por causa de chuvas abaixo da média e do uso maior de térmicas, segundo o Movimento Econômico.

O El Niño também derruba a economia do mundo?

Sim, e por anos. Em 2023, Christopher Callahan e Justin Mankin, do Dartmouth College, publicaram na revista Science um estudo sobre o tema. Segundo a Fundação Nacional de Ciência dos EUA (NSF), o El Niño de 1997 e 1998 tirou US$ 5,7 trilhões da economia mundial nos cinco anos seguintes, e o de 1982 e 1983, US$ 4,1 trilhões.

Segundo o estudo, quem mais perde são os países mais pobres dos trópicos. O Brasil é um dos maiores países tropicais do mundo e tem contas públicas apertadas, tema da reportagem sobre a dívida pública mundial. Afinal, com a economia mais lenta, sobra menos dinheiro para socorrer quem perde a safra ou a casa.

O El Niño de 2026 já mudou as previsões de inflação do governo e dos economistas. Se o pico se confirmar no fim do ano, o efeito mais forte na lavoura, no prato e na conta de luz deve aparecer em 2027, o primeiro ano do próximo mandato presidencial.

O Resenha Rentável mostrou o que o El Niño e as contas do país reservam para quem assumir o Planalto em 2027. Assista:

Pietro Krauss

Diretor e produtor. Apontado pela imprensa como uma das jovens promessas de Hollywood. Cofundador do Resenha Rentável.

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