Os 7 candidatos a secretário-geral da ONU levam veto de potências
Na sexta votação secreta do Conselho de Segurança, ninguém escapou do não de pelo menos um dos cinco membros permanentes. Guterres sai em 31 de dezembro e ainda não há sucessor.

A escolha do próximo secretário-geral da ONU travou na sexta-feira (16): os sete candidatos receberam o voto contrário de pelo menos um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, os únicos com poder de veto. A votação foi secreta e indicativa. Mesmo assim, o resultado mostra que, por enquanto, nenhum nome tem caminho livre para suceder António Guterres.
O prazo é curto. Segundo o Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA, o segundo mandato de Guterres termina em 31 de dezembro de 2026. Além disso, a disputa acontece num momento de guerras abertas, da Ucrânia ao Golfo Pérsico, em que a ONU tenta mediar conflitos e cortar custos ao mesmo tempo.
Como foi a votação para secretário-geral da ONU?
Foi a sexta rodada de consultas informais desde 30 de julho, segundo o Rio Times. Nessas rodadas, cada um dos 15 países do Conselho marca, para cada candidato, se “encoraja”, “desencoraja” ou “não tem opinião”. O resultado oficial não é divulgado, mas os números vazam para a imprensa.
A novidade desta vez foi a cor das cédulas. Pela primeira vez, os cinco membros permanentes (Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França) votaram com papéis de cor diferente dos outros dez. Assim, ficou claro quem recebeu um “desencorajo” de uma potência. Na prática, esse voto funciona como um aviso de veto, porque um permanente pode barrar o nome na votação formal.
Quem são os candidatos e quantos votos cada um teve?
Segundo a RFI, com informações da AFP, a costarriquenha Rebeca Grynspan, de 70 anos e ex-chefe da agência da ONU para comércio e desenvolvimento (UNCTAD), segue na frente. Ela teve 9 votos a favor, 5 contra e 1 sem opinião. Porém, dois dos votos contrários vieram de membros permanentes.

Logo atrás aparecem o argentino Rafael Grossi, de 65 anos, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), e a guianense Carolyn Rodrigues-Birkett, de 53 anos, ex-chanceler da Guiana. Os dois tiveram 8 votos a favor e 6 contra. Segundo o jornal The National, cada um também levou dois “não” de potências.
Os outros quatro ficaram bem atrás, de acordo com a RFI. O ugandense Olara Otunnu teve 4 votos a favor e 10 contra. Já o ex-presidente do Senegal Macky Sall somou 5 a favor e 10 contra. Por sua vez, a equatoriana María Fernanda Espinosa, ex-chanceler do Equador, teve 3 a 9, e a também equatoriana Ivonne A-Baki ficou com 1 a 14.

Como funciona a escolha do secretário-geral da ONU?
O artigo 97 da Carta das Nações Unidas diz que o secretário-geral é nomeado pela Assembleia Geral, com 193 países, “mediante a recomendação do Conselho de Segurança”. Ou seja, quem decide de fato é o Conselho. Para recomendar um nome, ele precisa de pelo menos 9 votos e de nenhum veto dos permanentes, regra do artigo 27 da Carta.
O mandato é de cinco anos e pode ser renovado uma vez. Desde 1946, a ONU teve nove secretários-gerais, e nenhuma mulher ocupou o cargo, segundo o relatório do Congresso americano. Além disso, só um latino-americano chegou lá: o peruano Javier Pérez de Cuéllar, entre 1982 e 1991. Por isso, segundo a RFI, a América Latina reivindica o cargo desta vez, e muitos países defendem que uma mulher assuma pela primeira vez.
Qual é a posição das potências?
Os votos são secretos, então não se sabe oficialmente quem vetou quem. Depois da sessão, o embaixador dos Estados Unidos na ONU, Mike Waltz, disse que os países têm o direito de apresentar novos nomes.
“Se alguns países desejarem apresentar mais candidatos, isso está totalmente dentro de seu direito soberano.”
Mike Waltz, embaixador dos EUA na ONU, em 16 de outubro de 2026, segundo a RFI
Para Minh-Thu Pham, ex-assessora de Kofi Annan ouvida pelo The National, o resultado mostra “uma decisão dividida, sem convergência entre os cinco permanentes”, o que abre espaço para novos candidatos. Enquanto isso, Waltz afirmou que Washington quer reforma das missões de paz, do orçamento e corte de burocracia na ONU.
E o Brasil nessa disputa?
O Brasil não está entre os 15 membros atuais do Conselho de Segurança, então não vota nessas rodadas. Mesmo assim, o país teve papel na corrida. O governo brasileiro e o mexicano apoiaram a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet, que retirou a candidatura em 19 de setembro, segundo o Brasil de Fato. Na consulta do dia anterior, ela teve 1 voto a favor e 11 contra.
O tema também aparece nos fóruns de que o Brasil participa. Uma resolução do BRICS, bloco do qual o Brasil faz parte, registra que nenhuma mulher jamais foi eleita para o cargo, segundo o Infobae. Além disso, quem assumir vai comandar a mediação da ONU em crises que mexem com o bolso dos brasileiros, como as guerras que pressionam o preço do petróleo.
O que acontece agora com a sucessão de Guterres?
Ainda não há data para a sétima rodada. Segundo a RFI, novos nomes podem entrar na disputa, e diplomatas lembram que Kofi Annan, em 1996, nem era candidato um dia antes de ser escolhido. Nos bastidores, são citados o búlgaro Nickolay Mladenov e Lana Nusseibeh, ministra adjunta dos Emirados Árabes Unidos.
O relógio, porém, corre contra todos. Em 2016, o próprio Guterres foi escolhido em outubro, depois de seis rodadas, lembra o The National. Agora, com seis rodadas feitas e sete nomes barrados, o Conselho tem menos de três meses para chegar a um acordo antes de 31 de dezembro.

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