Por que bancos centrais compram ouro em ritmo 4 vezes maior
Em agosto, os bancos centrais levaram 79 toneladas de ouro, segundo o Goldman Sachs. Ao mesmo tempo, parte do metal está saindo dos cofres de Nova York. Entenda o que está por trás disso e onde entra o Brasil.

Os bancos centrais compram ouro hoje num ritmo mais de quatro vezes maior do que antes de 2022. Segundo estimativas do banco americano Goldman Sachs, eles levaram 79 toneladas do metal só em agosto de 2026, contra uma média de 17 toneladas por mês antes de 2022. Ao mesmo tempo, parte desse ouro está deixando os cofres dos Estados Unidos e indo para a Europa.
O assunto ganhou força nesta sexta-feira (23), com uma reportagem da revista Fortune publicada no Brasil pelo InfoMoney. Ele importa porque o ouro é a parte mais antiga das reservas de um país, o “colchão” que um governo usa numa crise. Além disso, a corrida pelo metal diz muito sobre a confiança no dólar, a moeda que domina o comércio mundial.
Quanto ouro os bancos centrais compram hoje?
Segundo a nota do Goldman Sachs divulgada na segunda-feira (19) e citada pelo site investingLive, os bancos centrais compraram 79 toneladas em agosto. Em julho, a estimativa tinha sido de 44 toneladas. Além disso, o banco calcula que, nos últimos três meses, o ritmo ajustado gira em torno de 85 toneladas por mês.
A China aparece como a maior compradora identificada. O Goldman estima que o banco central chinês levou cerca de 25 toneladas em agosto, enquanto o número oficial informado por Pequim foi de cerca de 20 toneladas. Em setembro, segundo o mesmo levantamento, a China fez a maior compra mensal em cerca de três anos, a 23ª seguida. Mesmo assim, o país é só o maior comprador conhecido, porque muitos bancos centrais não divulgam tudo o que compram.
Por que os bancos centrais estão comprando ouro?
O motivo principal é proteção. O ouro não depende de nenhum governo para valer alguma coisa e não pode ser congelado por sanções do jeito que um título ou uma conta em outro país pode. Por isso, ele virou um seguro contra crises num mundo com a guerra da Ucrânia, conflitos no Oriente Médio e a política de tarifas dos Estados Unidos, fatores citados pela reportagem da Fortune.
Outro motivo é diversificar. Hoje, a maior parte das reservas do mundo está em dólares, guardados principalmente em títulos do Tesouro americano. Segundo dados do FMI divulgados em 30 de setembro e noticiados pelo Central Banking, o dólar respondia por 56,7% das reservas em moeda estrangeira no fim de junho de 2026, contra 57,2% no fim de março. Ou seja, a fatia americana segue grande, mas cai aos poucos. Para entender por que o dólar ocupa esse lugar, vale ler o nosso texto sobre o petrodólar.
Por que o ouro está saindo dos Estados Unidos?
Além de comprar mais, os bancos centrais estão mudando o lugar onde guardam o metal. Segundo o Goldman Sachs, as reservas de ouro guardadas no Federal Reserve de Nova York caíram 40 toneladas em agosto. No mesmo mês, o estoque no Banco da Inglaterra, em Londres, subiu 46 toneladas.

Há exemplos concretos. Em setembro, o banco central da Holanda informou que levou 86 toneladas de ouro de Nova York e de Ottawa para Londres ao longo de seis meses, para estar mais preparado para crises. Segundo a instituição, “o ouro armazenado no Banco da Inglaterra é considerado o mais líquido e negociável do mundo”. Já o Banco da França disse em março que reduziu o ouro guardado em Nova York e aumentou os estoques na Europa, por critérios técnicos como a qualidade e a pureza das barras.
Os bancos centrais ainda escondem o próprio ouro?
Em parte, sim. Segundo a reportagem da Fortune, numa pesquisa feita neste ano, 12% dos bancos centrais se recusaram a dizer onde guardam o ouro, contra 10% no ano anterior. Além disso, quase um em cada cinco não quis informar onde pretende guardar o metal nos próximos 12 meses.
Esse segredo tem explicação. Na prática, saber onde está o ouro de um país diz quanto ele confia em cada aliado. Por isso, os países mais ricos, que já têm grandes estoques, hoje compram menos e se preocupam mais com o endereço do cofre, segundo a mesma reportagem.
Quanto ouro tem o Banco Central do Brasil?
O Brasil também entrou nessa corrida. Segundo reportagem do Jornal do Brasil com dados do próprio Banco Central, o BC comprou 42,8 toneladas de ouro entre setembro e novembro de 2025. Com isso, o estoque passou de 129,6 para 172,4 toneladas, uma alta de 33%. Antes disso, a instituição não comprava ouro desde 2021.
Na época, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, disse que a alta do preço ajudou na decisão, mas não era o objetivo. Segundo ele, a ideia era ter reservas mais robustas para enfrentar choques futuros. Com as 172,4 toneladas, o Brasil tem a maior reserva de ouro da América Latina e ocupava o 28º lugar no mundo em março de 2026, segundo o World Gold Council citado pela Bloomberg Línea. O metal representava cerca de 7,1% das reservas totais do país.

O que a compra de ouro pelos bancos centrais muda para você?
Para quem não investe em ouro, o efeito é indireto. Reservas maiores e mais variadas ajudam um país a atravessar crises de câmbio, quando o dólar dispara e o real perde valor. Por outro lado, a demanda dos bancos centrais funciona como um piso para o preço do metal, segundo o Goldman Sachs.
Mesmo assim, o ouro oscila bastante. Na quinta-feira (22), a onça era negociada perto de US$ 4.100 no mercado à vista, depois de uma queda de 8,5% em setembro, segundo o site Invezz. Por isso, quem pensa em comprar ouro deve entender os riscos antes e não tratar o metal como aposta certa. Para entender o outro lado das reservas, o quanto os governos devem, confira o nosso texto sobre a dívida pública mundial.
No fim das contas, a corrida pelo ouro mostra que os bancos centrais estão se preparando para um mundo mais instável. Eles compram mais, guardam mais perto de casa ou em Londres e falam menos sobre isso. O dólar continua no centro do sistema, mas perde espaço aos poucos para o metal mais antigo das reservas.
A história do dinheiro, das primeiras moedas ao crédito e à inflação, está neste vídeo do Resenha Rentável:

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