O que é a visão cor-de-rosa e por que o passado parece melhor
A memória apaga os perrengues e guarda os bons momentos. A ciência mostra como isso engana a gente sobre o passado, sobre o presente e até sobre o dinheiro.

A visão cor-de-rosa é a tendência de lembrar do passado como mais agradável do que ele foi de verdade. Na psicologia, o fenômeno tem nome em inglês, “rosy retrospection”, e aparece em estudos desde os anos 1990: com o tempo, a memória apaga os perrengues e guarda os bons momentos. Por isso, a viagem cansativa vira “a melhor da vida” e a década passada vira “a época boa”.
O assunto parece leve, mas mexe com decisões sérias. Afinal, quem acha que tudo era melhor antes tende a julgar o presente com mais dureza, a gastar mais com o que lembra a infância e a acreditar que o mundo está piorando, mesmo quando os números dizem outra coisa. Entender esse truque da memória ajuda a separar saudade de fato.
O que é a visão cor-de-rosa?
Em termos simples, é um viés cognitivo, ou seja, um atalho do cérebro que distorce o jeito como a gente julga as coisas. No caso da visão cor-de-rosa, a distorção é no tempo: o mesmo acontecimento parece melhor quando lembrado do que quando foi vivido. Segundo o verbete da Wikipédia, os romanos já tinham uma expressão para isso, “memoria praeteritorum bonorum”, algo como “a memória dos bons tempos passados”.
O primo mais famoso desse viés é a nostalgia. No entanto, os dois não são a mesma coisa. A nostalgia é um sentimento, uma saudade com um toque de tristeza. Já a visão cor-de-rosa é um erro de avaliação: a pessoa realmente acredita que aquele período foi melhor do que foi.
O que mostrou o estudo da visão cor-de-rosa?
O trabalho mais citado sobre o tema saiu em 1997 no Journal of Experimental Social Psychology. Os psicólogos Mitchell, Thompson, Peterson e Cronk acompanharam três grupos de pessoas em viagens diferentes e fizeram perguntas antes, durante e depois de cada uma. O título do artigo já resumia a ideia: a “visão rosada”.

O padrão se repetiu. Antes de viajar, a expectativa era alta. Durante a viagem, vinha uma leve decepção, com atrasos, cansaço e imprevistos. Depois de um tempo, porém, a maioria passava a avaliar a experiência de forma mais positiva do que tinha avaliado enquanto estava lá. Segundo a The Decision Lab, até ciclistas que encararam um passeio puxado de bicicleta avaliaram a experiência como mais agradável um mês depois.
Por que a memória enfeita o passado?
Uma das explicações é que os detalhes ruins e secundários somem mais rápido da memória do que as partes boas e centrais. A fila no aeroporto e a chuva no hotel desaparecem. O pôr do sol na praia fica. Assim, o que sobra na lembrança é uma versão editada, com os melhores momentos em destaque.

Há também um efeito de exposição. Os psicólogos Adam Mastroianni e Daniel Gilbert chamaram isso de exposição e memória enviesadas. Na prática, recebemos muita notícia ruim sobre o presente e lembramos do passado com filtro. A soma dos dois cria a sensação de que o mundo só piora.
Todo mundo acha que o passado era melhor?
Muita gente, sim. Em 2023, Mastroianni e Gilbert publicaram na revista Nature um estudo com pesquisas de opinião de 59 países, somando 354.120 participantes. Na maioria das perguntas, as pessoas disseram que a moral e a bondade estavam em declínio. Porém, quando os autores compararam, ao longo de décadas, o que as pessoas diziam sobre a conduta dos outros no presente, não encontraram sinal de queda, segundo reportagem da PsyPost.
Uma pesquisa mais recente vai na mesma direção. Em 2025, a Ipsos ouviu 23.772 pessoas em 30 países, entre elas o Brasil. Diante da escolha, 44% disseram que prefeririam ter nascido em 1975, contra 24% que escolheriam 2025. Além disso, 55% disseram que seu país era mais feliz 50 anos atrás.
O passado era mesmo melhor no Brasil?
Depende do que se mede, e é aí que os dados ajudam. Segundo o IBGE, a expectativa de vida do brasileiro era de 62,5 anos em 1980 e chegou a 76,6 anos em 2024, a maior da série. No mesmo período, a mortalidade infantil caiu de 69,1 para 12,3 mortes a cada mil nascidos vivos.
Isso não quer dizer que tudo melhorou nem que a saudade é boba. Há coisas que de fato ficaram mais difíceis, como a compra da casa própria para os mais jovens, tema da reportagem sobre a geração que vai viver pior que os pais. O ponto é outro: a memória não é uma boa régua. Para comparar épocas, é melhor olhar para números do que para lembranças.
Como a visão cor-de-rosa mexe com o seu dinheiro?
Aqui o viés sai do campo da curiosidade e vai para o bolso. Em 2014, os pesquisadores Jannine Lasaleta, Constantine Sedikides e Kathleen Vohs publicaram no Journal of Consumer Research seis experimentos sobre nostalgia e dinheiro. Pessoas induzidas a sentir saudade aceitaram pagar mais por produtos, deram menos valor ao dinheiro e se esforçaram menos para ganhá-lo, segundo o resumo do estudo na Universidade de Southampton.
Não é à toa que tanta marca relança embalagem antiga, brinquedo dos anos 1990 ou o tênis “clássico”. A lembrança boa diminui a resistência ao preço. Da mesma forma, a visão cor-de-rosa pode levar alguém a repetir uma viagem cara que, na hora, foi mais cansativa do que relaxante. As marcas também usam outros atalhos da mente para vender, como mostra a reportagem sobre product placement.

Dá para escapar da visão cor-de-rosa?
Totalmente, não, porque ela faz parte de como a memória funciona. Ainda assim, alguns hábitos ajudam. Primeiro, anotar como foi uma experiência logo depois de vivê-la, antes que a memória faça a edição. Depois, antes de uma compra movida por saudade, perguntar se o produto vale o preço hoje ou se o que se está comprando é a lembrança. Por fim, quando alguém disser que “antigamente era melhor”, vale perguntar: melhor em quê, e segundo qual dado?
A visão cor-de-rosa tem um lado bom, porque guardar os bons momentos ajuda a seguir em frente. O risco está em usar essa lembrança editada para tomar decisões sobre o presente, da carreira ao carrinho de compras.
O tema da nostalgia e das gerações aparece neste vídeo do Resenha Rentável:

Diretor e produtor. Apontado pela imprensa como uma das jovens promessas de Hollywood. Cofundador do Resenha Rentável.
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