Por que os protestos na França terminaram com 2 mil presos
O movimento começou com estudantes reclamando de escolas sem professores. No sábado, juntou mais de meio milhão de pessoas, virou saque em várias cidades e deixou em ruínas a prefeitura de Limoges.

Os protestos na França do sábado (17) reuniram cerca de 550 mil pessoas em todo o país, segundo o Ministério do Interior, e terminaram com mais de 2 mil presos, de acordo com o ministro Laurent Nuñez. Em várias cidades, a marcha virou saque e incêndio. O caso mais grave foi em Limoges, no centro do país, onde a prefeitura histórica, de 1883, ficou quase toda destruída.
O movimento começou em meados de setembro com estudantes do ensino médio e cresceu ao longo de outubro, até se juntar a uma jornada nacional contra o custo de vida. Além disso, a crise chega no meio da discussão do orçamento de 2027, que prevê cortes bilionários num país com dívida recorde. Por isso, a crise mexe também com a segunda maior economia da União Europeia.
O que aconteceu nos protestos na França neste sábado?
O Ministério do Interior contou cerca de 550 mil manifestantes, sendo 110 mil em Paris, segundo a Euronews. Os organizadores, por sua vez, falaram em cerca de 800 mil pessoas, de acordo com a agência AP.
A maior parte dos atos foi pacífica. Mesmo assim, grupos entraram em confronto com a polícia à tarde e à noite. Segundo a AP, houve saques em centenas de lojas em Paris, Marselha, Lyon, Bordeaux, Rennes, Estrasburgo, Grenoble, Nice e Limoges. Em Lyon, o escritório de turismo da cidade foi incendiado.
O balanço subiu ao longo da madrugada. No domingo (18), Nuñez falou em mais de 2 mil presos e mais de 600 policiais, gendarmes e bombeiros feridos, segundo a Euronews.
O que aconteceu com a prefeitura de Limoges?
Em Limoges, cerca de 2 mil pessoas se reuniram à tarde, e mais de 500 delas buscavam o confronto, segundo a prefeitura regional da Haute-Vienne, citada pela Euronews. Um grupo invadiu a prefeitura da cidade e ateou fogo ao prédio no fim da tarde. Durante a noite, a torre do relógio, símbolo da cidade, desabou.

O prédio foi construído entre 1879 e 1883 e é monumento histórico protegido desde 1975. A prefeitura regional informou que ele ficou “em grande parte destruído”. Até a manhã de domingo, 19 pessoas tinham sido detidas na região, e as investigações continuavam, sem suspeitos identificados pelo incêndio. Ninguém foi julgado pelo caso até agora.
O prefeito de Limoges, Guillaume Guérin, disse que “protestar é um direito, e a raiva merece ser ouvida”, mas chamou a violência de inaceitável, segundo a Euronews. Já o primeiro-ministro Sébastien Lecornu prometeu reconstruir o prédio, que chamou de “símbolo de uma nação que não se deixa abater”, de acordo com o jornal português Diário de Notícias.
Como começaram os protestos na França?
Tudo começou numa escola de ensino médio em Créteil, na periferia de Paris, em meados de setembro. Os alunos reclamavam de falta de professores e de funcionários. Depois, a lista cresceu: prédios velhos, turmas cheias, jornada das 8h às 18h e o estresse com o Parcoursup, o sistema francês de acesso à universidade.
O protesto se espalhou pelas periferias e chegou a cidades menores. Em 6 de outubro, a Union Syndicale Lycéenne, entidade dos secundaristas, disse que 1.800 escolas estavam bloqueadas ou fechadas, segundo a Reuters, em texto publicado pela Agência Brasil. Até ali, mais de 6.100 pessoas tinham sido detidas, a maioria menores de idade, segundo o governo.
A reação da polícia também virou motivo de protesto. Em Lens, um jovem de 15 anos perdeu a mão atingido por uma granada, segundo a Reuters. Desde então, sindicatos, partidos e grupos ligados aos antigos “coletes amarelos” passaram a apoiar os estudantes. Assim, a pauta deixou de ser só a escola.
O que os manifestantes pedem?
A jornada de sábado juntou várias reivindicações. Segundo a Euronews, a carta do movimento fala em poder de compra (preço de combustíveis, energia e comida), contestação do orçamento, falta de dinheiro para educação e saúde e violência policial. O ato teve apoio das centrais sindicais CGT e Solidaires, de entidades estudantis e de partidos de esquerda.
Do lado do governo, a resposta inclui medidas para as escolas. Segundo a Al Jazeera, o governo desistiu de aumentar algumas taxas de matrícula no ensino superior e anunciou 3 mil professores substitutos. Lecornu também pediu aos ministros novas propostas até o fim de outubro, de acordo com a Reuters.
Por que o orçamento da França pesa nessa crise?
A França está no meio de um aperto nas contas. Segundo o Insee, o instituto oficial de estatística, a dívida pública chegou a 3,59 trilhões de euros em junho de 2026, ou 119% do PIB, um recorde, conforme noticiou a Euronews. Em 2025, o déficit ficou em 5,1% do PIB, bem acima da média da União Europeia. Veja como a dívida pública no mundo chegou a esse ponto.
Por isso, o projeto de orçamento de 2027 prevê cerca de 54 bilhões de euros em cortes, com congelamento dos salários do funcionalismo e limite ao reajuste das aposentadorias, segundo a Euronews. Enquanto isso, o desemprego entre jovens de 15 a 24 anos estava em 21,6% no segundo trimestre, de acordo com o Insee. Na prática, os jovens nas ruas são os que mais sofrem com a falta de vagas, e a alta de preços, como a inflação no Brasil, pesa no bolso de todos.
O que dizem o governo e a oposição?
O presidente Emmanuel Macron escreveu no X que “não há lugar para a violência” e que quem atacou prefeituras e lojas “será processado e punido”. Lecornu disse que “ninguém vai impor sua agenda política pela violência” e atribuiu os ataques a grupos de ultraesquerda, segundo a revista Nouvel Obs. Já o ministro Nuñez afirmou que protestar é um direito fundamental, mas espalhar a desordem pela violência não é.
A oposição se dividiu na leitura do sábado. Para Jean-Luc Mélenchon, do partido França Insubmissa, o confronto parecia ser o objetivo da estratégia policial do governo. Por outro lado, Marine Le Pen, do Reunião Nacional, disse que reivindicações sociais legítimas foram “tomadas como reféns pela extrema esquerda”, segundo a Nouvel Obs.
O que acontece agora na França?
Macron convocou uma reunião de emergência para este domingo e marcou um pronunciamento à nação para as 20h de Paris (15h de Brasília), segundo a AP. Além disso, a primeira parte do orçamento de 2027 vai a votação na Assembleia Nacional na terça-feira (20).
O estrago também chegou ao comércio. Segundo a Euronews, o presidente do Carrefour, Alexandre Bompard, disse que 50 lojas do grupo foram atingidas e estimou em cerca de 1.500 as lojas de outras redes afetadas. Só o reparo da rede dele deve passar de 10 milhões de euros.
Os protestos na França começaram numa escola de periferia e, em um mês, levaram mais de meio milhão de pessoas às ruas, segundo o próprio governo. Agora, o país espera a fala de Macron e a votação do orçamento para saber se a crise esfria ou ganha mais força.

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