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Geopolítica

Por que os EUA querem a Groenlândia e o que muda com o novo acordo

A maior ilha do mundo tem 56 mil habitantes, 81% do território coberto de gelo e quase todos os minerais que as potências disputam. Washington tenta levá-la há 160 anos.

Pedro Paracampos 5 min de leitura
Foto: amanderson2/Flickr (CC BY 2.0)

Os EUA querem a Groenlândia por três motivos: a posição da ilha no meio do caminho entre a América do Norte, a Europa e a Rússia, a base militar que os americanos já mantêm lá e os minerais críticos guardados debaixo do gelo. Em 22 de setembro de 2026, esse interesse virou um acordo assinado com a Dinamarca e com o governo groenlandês.

O tema voltou ao noticiário em janeiro, quando o presidente Donald Trump aumentou a pressão para que a ilha passasse aos Estados Unidos e, de início, não descartou o uso da força, segundo um relatório da Biblioteca da Câmara dos Comuns do Reino Unido. Depois de meses de tensão dentro da Otan, as três partes negociaram um tratado de defesa. Agora, o texto depende da aprovação dos parlamentos da Groenlândia e da Dinamarca, e a votação final em Copenhague está marcada para 19 de novembro.

O que é a Groenlândia e de quem ela é?

A Groenlândia é a maior ilha do mundo e um território autônomo do Reino da Dinamarca. Segundo dados do Conselho Nórdico citados pela RTP, ela tem cerca de 56,6 mil habitantes, mais de 19 mil deles na capital, Nuuk. Além disso, o gelo cobre 81% do território, e Nuuk fica mais perto de Nova York do que de Copenhague.

Na prática, os groenlandeses têm governo e parlamento próprios, com 31 deputados, e decidem sobre o uso dos seus recursos naturais desde 2009. Por outro lado, defesa e política externa continuam com a Dinamarca. A economia depende da pesca, e o repasse dinamarquês equivale a um quinto do PIB da ilha. Ou seja, o território é enorme, mas a população cabe num estádio grande de futebol.

Por que os EUA querem a Groenlândia há tanto tempo?

O interesse é antigo. Em 1867, logo depois de comprar o Alasca da Rússia, o secretário de Estado William Seward propôs comprar também a Groenlândia e a Islândia, segundo a CNN Brasil. Depois da Segunda Guerra, em 1946, o presidente Harry Truman ofereceu US$ 100 milhões em ouro pela ilha, e a Dinamarca recusou.

Em 2019, no primeiro mandato, Trump falou em comprar o território e comparou a ideia a um grande negócio imobiliário. Mais uma vez, dinamarqueses e groenlandeses rejeitaram a proposta. Desde então, o assunto voltou várias vezes, até virar a crise diplomática de 2026.

Linha do tempo de por que os EUA querem a Groenlândia, de 1867 a 2026

O que a base de Pituffik tem a ver com isso?

Os americanos já estão na ilha há décadas. Um acordo de 1951 entre EUA e Dinamarca permitiu a instalação de bases militares, e esse texto foi atualizado em 1981 e em 2004. Hoje, a única base ativa é a de Pituffik, no norte da ilha, antiga Base Aérea de Thule.

Base de Pituffik, peça central de por que os EUA querem a Groenlândia
A antiga Base Aérea de Thule, hoje Base Espacial de Pituffik, a única base americana ativa na Groenlândia. Foto: JoAnne Castagna/Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA (CC BY 2.0)

Segundo a RTP, Pituffik é parte essencial do escudo antimísseis americano. De acordo com o Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA, a base fica a cerca de 1.100 quilômetros acima do Círculo Polar Ártico e abriga sensores que apoiam o Norad, o comando de defesa aérea da América do Norte. Com isso, a ilha funciona como um posto de vigia no topo do mapa. Para a historiadora Astrid Andersen, ouvida pela AFP, os americanos tomaram conta da ilha quando a Dinamarca estava ocupada pela Alemanha, na Segunda Guerra, e de certa forma nunca saíram.

Quais minerais a Groenlândia tem?

Debaixo do gelo está o outro motivo da disputa. Segundo a RTP, a União Europeia encontrou na ilha 25 dos 34 minerais da sua lista de matérias-primas críticas, entre eles as terras raras usadas em motores elétricos, celulares e armas. Esse tipo de recurso está no centro da disputa entre EUA e China.

Mesmo assim, a mineração ainda engatinha. Só duas minas funcionam, com produção pequena. A empresa Amaroq, que explora ouro, planeja extrair também terras raras, zinco, prata, germânio e gálio, com início possível em 2027 ou 2028. Por isso, o valor da ilha hoje está mais na promessa do que na produção.

O que prevê o acordo de 2026 entre EUA, Dinamarca e Groenlândia?

O acordo foi assinado em Nova York, durante a Assembleia Geral da ONU, por Trump, pela primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, e pelo chefe do governo groenlandês, Jens-Frederik Nielsen. Segundo a Reuters, em reportagem publicada pela CNN Brasil, o texto prevê duas novas bases americanas, em Narsarsuaq, no sul, e em Mestersvig, na costa leste, além da ampliação de Pituffik.

Além disso, países de fora da Otan ficam proibidos de manter presença militar permanente na ilha. Investidores de fora da Otan e da União Europeia também não podem controlar setores sensíveis. Em caso de independência, a Groenlândia continuaria na aliança. O acordo não tem data para acabar, e qualquer mudança exige o consentimento das três partes.

Por fim, há o ponto mais sensível: a soberania. Segundo a Agência Brasil, Dinamarca e Groenlândia afirmaram que o acordo não compromete a soberania da ilha, depois que Trump disse que Washington teria “controle permanente” sobre a segurança do território. O texto final diz respeitar o direito dos groenlandeses à autodeterminação.

O acordo sobre a Groenlândia já está valendo?

Ainda não. O parlamento groenlandês fez a primeira leitura em 10 de outubro, num debate de mais de quatro horas, e o partido de oposição Naleraq propôs levar o tema a referendo, segundo o Copenhagen Post. Na Dinamarca, o debate começa em 12 de novembro, e a votação final está prevista para o dia 19.

Ou seja, a Groenlândia não foi vendida e continua dinamarquesa. Na prática, porém, os EUA conseguiram por tratado boa parte do que tentam comprar desde 1867: presença militar ampliada e o poder de manter rivais longe da ilha. Por isso, esse pedaço de gelo virou um dos territórios mais disputados do mundo. Para ver outra frente da política externa americana neste ano, vale entender o que mudou com o tarifaço de Trump.

Pedro Paracampos

Roteirista e produtor. Chamado pela imprensa de “prodígio do cinema”. Cofundador do Resenha Rentável.

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