Trump suspende sanções contra a Rússia horas antes do prazo
A Lei Graham previa tarifas de até 100% sobre os maiores compradores de petróleo e gás russos. Trump usou uma brecha da própria lei e travou tudo, de olho no preço do diesel.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, suspendeu as sanções contra a Rússia que entrariam em vigor neste domingo (18). Na noite de sexta-feira (16), ele assinou uma ordem que trava as tarifas de até 100% sobre os grandes compradores de petróleo e gás russos, além de novas punições a bancos e autoridades do país. Para isso, Trump usou uma brecha prevista na própria lei: a isenção por “interesse nacional”.
A decisão chega no meio de uma crise de combustíveis. O diesel ficou mais caro no mundo todo com a guerra no Irã, e os americanos vão às urnas em 3 de novembro para as eleições de meio de mandato. Não por acaso, analistas ouvidos pela Reuters, em texto reproduzido pela Agência Brasil, chamaram atenção para o momento da medida. Além disso, o recuo mexe com a guerra na Ucrânia e com o mercado de petróleo, dois assuntos que chegam ao bolso do brasileiro.
O que previa a lei de sanções contra a Rússia?
O pacote se chama Lindsey O. Graham Sanctioning Russia and Iran Act of 2026, a Lei Graham. O nome homenageia o senador republicano Lindsey Graham, principal defensor do projeto, que morreu neste ano. Trump sancionou a lei em 18 de setembro, segundo o escritório de advocacia Baker Botts. Pelo texto, o governo tinha 30 dias para colocar as medidas em prática, ou seja, até este fim de semana.
A lei previa tarifas de até 500% sobre produtos russos, como petróleo, gás e carvão. Mesmo assim, o ponto mais duro era outro. Ela autorizava tarifas de até 100% sobre os produtos de países que estivessem entre os cinco maiores compradores de petróleo bruto ou gás da Rússia e continuassem comprando depois do prazo. Na prática, era uma forma de cortar a renda russa atingindo os clientes, e não só o vendedor.
O pacote também mirava grandes bancos russos, como Sberbank, VTB e Gazprombank, e os navios da chamada “frota sombra”. Esse é o nome dado aos petroleiros que a Rússia usa para continuar exportando combustível apesar das sanções do Ocidente. A lei, porém, não cita nomes de países. Segundo a Baker Botts, a maior parte das reportagens aponta China, Índia e Turquia como os maiores compradores.

Por que Trump suspendeu as sanções contra a Rússia?
Oficialmente, pelo interesse nacional dos Estados Unidos. “Enviei ao Congresso uma certificação de que a concessão dessa isenção atende aos interesses nacionais dos Estados Unidos”, afirmou Trump, segundo o Times Brasil. A isenção vale até que o presidente ou seus assessores decidam que “outras medidas sejam apropriadas”.
O pano de fundo é o diesel. No começo de outubro, Trump anunciou um acordo com Vladimir Putin para a Rússia vender diesel ao mercado mundial. De acordo com a Euronews, os volumes anunciados foram de mais de 300 mil toneladas de imediato, 500 mil em novembro, 1 milhão logo depois e mais 3 milhões em pouco tempo. Em seguida, em 9 de outubro, o Tesouro americano liberou, segundo a revista Modern Diplomacy, a compra de diesel russo até 7 de abril de 2027, por meio de uma licença geral.
A suspensão não apaga tudo. As sanções criadas por ordens executivas anteriores continuam valendo, segundo o Times Brasil. Além disso, a lei obriga o governo a revisar a lista dos maiores compradores a cada 180 dias, o que deixa a porta aberta para o tema voltar.
Quem criticou a decisão?
A reação veio rápido dos dois lados. Em Bruxelas, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, disse que a medida premia financeiramente Putin e que “dinheiro vai voltar a entrar na Rússia”, segundo o Brasil de Fato. Ele também afirmou esperar que outras sanções sejam suspensas depois.
No Congresso americano, o senador democrata Richard Blumenthal, que também redigiu a lei, criticou o recuo nas redes sociais. Antes disso, doze senadores, seis deles republicanos, já tinham pedido a Trump que desfizesse o acordo do diesel, de acordo com o Brasil de Fato. Do lado russo, Kirill Dmitriev, enviado econômico de Putin, chamou a suspensão de “um momento importante e verdadeiramente histórico”.

O que muda para o Brasil?
O efeito mais direto passa pelo diesel. A Rússia virou a principal fornecedora do diesel importado pelo Brasil. Em março e abril de 2026, ela respondeu por 81% do valor das compras brasileiras do combustível, segundo dados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, publicados pela Agência Brasil. Em abril, a fatia chegou a quase 90%.
O Brasil, porém, compra da Rússia principalmente diesel, que é um derivado. A tarifa de 100% da Lei Graham mirava os maiores compradores de petróleo bruto ou gás, e o país não aparece entre os nomes citados nas análises. Mesmo assim, o recuo reduz a incerteza num momento em que o preço do diesel pesa no frete e na comida. Por outro lado, a liberação do diesel russo para os Estados Unidos coloca mais um grande comprador na disputa pelo mesmo produto.
A guerra na Ucrânia fica mais perto do fim?
Não há sinal disso por enquanto. No mesmo fim de semana, um ataque aéreo russo deixou um morto e 19 feridos em Kherson, na Ucrânia, segundo o governador regional, e um ataque de drone ucraniano matou uma mulher em Belgorod, na Rússia, de acordo com a agência estatal russa TASS. A negociação, que já explicamos aqui, continua travada na disputa por território.
Para Trump, a suspensão é um instrumento que pode ser revertido a qualquer momento. Para a Ucrânia e para parte do Congresso americano, é um alívio para a principal fonte de dinheiro da Rússia, o petróleo. Enquanto isso, o mercado de combustíveis segue sob pressão, como mostram os recentes ataques a petroleiros no Golfo.

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